segunda-feira, 24 de maio de 2010

Amei-te antes de te amar

Filho, faz hoje um ano que nasceste e eu sou o teu pai. Brinco contigo nas horas da tua infância. Quero que saibas, filho, que a este dia te amo um pouco mais, não com a força bruta do amor, mas com o meu amor de pai, pai à força, porque tu exigiste nascer. Seguras no teu olhar a inocência do mundo, mundo que não curas saber ainda o que é.
Quiseste nascer num dia de outono e as tuas lágrimas misturavam-se com a chuva de fim de tarde. Trazias no teu tamanho de menino o sonho de seres grande. Trazias, também, o coração cheio de nada.
Hoje continuo a ser o teu pai, embora tenha morrido no teu olhar. Filho, o teu nome de menino-homem passeia por dentro de mim. No ar, desenhas a canção que te viu nascer, arrancada por ti do ventre da tua mãe. Nesse instante, o mundo parou num êxtase incomum.
Habita em ti a certeza de existires, muito embora te pese a dúvida de seres pequeno. E eu sou apenas o teu pai. Faz hoje um ano que nasceste, filho, e contigo a força abrupta de existires.
Naquele fim de dia em que soube que morrias, a noite tornou-se negra por dentro da noite e com ela morria também a luz dentro de mim.
O mistério do teu olhar repete-se todos os dias no chão do meu desejo. É noite. O sol brinca agora às escondidas com a lua.
Faz hoje um ano que nasceste, filho, e eu lembro tudo aquilo que não te disse, lembro os passeios que não demos, os risos de fim de tarde nos risos das outras crianças que não ouvimos.
Por dentro da tua infância há uma outra infância que chora. Ao teu lado, enquanto dormes, velo o teu sono e peço à noite um sonho sossegado. As tuas mãos fechadas, como se agarrassem a vida. Os teus lábios num sorriso terno. Os teus olhos como dois pontos de luz apagados bordados num sorriso.
E és tão bonito. Porque és o meu filho. Porque eu sou o teu pai.
No alto da colina balança a corda feita do nó que te deu vida. E eu, eu sou apenas o teu pai.
24 de Maio de 2010

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