quarta-feira, 19 de maio de 2010

O gato que não sabia não ser gato


Um rasto de luz ecoa por entre as árvores vestidas de pássaros. Numa sombra esquecida dorme um gato, gordo, tecido com um pelo fofo e brilhante. De quando em vez espreguiça-se, encolhe as patas devagar e dorme como se o tempo não adivinhasse outra vida para além da sua vida de gato.
Homens gastos pelo tempo tecem conversas de fim de tarde. Numa mesa, na esplanada de um café, um homem, só, escreve desenfreadamente. As palavras, despertas para o tempo, nascem da sua mão como se fossem fios de água a escorrer pelas vidraças num dia aguado.
Os carros circulam nas ruas, cansados de existir. A pressa, o tempo, a incerteza. Tudo existe nesta vida de existir.
A noite por dentro do fim de tarde acabou por cair precipitadamente. Nos ramos das árvores os pássaros entoam uma melodia triste, arrastada pelo canto do vento. Agora que se fez noite e o tempo morreu um pouco mais, o gato  gordo levantar-se-á para uma outra vida, não diferente da sua vida de gato, contudo, idêntica à sua vida de gato, a vida de existir e de ser gato.
O homem parará na sua ânsia de escrever, não esquecendo porém o grito silencioso da palavra.
Antes de o tempo ser tempo a vida não existia. O gato sem ser gato também não. Apenas existia uma eternidade parada à espera que o relógio desse a primeira badalada e começasse a andar, ritmicamente, sempre à mesma velocidade até ao dia em que se cansar e, estático, se detenha para sempre.
Gostava de ser o tempo em que tudo nasceu. Gostava de ser o tempo por dentro do tempo. Gostava de dizer ao tempo para parar de ser tempo. 
O gato continua a passear a sua vida de gato, a sua miserável e austera vida de gato, sem saber, sequer, que um dia não foi gato.
19 de Maio de 2010

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