terça-feira, 5 de outubro de 2010

Ícaro

O vento soprava aquela brisa suave de fim de tarde. Ela, com o corpo inerte a fazer de conta que via o mundo, respirava a luz do dia ora posto. E o entardecer lembrava a vida.
Ícaro chora num quadro pintado a água e fogo.
De dentro da solidão, um choro miudinho lembra-lhe as tardes postas, feitas a rir, feitas de musas a cantar.
Com o olhar já morto, ela olha as planícies vestidas de nada, o rio isento de tudo, as estrelas mortas a piscar e a lua, redonda, inchada, a rebentar de luz.
À distância o silêncio. Palavra que abraça a noite e enlaça a escuridão. Palavra que rouba à palavra o direito de ser gritada. Silêncio. Palavra calada, cheia de medo, palavra mundo onde jazem os poetas e os mágicos e os outros. Silêncio. Onde tudo é e nada é.
As horas passam naquele relógio parado. Os pássaros dormem e nas suas asas as asas do tempo que calou. As folhas das árvores abanam-se ao passar mudo do vento. E tudo se cala para se adormecer. O chão. As casas. Os homens.

05 de Outubro de 2010

Sem comentários:

Enviar um comentário