domingo, 11 de julho de 2010

As tardes da avó Júlia, ou, O Riso

A avó Júlia sentava-se todos os dias no terraço frente à cozinha a descascar batatas para a sopa. Ao longe, os gritos das crianças faziam-na recordar a infância que não teve quando, aos cinco anos da sua tenra idade, tinha que se levantar madrugada fora, quando o sol ainda dormia enroscado nos seus sonhos e a manhã ainda não era.
Os seus pés pequeninos mergulhavam na água fria da noite e atreviam-se a brincar com os peixes expectantes de companhia. Mas logo a sua mãe lhe arregalava os olhos mostrando indizivelmente que a hora não era para morrer nos tempos da brincadeira.
Dos seus olhos verde água saltavam assim os peixes para irem procurar num outro lugar outros meninos e outras brincadeiras. A avó Júlia ficava a vê-los afastar-se com os olhos mudos de silêncio. No seu olhar morria a noite que acabara de acordar para um dia quente.
E, naquele dia de solidão, a avó Júlia percebera que o seu destino se fazia de água e de peixes a fugir. Nunca, no tempo que estava para nascer, os seus pés conheceriam outra vida que não as albufeiras de água que formaram o rio da sua infância. E, no seu olhar, uma tristeza infinita.

A noite caiu como que um manto de neve a cobrir o jardim. A avó Júlia olha os campos que se estendem a perder de vista. Os seus cabelos cor de prata enrolados num novelo fino. O seu sorriso negro como a noite acabada de chegar. E por dentro dessa noite que se fez negra ao morrer do dia, a vida toda da avó Júlia num mar de chamas que ardem para lá das searas adormecidas. Ao fundo, também vestido de negro, o rio da sua infância corre manso.
Ao fim do sol-pôr morre o dia como morreu outrora na avó Júlia o sonho de ser criança.

11 de Julho de 2010

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