domingo, 30 de maio de 2010

Nas tuas margens chorei

Era uma noite fria. Chovia como se a água quisesse ferir o mundo. As nuvens carregadas de negro choravam, assim, o seu pesar. As árvores gemiam ao passar do vento. No ar, um choro de pássaros rasa o céu.
Sentei-me nas margens dessa dor que te chora por dentro. O teu rosto de te ver sorrir esculpido nas memórias que se sentam comigo. A tua voz por dentro de mim chama-me a beber do teu olhar. É a tarde que chega e com ela a solidão.
Hoje sou ninguém. Sinto que não sinto que sou. E por dentro do tempo um relógio que recua. As horas e os dias e os meses andam para trás querendo ir ao encontro de ti. Mas o tempo parou num exacto momento de solidão. E o que parecia ser apenas um rasgo de dor tornou-se a própria dor rasgada de dentro de si. E em mim nenhuma certeza. Nada do que faz parte do mundo existe em mim. Nenhum sorriso, nenhum canto, nenhuma lágrima, nenhum pássaro, nenhuma flor. Nada. Ninguém.
Observo a vida, calada. E o teu olhar por dentro de mim rasga-me num sorriso. Dizes-me, não te sentes nas minhas margens a chorar. E o sol sorri dentro de ti dentro de mim. E a tarde a morrer lentamente no dia. E a vida a ser respirada. E no ar o canto fúnebre da tua morte.
Não te quero sujeitar a esta dor, mas tu próprio sabes o que sinto. E dizes, não te sentes nas minhas margens a chorar. E o teu sorriso a olhar-me. E os teus olhos a sorrirem-me. E o teu nome a passear-se por dentro de mim e a tocar todo o meu corpo. E essa luz negra que me cega e transforma em negro a minha solidão.
E tu não sabes que este dia que se fixou em mim me faz viajar por dentro do tempo e me faz virar as páginas dos dias que já foram escritos. Esse tempo que é a morte e a dor e a solidão. E a vida a fazer-se tarde, e a tarde a fazer-se noite, e a noite a fazer-se luz banhada a negro a cobrir um dia que morreu.

30 de Maio de 2010

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