quinta-feira, 20 de maio de 2010

Incógnito

Percorrias o lado errado da noite e o teu olhar misturava-se com as luzes dessa noite clandestina que teimosamente insistias viver. Os passos que davas eram a ausência do teu chão de menina.
Na noite em que tudo nasceu, o teu olhar demorou-se no meu como duas gotas que descem paulatinamente no mesmo vidro, fundindo-se no encontro de si.
A tua presença ia crescendo dentro de mim, espreguiçando-se para o meu novo acordar. Os teus olhos lânguidos tocavam o escuro do meu coração.
Nessa noite em tudo perfeita, fingiste ser a musa dos meus sonhos, a poetisa dos meus versos que eu escrevia a medo sob pena de tornar indizível aquilo que nos unia. Nesses dias de pequenos instantes costurávamos risos à janela e recebíamos as manhãs vestidos de poesia. À noite ouvíamos o gargalhar dos pássaros, felizes, e ríamos enlaçados no poema que nos fez.
A cada acordar teu eu rejuvenescia. A tua pele perfumada e o teu riso inebriante de menina regavam as minhas manhãs.
Por entre a noite que acabou de cair percorro os passos que deste nessa tua noite ida. As luzes que me ferem são todos os dias em que fingiste ser a dor que não te era.
Esse caminho que me é estranho não o faço senão na memória de ti, senão nas palavras dançadas nas tuas mãos que transformavas em borboletas coloridas numa metamorfose única.
Depois de o tempo passar ficaram as tuas lembranças na janela da minha memória, varrida que foi a tua presença outrora incessante. Mortificadas as horas gastas, resta a tua silhueta fixa na luz trémula de um candeeiro.
As linhas tracejadas são agora palavras ocas, palavras mortas e esquecidas num canto por escrever.
20 de Maio de 2010

Sem comentários:

Enviar um comentário