quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A Menina

A tarde ia caindo. O dia ia morrendo. Por entre a fraca luz que existia, o tempo corria lento por dentro de um murmúrio incomum. Ao longe, o espaço a sentir o vento dançarino.
A lua desenhava no firmamento um círculo pintado a branco, lembrando uma tela vazia de pintor cansado. Os uivos das raposas ecoavam tristes, passeando-se pelas ruas vestidas de solidão.
A menina dos olhos grandes olhava o mundo com espanto. E de tanto existir, sorria com a força bruta de ser.
No relógio da sala os ponteiros estavam parados. Era uma tarde feita de nada. Era um tempo triste, vestido de negro. Era a solidão esquecida a um canto.
E do berço de poetas nasciam versos de lágrimas, como se o tempo fosse outro nesse tempo, a ser feito de um silêncio apagado.
E a noite, a cair por entre os fios de água, era a vida a diluir-se num rio de memórias tristes. E o tempo, a fazer-se de morto, era o riso de crianças a espreitar à janela.
A menina, cansada de ser triste, sorriu ao tempo e esqueceu-se de ser. Voltou-se para o espelho que a reflectia e mais não viu senão a sua solidão vestida de menina sem cor.


28 de Setembro de 2010

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