quarta-feira, 19 de maio de 2010

Eu, tu e o amor

Naquele fim de tarde vinhas sorridente. Trazias um vestido branco, mais puro que a neve pura, e sorrias. Os teus olhos pareciam dois pontos de mel. Nas mãos trazias o tempo para sermos felizes. Eu, atravessado pela dor de já não te sentir, olhava-te como da primeira vez, quando o tempo se deteve para nos amar. Mas o tempo avançou e eu não soube que te perdia. Neste resto de dia, depois de partires, senti essa dor rasgante que mata o tempo sem querer.
Sozinho, seguido apenas pela minha sombra, caminhei muitos dias e muitas noites na esperança, embora vã, de te encontrar. Percorri os dias e as noites, percorri o tempo dentro do tempo. O único sinal de ti era somente a minha memória.
Dentro de mim o tempo chorava. O tempo eras tu quando me sorrias. O tempo eras tu quando, calada, me davas a mão e me sorrias. Mas eu não sabia que o tempo, depois de ti, era também a ferida que ficou quando partiste. O tempo era as horas mortas de não te poder sentir.
Naquele dia trazias o perfume bebido das flores. Trazias o tempo de tudo abraçar. Trazias a magia das manhãs de auroras feitas. Sem perceberes, sorrias-me, e o teu sorriso era o contágio da vida com a vida, era as horas contadas dentro do tempo, era o sentido de tudo ter sentido.
Mas a vida quis ser vida num outro tempo. Ao longe acenaste um último adeus e, sem pressa, caminhaste numa direcção oposta. Deixaste cair o vestido branco e a tua pele resplandeceu. Nenhum olhar me mostraste. Eu deixei-me ficar, preso a mim, preso ao tempo que me impede de te ter.
O vento soprou, leve, o teu nome. As folhas das árvores caem, mortas, ao meu redor, cobrindo o chão de tons tristes. Levanto-me para ir ao teu encontro e, quando te encontrar, dir-te-ei que sim e seremos novamente três: eu, tu e o amor.
19 de Maio de 2010

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