sexta-feira, 21 de maio de 2010

A cadela mãe

A cadela parira cinco cachorros, todos iguais, todos meticulosamente iguais, como se fossem uma cópia sincronizada do mesmo. Doía vê-los assim, nessa irmandade única de serem iguais.
O pastor de todos os dias, que saía pelas manhãs com o seu gado para o monte, notou a ausência da cadela e, num relancear de olhar, avistou-a por entre o feno onde, ofegante, respirava o parto terminado. Os cachorros dormiam todos os cinco encostados à mãe paciente que os protegia dessoutra dor que é existir. No seu olhar, um olhar triste. Triste. Não das vidas que gerou mas do medo de ser pequenina para a dor dessas vidas.
Todos os dias que restam à cadela viver são também os dias que o pastor avançará para o monte no intuito único de ver as ovelhas crescer.
À sombra da tarde, quando o riso do sol queima o resto dos dias tristes, o homem pastor descansa a sua vida feita da ferocidade do tempo que passa.
Por entre os fios de luz que o sol teima em tecer, o vale começa a adormecer sob o efeito do dia composto de cansaço. No ar sente-se o aroma doce das flores que acordam para uma nova primavera.
Nesse passado que também ele dói de existir, quando a cadela, sem saber o que é ser mãe, corria feliz atrás das ovelhas, o pastor sabia existir aquela doçura secreta das manhãs coloridas, feitas de pontos de luz brilhantes e muito sossegados. Parecia ver a vida por dentro da vida.
Os olhos do pastor adormecem também, fechando-se sob o peso do dia. As ovelhas continuam a escolher a erva verde, repasto saciante da sua fome. Os ventres já inchados brilham como luzes dançarinas. A cadela do olhar triste e os seus cachorros são a esperança da vida continuada, dessa vida que se funde no alimento jorrado pelas tetas da cadela e sofregamente sugado pelas bocas tenras e quentes dos cinco cachorros irmãos.
21 de Maio de 2010

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