sábado, 11 de dezembro de 2010

Síndrome do Tempo



Olhei o relógio da sala. Os ponteiros estavam parados. Era uma tarde feita de nada. Era um tempo triste, vestido de negro. Era a solidão esquecida a um canto. E do berço de poetas nasciam versos de lágrimas.
Naquele tempo eras tu a ler-me e os teus olhos sorriam-me. Trazias contigo o sol que vestias por entre as tardes que caíam frente ao mar. E, naqueles dias de entardecer, em que o sol parecia querer rasgar o céu com a sua luz, bebias com fulgor as tardes idas. Do teu peito respiravas um sopro de vida com ânimo, qual Eros embriagado de amor. E sorrias, como se a calma daquele lugar fosses tu a rir por dentro de ti.
O relógio da sala mostra-me as horas ora paradas daquela síndrome de tempo morto. E eu olho-as como se elas fossem o tempo a existir, como se a manhã, a tarde e a noite fossem um tempo só, para fazer daquele dia um uníssono de cores: o azul da aurora nascida, o amarelo fulgente dos campos de trigo, o negro do sol poente adormecido.
Hoje as tuas mãos vestidas de luto avançam o tempo nos ponteiros do relógio da sala. Queres chegar ao fim de ti sem saberes que já morreste, como se o teu olhar ainda risse, como se o corpo que trazes vestido fosse mais do que a sombra do que em ti existiu.

2 comentários:

  1. Amiga, como sempre ler-te é conhecer-te e amar-te.
    Bebo a tua escrita como um copo de água para sobreviver.
    Continua. Muitos beijinhos

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    1. Obrigada, amiga. É recíproco. Ainda havemos de concretizar o nosso projeto de escrita a duas mãos. :)

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