sábado, 29 de maio de 2010

Criança que morreste

Olhavas-me como se olhasses um retrato por dentro.
O teu sorriso de criança pequena dissipou-se, como que bebido pelo sol quente do fim de tarde. Fazias lembrar a nossa infância quando brincavas sossegado no teu canto de menino.
Mas o sol pôs-se nesse fim de tarde cinzento. O teu sorriso rasgado por dentro era o sol a ir embora, devagarinho, a cair por dentro do mar. O teu peito, gasto de respirar esse ar cansado de vida, subia e descia em ti numa onda que ia morrendo lentamente.
As searas dançavam ao longe, agitadas pela aragem morna da noite que avançava lesta por dentro do dia.
E a noite tornou-se infinita, como se dentro de cada segundo morasse uma eternidade. Como se o tempo tivesse parado dentro de si. Como se essa noite se tivesse repetido sempre, sempre. Todos os dias e todas as noites repetidamente iguais, gastas, mortas, paradas.
Nos teus sonhos de menino costumavas contar-me que vias estrelas a crescer nos teus cabelos. E eu chorava-te nos dias em que tu já não eras. 
A luz fina da noite rasga a obscuridade da terra e cobre com um manto negro todo o campo. As searas murmuram num restolhar feito de dor.
Disse-te que esqueceria, mas hoje, ao voltar a casa, da minha memória saíu esse silêncio que se fez quando tu, ainda menino, nos dizias vou morrer, sei que vou morrer. O teu olhar era triste. O teu corpo cansado. A tua voz morria depois de morrer cada palavra.
A casa continua calada. O teu quarto mostra ainda os brinquedos que eram o teu mundo de criança. As cortinas foram substituídas por pesadas teias feitas por vidas que não a tua. Os vidros deixam entrar uma luz suja que pousa, subtil, na penumbra do quarto. Tudo adormece. Tu, sentado por entre a tua meninice, sorris ao imitar o som dos carrinhos de corrida que avançam, velozes, nas tuas mãos que os seguram, firmes.
E o teu olhar. Hoje voltei a ver o teu olhar de menino. Olhavas-me como se olhasses um retrato por dentro. Penso, talvez a vida seja a morte ao contrário. E um rasgo de solidão entrou pela janela aberta e deitou-se a meu lado.


29 de Maio de 2010

2 comentários: