domingo, 11 de julho de 2010

O Menino

O menino brincava por entre a tarde que chegava. O seu olhar pequenino ia pousando no mundo ao seu redor numa busca inquietante de não saber o que procurar, tamanha era a insaciedade de tudo querer. À passagem da luz que fazia sombra sobre os brinquedos um sorriso grande espelhava-se no olhar do menino, como se o mundo a existir fosse aquele pano bordado de luz onde brincava.
O tempo a fazer de morto fazia demorar-se naquela tarde sem pressa. O menino ia crescendo e já não olhava o mundo com espanto. O menino ia existindo numa vida a esmorecer como um fogo que, depois de extinto, deixa apenas a cinza a existir.
E o olhar do menino era o medo e a morte e a solidão. O olhar do menino era os fins de tarde cinzentos chorados pelas nuvens vestidas de negro.
O sol nascia todos os dias mas parecia ser cada vez mais pequeno, como se de dia para dia morresse um pouco. Ou então era o olhar do menino que, estando a morrer, fazia também morrer o sol de todas as manhãs.
Um dia o menino acordou e não viu o mundo. No seu olhar infinitos pontos negros substituíam o sol, as flores, os pássaros, os outros meninos. O menino chorou, chorou muito, para tentar repor a luz nos seus olhos, como se as lágrimas pudessem lavar todo aquele negro. Mas quanto mais chorava mais negro o seu olhar se tornava. E grossas gotas negras iam caindo no colo do menino.

11 de Julho de 2010

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