quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Mal-me-quer

Mal-me-quer, bem-me-quer. Assim brincava a menina com as pétalas de uma flor.
Naquele dia tudo era estranhamente invulgar, como se uma nuvem tivesse chorado todo o seu negro e coberto a terra com uma tela pintada a cinzento.
No ar um riso de pássaros povoava o céu vestido de nuvens. 
Mal-me-quer, bem-me-quer. Tudo dito pelas pétalas de uma flor. Uma a uma, a menina ia despindo as flores ao mesmo tempo que ia pensando nas pessoas de quem gostava. Mãe: mal-me-quer, bem-me-quer, muito, pouco, nada. Pai: mal-me-quer, bem-me-quer, muito, pouco, nada. Ovelha Zita: mal-me-quer, bem-me-quer, muito, pouco, nada.
A tarde ia passando e a menina acabou por esgotar os nomes, as pessoas, as coisas. À última flor guardou-lhe a vida, o mundo para lá do seu limite. Sabia, porém, que essa lhe era ainda desconhecida e, por isso, lhe reservava imensas surpresas. 
Mal-me-quer, bem-me-quer, muito, pouco, nada. Mal-me-quer, bem-me-quer, muito, pouco, nada. Mal-me-quer. A menina olhou a pétala por arrancar, pousou a flor no chão e partiu com os olhos rasos de água. Às vezes o mundo é um lugar a preto e branco.


15 de Dezembro de 2010

5 comentários:

  1. Minha irmã, consegues, com as tuas palavras, transportar-me para uma infância passada que, por vezes, me parece ter sido vivida numa outra era, num outro mundo, já tanto as coisas parecem ter mudado e já tantos e tantos anos parecem ter passado entretanto...
    Mas, ao ler-te, as memórias regressam do lugar profundo onde adormeceram e vão acordando lenta e preguiçosamente, para se mostrarem mais acessíveis, menos remotas...
    E sabe bem recordar os campos da nossa meninice, floridos de branco e amarelo dos malmequeres e dos dentes-de-leão que pareciam feitos de algodão, sob o azul forte do céu que, no início das Primaveras, nos iludia com promessas de renovação, lembras-te?...
    E por isso, neste mundo tão a preto e branco, tão cheio de tons de cinza, surgem estes rasgos de cor vindos dos teus dedos e do teu coração que me deixam esperançosa, pois sempre vão existir crianças que, como nós um dia, na sua inocência, acreditarão que o mundo é maravilhoso!...

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    1. Sempre que leio este teu comentário assomam-se-me lágrimas aos olhos. E dizes tu que não tens "queda" para a escrita... Amo-te, minha mana!

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    2. São estas cumplicidades, que já vêm do tempo em que éramos crianças, que nos levaram à relação profunda e tão verdadeira que temos hoje.
      também te amo, irmã do meu coração, muito, muito, muito! <3

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  2. Amiga, para já gostei muito da nova "cara" do blogue.
    Além disso, quando desfolhares uma qualquer flor e te lembrares do meu nome vai sair sempre a expressão "bem-me-quer".
    Adorei.

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    1. E tu também, minha querida amiga. Um grande beijinho. :)

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