domingo, 20 de novembro de 2011

Micha

No caminhar da solidão, enquanto o chão me foge e as ruas parecem lapsos de memória, procuro-te na tua imensidão de branco vestida. Procuro-te. Procuro. O teu olhar triste a morrer. O teu respirar já sem vida. Procuro o que de ti em mim resta. Não mais que uma lembrança. Suspiro. Na calma do teu olhar vejo-te a rir. E despedes-te com um aceno. Em mim ficou a dor e o desconsolo de ver-te partir nesse mar de águas calmas em que mergulhas. Já não farejas a vida. A tua força abrupta cessou.
Em mim ficou a saudade, não aos pedaços, como fazias com os teus brinquedos, mas inteira, num todo, como um nó cego que nunca mais se desatará. Às vezes ainda te vejo, numa nuvem, num monte de neve, num pedaço de areia fina. Ou então confundo-te com a espuma branca do mar. À noite é nas estrelas que te procuro. Ou na lua. Ou aqui. Procuro-te. Mas tu morreste-me.
Os dias já não são iguais. Agora, quando chego a casa, ouço o teu latido de cadela morta. Procuro-te. Não te encontro, porque tu me morreste, te morreste.
Agora, que te foste, restas-me. Na solidão. Nos dias. Nas noites. Em mim. E digo-te, não sem um pesar profundo, quem dera que estivesses aqui.
(Love you forever, Micha! I will never forget you! Rest in peace!)
Micha: 13 de Junho de 2004 - 10 de Outubro de 2011 

domingo, 13 de novembro de 2011

Simone (2)

Naquele dia escolheu gostar-se. 
O dia amanhecera claro. Havia uma brisa quente. A lua deu lugar ao sol que, preguiçoso, começava a aquecer o dia. Parou para tomar um café. Os homens fitaram-na, num estado de contemplação, como se de uma pedra bruta tivesse nascido aquela escultura-Mulher.
Sentiu-se invadir por uma onda de saudade que rebentou cheia no seu peito. Lembrou-se dos dias sem manhãs, dos entardeceres sem monotonia, das noites de estio em que adormecia com as faces rosadas do cansaço das brincadeiras. E sentiu-se amanhecer, pálida, como aquela manhã.
Passou em frente ao mar. Alguns corpos dourados espraiavam-se na areia quente. Risos de crianças enchiam o ar e uma sintonia controlada emergia da espuma do mar. E aspirou aquele dia como a flor quando acorda numa manhã de Primavera. Sentou-se num banco a contemplar o mar, deixando que os raios de sol lhe queimassem a pele. Sorriu. Incontroladamente, assim, com uma mão cheia de nada, permitiu-se rir.
Levantou-se. As obrigações do dia. O trabalho. O desmoronar daquela manhã que começara em poesia. Despediu-se, pois, daquele lugar e seguiu, serena, em passos de criança, piso o quadrado branco, não piso o quadrado preto, e assim foi caminhando por aquela rua de xadrez.
Quando chegou ao escritório, todos a olharam. Deixou-se penetrar pelos olhares incandescentes da vulgaridade, dos lugares comuns, da rotina, do igual, do dia-a-dia sem ousadias.
Perguntaram-lhe, onde é a festa? Ela olhou-os, com a mesma calma que aquele dia prometia, e respondeu, a festa é em mim.

13 de Novembro de 2011

sábado, 12 de novembro de 2011

Simone

Simone senta-se, todos os dias, frente ao toucador e olha-se demoradamente ao espelho, perguntando-se quem sou eu. Porquê ser eu.
Ali, todos os seus objectos. O espelho. A escova. Os perfumes. Os vernizes. Os batons. A cigarrilha. A vontade de ser Simone.
Hoje apeteceu-me ser Simone. Hoje. Dia cinzento e frio. Simone sai do escritório e atravessa a rua apressadamente. Como ninguém a espera, a não ser a sua solidão, resolve passear-se nas ruas, becos e avenidas da cidade. Numa sala do quarteto, uma música de fundo ressoa das colunas desgastadas pelo tempo. À porta, pessoas esperam o fim da sessão para, então, assistirem à solidão daquela noite, sentadas em bancos de vazio, frente à tela branca que se há-de encher de gente.  Esperam o actor principal, como se este fosse a sua última companhia.
Como seria de esperar, dado o frio do dia demorar-se, ainda, por dentro da noite, as ruas estão quase vazias, despidas de gente.
Simone sentia-se outra. Simone sentia ser tudo menos ela própria. Não ser Simone era também ser Simone. Ser-se Simone era ser tudo aquilo que, não se sendo, é-se. E Simone era-se, assim, timidamente deambulante pelas ruas da cidade.
Num beco triste, que desembocava em sítio nenhum, um velho, de semblante também triste, talvez sendo a sombra daquele beco, contemplava o céu carregado de negro. Olhar jovem, claro, ainda que vestido de luto. Olha Simone. Pede-lhe um cigarro. Simone diz não, não fumo, apenas a minha cigarrilha. O homem parte. Tudo tem o seu avesso. Até a vida.
Simone fica a vê-lo partir, fragmentado em pedaços de nada. A ruína. A ruína de ser-se. A ruína de ser-se gente aos bocados. De ser-se gente apenas pela metade. E Simone sente a dor de ser-se velho no olhar partido daquele homem. E dói-se, também, na ilusão de ser Simone.
Por entre os escombros da noite, Simone sente o frio adensar-se, como que mais nada restasse ao vento senão fustigá-la. As luzes começam a fraquejar, como se o vento lhes levasse a vida. E a noite cansada de ser noite. E ela, na cisão de si, a deixar-se levar pela brisa de ser Simone.
Tudo sendo breve. O homem aos pedaços. O olhar prostrado. A dor que se evapora. A noite. O momento de ser-se. Um resto de cinza, no tampo da mesa, que faz lembrar ainda aquele dia em que a Simone apeteceu ser-se.
12 de Novembro de 2011

domingo, 6 de novembro de 2011

Num dia de Outono

A cidade está deserta. São sete horas e as ruas sozinhas. As montras exibem manequins sem vida, envergando roupas descoloridas. Olhares fixos no vazio. Cai uma chuva miudinha que vai lavando os passeios do pó deixado pelo Verão ora morto.
Numa e noutra casa as luzes vão-se acendendo e as mulheres preparam o jantar, daí, no ar, um cheiro a sopa, a refogados, a fritos quentes.
Uma senhora, velha de se arrastar, vem à varanda estender umas peças de roupa. De vez em quando tosse e suspira mais um fim de dia. Espera a morte como outrora esperou a vida. Há dois Invernos que se esconde do mundo, este vai para o terceiro. Estende, pois, as peças de roupa e cobre-as com um plástico velho na esperança de que estas escapem à ira da chuva. Quatro peças de roupa, não mais, umas cuecas grandes, um par de meias grossas e uma camisola preta, embora já bastante coçada pelo tempo. Talvez seja viúva. Volta para dentro, fecha a porta da pequena varanda e, instantes depois, apaga as luzes. A casa mergulha na penumbra da velhice e na solidão dos anos.
Por entre as luzes da cidade alguns insectos rodopiam, partilhando uma dança incomum. Ela observa todo aquele movimento de vida, harmonioso, e sente um frio estranho, de estranho ser, a invadir-lhe todo o corpo. Aperta o casaco. Continua o seu passeio naquele fim de tarde já sem luz, em que o vento começa a levantar algum lixo que se encontra espalhado pelo chão, papéis velhos, sacos rasgados, folhas secas.
Deixou-se levar, deixou-se ir na fruição do tempo e do espaço a fim de esquecer aquele dia de solidão. Foi então que reparou que aquele lugar lhe pertencia há já muito tempo. Recordou-se das mesmas ruas, dos mesmos lugares, das mesmas montras, dos mesmos manequins. As ruas, as casas, as árvores, tudo continuava igual. Só ela mudara, ainda que, sem o saber, já o soubesse. O mesmo, pensou, o mesmo marasmo, as mesmas pessoas, as mesmas luzes, a mesma chuva que fustigava aquele dia triste. E doía ver-se assim, prostrada no meio da rua, a ouvir, ao longe, o último suspiro da velha que arrancava da corda a roupa que tinha estendido horas antes, como se a corda fosse o suicídio daquela roupa velha, gasta, morta. Volta a ouvir a porta a bater.
O desgaste do dia começa a atormentá-la. As luzes ferem-lhe a cegueira do espírito. O frio trespassa toda a roupa e despe-lhe a solidão. Então, cansada, decide voltar atrás, ao tempo em que a sua única decepção era receber uma prenda repetida no seu aniversário. E lamenta-se por ter continuado a viver.

05 de Novembro de 2011

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Mulher-neblina

Uma neblina densa cobria a cidade. Um cheiro quente e adocicado enchia a noite. Marilyn escutava o silêncio espesso que penetrava as árvores do jardim imobilizando-lhes as folhas. A casa mergulhava, também, naquele silêncio e estava vestida de uma penumbra fresca. O aparador da sala exibia uns objectos antigos e uma fina camada de pó, como um lençol de cetim muito branco, cobria o seu tampo. Ao longe, muito de vez em quando, pássaros choravam molemente aquele fim de dia. Os candeeiros começavam a acender-se para beber a escuridão que caía lentamente sobre a cidade. O rio sussurrava um murmúrio triste e o dia morria, cansado.
Marilyn trocou de roupa e saíu para sorver o ar fresco da noite. Deambulou pela cidade, com o olhar rasgado pela solidão e um traço fino de saudade a delinear-lhe o rosto.
Aquela noite opaca, pintada de negro escuro, prometia, contudo,  ser quente. Marilyn caminhava à beira do rio, olhando as águas prateadas onde se reflectia a cidade adormecida. Os gatos vadiavam, procurando aqui e além restos de existência morta. Alguns homens, abandonados, lançavam sorrisos ao ar, eram os loucos de todas as noites que perambulavam por ali. Sem sorte. Sem outros. Sem ninguém. Sozinhos. Eles consigo mesmos.
Nalguns bancos, perdidos entre abraços, alguns casais de namorados inventavam histórias felizes, camufladas por juras de amor eterno. Como se o amor fosse eterno. Como se o amor fosse, sequer.
O vento assobia uma canção triste e o rio chora fios de água morrente. A cidade dorme, inteira, e o único sinal de vida naquele lugar esquecido, perturbador, continua a ser o dos gatos que vagueiam, taciturnos, pela noite. E aquela neblina, espessa, impenetrável, ia crescendo e abraçando toda a cidade.
A ela davam-lhe o nome de mulher-neblina, talvez porque ela se confundia, todas as noites, com o perfume branco das estrelas.

26 de Outubro de 2011

Os relógios

Ela vestia-se todos os dias como se fosse sair. Depois sentava-se à espera que o dia passasse, a olhar para o relógio da sala que insistentemente fazia tic-tac, tic-tac, num ritmo nervoso. Um dia decidiu sair mesmo. A vida.
Homens conversavam e jogavam às cartas em botequins de rua. Algumas famílias passeavam na solidão dos jardins e velhos dormitavam nos bancos de madeira onde, outrora, ainda jovens, se enamoraram.
O chão, atapetado de folhas daquele Outono ainda quente, estalava ao passar das gentes, como se as folhas gemessem de dor. No ar fazia-se ouvir o pregão do assador de castanhas, dois euros a dúzia, freguês, dois euros a dúzia.
O sol descia a colina a pique e mortificava a sua luz na montra dos relógios. O Mestre Zé, com a sua bata de relojoeiro, sustentando no olho direito um óculo desajeitado, limpava o pó a cada peça e voltava a colocá-la no seu lugar, enquanto os transeuntes paravam a olhar o tempo. O tempo. Havia relógios de todas as formas e tamanhos, de pé, de mesa, de parede, e todos, todos, marcavam com precisão a mesma e exacta hora, e os pêndulos, todos alinhados como num concerto, moviam-se num só ritmo, ora para a esquerda, ora para a direita. Quando algum deles saía do ritmo, lá ia o Mestre Zé, com um preciosismo tal, voltar a marcar-lhe o tempo. Havia vida naqueles relógios. Havia uma vida ritmada à ordem do Mestre Zé.
Ela atravessou a rua para ver os relógios. Tic-tac, tic-tac, num ritmo nervoso. Depois seguiu, rua abaixo, em direcção à Ribeira. Por ali passeava-se um ou outro casal de namorados, alguns cães dormitavam ao sol e pombas amigalhavam aquele resto de dia junto às esplanadas dos cafés.
Viu, também, rostos vulgares, rostos do dia-a-dia, limpos de maquilhagem, espelhos do cansaço, que esperavam, paciente e molemente, o autocarro das dezoito horas.
Chegou a casa e abraçou-se à sua solidão. Olhou o relógio da sala que estava parado em hora nenhuma. Estava parado naquele momento só seu ao qual nenhum tempo podia aceder, ao qual nenhum relógio fazia tic-tac, tic-tac. Sentou-se. Quieta. E ruíu, ruíu num estilhaço só, como se a morte fosse feita de barro.

26 de Outubro de 2011 

segunda-feira, 11 de julho de 2011

O casal de velhos

Ela estava sentada como se esperasse o amanhã ainda morto. Ele escrevia poesia, todas as manhãs, antes de o sol se incendiar no horizonte. Ambos sabiam que as suas vidas se escreviam ao sabor de cada manhã inerte. Ela escutava a sua respiração, que a cada dia era mais descompassada, fruto de uma anomalia congénita nos pulmões que se agudizava com a velhice.
Ela fundia-se, todas as manhãs, com a vida numa simbiose perfeita. Ele prendia a si, todas as manhãs, a vida, com a sua poesia, para se lembrar, a cada dia, do que foi, esquecido que já era até das suas memórias.
Às vezes olhavam-se, calados, e aquela imagem fazia lembrar uma tela antiga, daquelas que emergem de uma moldura velha, dourada, gasta pelo tempo e pela vida.
De quando em quando ele sufocava numa tosse seca, dura, provocada por anos a fio a fumar tabaco barato vindo de Cuba. Ela levantava-se, dava-lhe umas palmadinhas nas costas e dizia-lhe, está tudo bem, já vai passar, e dava-lhe um rebuçado de menta.
Ele quase que asfixiava no seu próprio muco, ficava vermelho, quase roxo, cuspia uma bola de sangue e voltava à sua poesia. Para sempre haveria de escutar o som daquela voz, companheira dos seus dias mais férteis, mas também dos mais doentios.
Às vezes ela dormitava frente ao lume, recostada numa cadeira de lona, os cabelos brancos, finos, a penderem-lhe na testa e as suas mãos sobre o regaço já sem vida. Ele ficava a vê-la dormir, como fazia nos tempos de juventude quando, depois de terem feito sexo, ela adormecia com as faces roburizadas, com o cabelo ainda mais brilhante e uma das pernas flectidas por fora do lençol. Era então que ele sentia que ainda a amava, não por fora, naquele corpo velho, doente, mas por dentro, por dentro do olhar dela, já sem luz, mas que ainda reflectia toda a sua imagem de menina-mulher.
Nunca saíam um sem o outro, ainda que a ela não lhe apetecesse sair e ele também quisesse ficar, mas lá se arranjavam, sem pressas, pois a morte era a única que os esperava, e lá iam, de braço dado, passear por entre a multidão atarefada. Às vezes ela cansava-se e tinham que parar. Ele voltava a lembrar-se dos tempos idos em que, juntos, mergulhavam nus num entardecer de águas tépidas. E o seu riso de menina, misturado com a maciez da sua pele, ecoava por aquela floresta densa de emoções que era o seu coração já gasto. Ele esperava, pacientemente, que ela se recompusesse para continuarem o seu trajecto de amantes solitários.
Ela tinha-lhe, em tempos, perdoado uma traição. Estava sentada, no alpendre, com os cabelos soltos que esvoaçavam ao passar da brisa tardia, a coser um botão no bibe do filho mais novo, quando ele lhe confessou, como confessava tudo, que a tinha traído com a empregada da semana. O seu olhar, fixo no botão amarelo de menino, humedeceu-se de fúria, de amor contido naquele filho que gerara, de rebentamento da felicidade que tinha sido a sua vida até àquele instante. Ela nada disse. Aquele botão pregado seria o seu único confidente, tal a força com que a agulha perfurava cada um dos seus orifícios e penetrava o tecido do bibe do menino, como se fora o próprio corpo do marido a ser cruelmente atingido com a dor do seu remorso. A sua vida estava a ponto de quebrar-se como aquela linha que cosia o botão se fosse puxada com apenas um pouco mais de força.
Recompôs-se, porém, levantou-se, fugindo-lhe com o olhar para que ele não percebesse que sofria e foi para o quarto fazer as malas. Iria sair de casa pois, de todos os pecados que ele poderia ter cometido, aquele seria o mais mortal para eles: aniquilaria para sempre aquela vida sustentada na verdade de serem dois.
Todos os dias ele a esperou, ao fim do dia, à saída do escritório onde ela arranjara trabalho. Todos os dias, todos os meses, todos os anos, toda a vida.
Até que um dia, sem ela ainda o saber, voltou a sentir amor por aquele homem, um amor que lhe enchia a pele de um perfume branco, que a fazia respirar um ar que não o das manhãs por abrir.
Ele escrevia-lhe, todas as manhãs, um poema, não de amor, desses que se gastam pelo tempo e morrem pela força das palavras. Escrevia-lhe sobre ela, contava-lhe como a amava em segredo quando a via a dormir, a ler, a pentear-se, a preparar-se para uma festa. Contava-lhe, em cada poema, todos os pormenores que ela se desconhecia, porque não se via como ele a via. Cada folha de papel continha um mistério que era só deles.
E assim se foi apagando aquele instante de loucura em que ele, no corpo da empregada, procurava os sinais do corpo dela, embriagado por uma cegueira doentia de querer voltar a ele.
Reaprendeu a amá-lo, não inteira, mas com a convicção de que podiam voltar a ser cúmplices de um amor aos pedaços.
Às vezes parava a olhar os casais de namorados e os seus olhos voltavam a ganhar luz, mas logo esmoreciam quando ele lhe dizia, anda, já somos velhos para isso. Ela olhava-o, como que a puxá-lo para trás, para a sua juventude há muito perdida. E o seu olhar caía como um pano a encerrar uma peça de teatro.
Lá seguiam, rumo a casa, onde os esperava o cão, deitado à soleira da porta, único sinal de vida fresca naquela casa.
Naquela noite deitaram-se muito juntos. Entrelaçaram os dedos e os seus corpos magros tocaram-se. Sentiram, momentaneamente, as dores de serem velhos, até que se adormeceram sob um luar pálido que lhes entrava pelo quarto para beber aquela noite morna.

11 de Julho de 2011

O guarda-sol


Ele caminhava por entre os fios de luz que caíam por dentro da tarde. O crepitar das folhas secas, despidas de seiva, morriam um pouco mais sob os seus pés que as pisavam, indolentes.
Helena tinha adormecido e ele saíra para comprar cigarros. No café da praça, sentadas debaixo de chapéus às riscas, pessoas conversavam e bebiam cerveja.
Ele entrou e sentou-se na última mesa, ao fundo, como se fugisse daquele emaranhado humano de vozes empalidecidas.
Leu o jornal à pressa, como se a sua existência naquela tarde fossem as letras negras a chorar por dentro daquele jornal. Fumou um cigarro e pensou na vida, pensou em Helena, a dormir, naquele fim de tarde sereno, com os seus longos cabelos negros a vestirem a almofada e a sua pele macia e branca a confundir-se com o cetim dos lençóis. Helena era uma mulher bonita, jovem, que saciava a sua vida com um simples respirar. Não exigia muito para ser feliz. Ele, pelo contrário, manobrava a sua existência com dotes de filósofo. Perguntava-se, insistentemente, se aquela vida que tinha escolhido para si era o bastante para se superar a si mesmo.
O dia suspendera-se numa memória incomum. Na rua, as pessoas continuavam a tagarelar, enquanto o sol tentava rasgar com a sua fúria os guarda-sóis envelhecidos pelo tempo. Os empregados, de avental preto e camisa branca a contrastar, respiravam aquele dia quente, deixando escorrer as gotas de suor pelas faces cansadas.
Ele assistia a todo aquele existir. A cada vida que lhe sorria ele inquietava-se, questionando-se como é que as pessoas podem ser felizes. A questão essencial na sua vida, em suma, era essa: a felicidade. Se a cada dia ele ia morrendo, por fora e por dentro, como podia desejar ser feliz, ser feliz, apenas... Sentia-se só.
Às vezes caminhava por entre ruas perdidas, mortas, e sentia vontade de pegar na sua sombra e fugir. Mas, para onde quer que ele fosse, haveria sempre um sítio do qual ele nunca poderia escapar: de si... A menos que...
Não, pensava, não posso deixar Helena, ela precisa de mim. Que homem serei eu ao abandonar-me? 
A morte, pensava.
Levantou-se, pagou o café que entretanto bebera, saíu. O dia pesava-lhe, como se fosse um sobretudo de Inverno que tivesse vestido. O zumbido das moscas que enegreciam o ar pesava-lhe, também.
Foi até ao cais, olhar o ponto onde rio e mar se interceptam, e viu ali, também, o cais da sua solidão. O ar estava morno e o dia começava a desfazer-se em pequenos fragmentos de luz. Das casas, janelas, como se fossem olhos, feriam-no com a sua presença obsidiante. E todas aquelas vidas, tristes, mergulhavam por dentro de si como num mar de solidão.
Fumou mais um cigarro enquanto percorria com o olhar toda aquela existência fanática. Olhou o mar, com um olhar breve, vestido de negro e de solidão. Aquele dia quente anunciava uma noite branda.
Ali perto, sentado num banco desgastado pelo tempo e pelas lágrimas do mar, um velho distribuía milho a uma infinidade de pombas, todas iguais, quer na forma, quer no tamanho. Sorria. Ao dia, às pombas, ao cais, à vida. O velho era feliz, naquela existência cruzada entre as pombas e um banco morto onde, todas as tardes, se sentava a ver o rio, a ver o mar.
Ele decide regressar a casa onde Helena o aguarda. No café, os guarda-sóis, já fechados sobre si, começam a adormecer-se para amanhã, de novo, resguardarem novas vidas que se sentarão debaixo de si para fugir à ira do sol.
Os candeeiros acendem-se naquele entardecer já pálido, à volta dos quais insectos dançam uma marcha fúnebre, embriagados, porém, pela vida que se lhes veste. Ele caminha, vagaroso, pela rua empedrada, cuja vida se resume, naquele momento, aos animais que preguiçam no fim de um dia cansado.

11 de Julho de 2011

domingo, 29 de maio de 2011

Na hora de pôr a mesa

Na hora de pôr a mesa éramos sempre dois: eu e tu. Até que, desgastado pelo tempo, te foste esquecendo de te sentar comigo. O teu prato, talher, copo, em todos os meus gestos repetidamente iguais, eram teus e daquele lugar vazio. Quando me sentava, aquilo que via era o teu rosto difuso na sombra do prato. O silêncio, interrompido apenas pelas notícias que não ouvíamos pois deixávamo-nos levar pelo atemporal dos nossos lugares, à medida que o tempo ia retalhando e esboroando as nossas almas, corroídas já pelo cansaço de sermos. De sermos nós. De sermos eu e tu na hora de pôr a mesa.
Uma e outra vez fomo-nos esquecendo de rir. Abríamos a porta ao nosso silêncio, entrávamos, sentávamo-nos com ele à mesa. Assim, na hora de pôr a mesa, passámos a ser quatro: eu, tu, o meu silêncio, o teu silêncio.
Aquele lugar ainda existe. O teu olhar, embora morto no prato vazio, esconde a saudade em que, na hora de pôr a mesa, éramos efectivamente dois. E dói ver-te assim, morto, num prato vazio.
As noites foram crescendo, como que perpetuadas num tempo que girava eternamente sobre si, como se o pêndulo do próprio tempo se tivesse suspendido numa isocronia agora morta.
Num canto, os teus brinquedos, cobertos com um manto de pó cinzento, à espera de serem sepultados num funeral à chuva. Ainda lá está o teu cavalinho que, de quando em vez, oscila, como que puxado pela tua vontade de a ele voltar.
Na hora de pôr a mesa éramos dois: eu e a tua solidão em mim. Fui-me habituando à tua ausência até que, um dia, na hora de pôr a mesa, era apenas eu. Tu quiseste sentar-te mas o teu lugar já estava morto e eu, só nesse dia, o percebi.

29 de Maio de 2011

terça-feira, 24 de maio de 2011

Auto-retrato da solidão

Ela sentou-se no banco negro do jardim e deixou-se enlaçar pelo prelúdio da noite. Aos seus pés, o nada daquele dia embrulhado num manto de solidão. No rosto o traçado do tempo. No peito a saudade daquilo que não foi. O musgo quente acaricia-lhe os pés enquanto regados com lágrimas de solidão.
A noite estava vestida de silêncio e as luzes incandesciam o céu com o seu olhar. A rua como que avançava para si, nua, atravessando-lhe o corpo para morrer longe.
O vento assobiava, num murmúrio triste, por entre as folhas das árvores. Os pássaros, quietos, adormeceram-se há muito.
Um leve esvoaçar de folhas secas fez estremecer toda a quietude da noite. Fê-la, também, sobressaltar.
A noite foi entrando na noite, de mansinho, cobrindo cada momento com o seu manto negro. Ela, naquela ausência de si, cobre os ombros com um xaile branco que a sua avó lhe dera, era ela ainda criança. No seu olhar, a sombra da noite. Na sua pele, o escuro tingido do luar. Nos seus lábios, o gosto amargo da solidão.
Aquela noite, pedaço rasgado de todas as noites findas, era o presságio da solitude.  Era a calma de um lugar, contudo, a turbulência do perene desconforto. Era o amor a ir embora.
A chuva começa a cair, ao de leve, fazendo pequeninas covas na terra feita pó. Alguns pássaros acordam. Ela olha aquela noite com a leveza do amor.
Gosto quando tudo se cala, pensa. Gosto quando a ausência de mim se transforma na dor inquietante de me querer, pensa. Gosto, sobretudo, quando o vento faz calar o silêncio, pensa. Porque o silêncio, como o amor, também dói.

24 de Maio de 2011

quarta-feira, 23 de março de 2011

opmet O

O tempo era outro. O dia tinha acordado de maneira diferente. Tinha acordado ao contrário. Ela deitou-se, lavou os dentes, jantou. Depois saiu. A paragem não tinha gente, o autocarro chegou, ela sentou-se no lugar comum e entrou. Percorreu a distância habitual. O escritório também estava vazio. Ela começou a escrever à máquina, no timbre ritmado de todos os dias, pôs os óculos e sentou-se. Depois saiu. Lá fora espera o autocarro. Dois minutos. Três minutos.
Chega finalmente a casa. Entra, toma banho e levanta-se. É dia.
A manhã está cinzenta, embora se anuncie um dia quente. Ela olha para o relógio da cozinha que marca sete horas. Também o seu relógio de pulso e o do quarto e o da sala. Todo o tempo parado nas sete horas. Sem perceber o intuito do tempo, atrasa os ponteiros de todos os relógios até ser noite. Então, despe a roupa devagar, lava os dentes, escorrega na cama e deixa-se adormecer. Amanhã o tempo irá acertar-se de novo com a vida.

23 de Março de 2011

quarta-feira, 2 de março de 2011

Ela

Ela põe, todos os dias, a mesa. Meia mesa, no vazio de toda a mesa. O prato, a faca do lado esquerdo, o garfo do lado direito. Ela é canhota. O copo. A garrafa de vinho pendente da semana.
Tem por companhia a ausência dos outros. Tem por hábito rir da sua própria solidão.
Nos lábios, o vermelho sangue deixa no copo a marca do batom, ora morto.
Na sala, a luz ténue de um candeeiro incide sobre aquela mesa vazia do todo.
Enquanto come, finge conversar com um escritor qualquer, daqueles que se lêem por não haver mais nada para fazer, quando o tédio supera o próprio tédio. A personagem, única no livro, faz uma incursão sobre a sua própria vida, constatando que esta tem, até ao momento, tanto de breve, como de inútil. Pousa o livro. Está sem paciência para o existencialismo.
Levanta-se e, como que num ensaio de lucidez, repara que o dia, que já ia longo, deu lugar a uma noite branda, tecida com uma luz muito branca, muito clara. 
Acende a cigarrilha que, como ela, estava esquecida, e sopra o fumo que sobe, lento, enquanto observa o dia que se fez noite, a noite que se fez solidão. No meio do tempo, uma valsa de estrelas dança num céu feito daqueles retalhos de escuridão. Um mocho agoniza, ao longe, um suspiro triste, como se daquela noite não restasse mais nada senão o lugar comum que é a morte. Tudo, naquela noite, se resume a um infinito de dor. O olhar dela. A sombra dela. A cigarrilha acesa entre os dedos dela. 
O asfalto, também ele negro da tinta da noite, começa a levantar um fumo branco, um fumo fino que arrefece a noite. 
E o tempo, que deixa de ser tempo para ser outra vez solidão, ri de si. Ela deixa elevar o fumo da cigarrilha que se perde no tecto da sala, como se penetrasse a tinta já escurecida pela noite. Olha a mesa onde, parada, se encontra a garrafa vazia. O copo tombado. O prato meio despido. Os talheres já trocados pelo toque do vinho. O livro esquecido e o escritor, por dentro dele, mudo. 
Ela vai voltar a pôr a mesa. Amanhã. No outro dia. E no outro. Meia mesa naquele vazio de toda a mesa. Outro escritor lhe fará companhia, talvez daqueles que matam o tempo a rir. Os outros estarão novamente ausentes. Os outros. E ela rirá de si, como faz todas as noites, quando, por entre a troca dos talheres, se esquece que é canhota e bebe o vinho, a rir, à espera que o escritor adormeça dentro do livro e ela possa acender, na solidão da sua companhia, a cigarrilha. 


2 de Março de 2011

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Ensaio sobre o amor

Mãe, quando morremos somos aquelas estrelas pequeninas, pergunta a menina. 
Sim, somos todas aquelas estrelas que nos piscam o olho a rir.
Mãe, qual delas é o mano, volta a perguntar. A mãe olhou todas aquelas estrelas que doíam e, no silêncio que se esconde por trás de todas as dores do mundo, não soube responder à menina. Nos seus olhos habitavam rios de água, albufeiras de dor que, indizíveis, tristes até, procuravam o menino.
A mãe procurava o olhar do menino, os cabelos do menino, o riso do menino, o encanto mágico das noites frias e o abraço quente do menino. A mãe procurava e tudo o que via eram milhares de luzes nos seus olhos, todas iguais e a rir. Não há sofrimento maior que o amor, pensa.
A menina, que via o amor do outro lado, que via o amor por dentro do amor, diz, mãe, o mano disse que, quando morresse, para eu olhar para o céu para ver o amor.  Sabes o que é o amor, mãe? O amor é aquelas estrelas mais pequeninas, é os meninos e meninas que, à noite, se sentam comigo à janela a contar histórias de poetas. E riem, riem muito, e dizem que o amor é as estrelas a rir. Estás a ver, mãe, as estrelas estão a rir. 
A mãe, que apenas conhecia o sofrimento do amor, abraça a menina e cala a voz num suspiro breve.
A menina, que via o amor do outro lado, diz, mãe, não chores. Sabes, o amor não tem que doer. 

24 de Fevereiro de 2011

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Um conto de amor

O mestre Joaquim ensinava o amor. Todas as manhãs, no madrugar da praia branca, depois de o céu ter suportado todo o negro da noite, o mestre Joaquim ensinava, pacientemente, o amor. 
Todos os dias, pelo sol-pôr, o mestre Joaquim saía em direcção à praia para se vestir de mar. Regressava de madrugada para se descansar, quando todos na casa se levantavam para os seus afazeres ordinários. Era assim a vida de mestre Joaquim, feita de desencontros, feita de olhares que não se viam.
E o tempo ia passando, cravando com rugas fundas o rosto do mestre Joaquim. O seu filho, esse ia crescendo, mas mestre Joaquim desconhecia o seu tamanho.
Num dia particular, que de particular tinha a vontade de ser outro, o regresso do mestre Joaquim é feito de um amanhecer sem luz, onde não encontra nada senão o luto da sua casa. As janelas ostentam o negro das portadas de madeira velha. A porta da rua encontra-se aberta para receber as vidas dos outros. No interior da casa, o silêncio, apenas o silêncio e o olhar mudo do mestre Joaquim. 
O dia surgia num ambiente de luz clara. Mestre Joaquim solta um suspiro carregado de dor e volta para o mar onde, todos os dias, deposita a sua vida feita de peixe, de mar e de sal. 
Ao ver aquele dia pintado de luz clara sente como que a vida a passear-se no seu olhar. 
As gaivotas esperam ansiosamente o repouso do dia. As redes descansam no areal da praia branca para logo logo voltarem a mergulhar no mar pelas mãos pesadas, cansadas, do mestre Joaquim.
Os candeeiros de luz morrem para mais um dia que nasce. 
Os anos foram passando e os dias do mestre Joaquim eram passados frente ao mar. Ao fim da tarde, antes do sol tocar o mar e nele mergulhar a sua luz, o mestre Joaquim contava histórias aos meninos. Ensinava-lhes o amor. Ensinava-os a reparar nas prosas dos poetas que cantavam o amor. Ensinava-os a dividir o tempo. 
Um dia, um rapazinho tímido, magro, com os olhos grandes da cor do mar, perguntou-lhe, porque nos ensinas, todos os dias, o amor? O mestre Joaquim olhou o líquido da água nos olhos do menino, avistou o céu, alto, onde se descansava o seu filho de tamanho desconhecido, e respondeu, porque eu nunca soube mostrar o amor.
Hoje o tempo é outro. Hoje o mestre Joaquim vê as flores a rir na Primavera. Vê as gaivotas a esperar pelo fim da tarde. Vê a vida. Vê, sobretudo, o amor. É por isso que todas as manhãs, no madrugar da praia branca, depois do céu ter suportado todo o negro da noite, o mestre Joaquim ensina, pacientemente, o amor. Ele próprio é o seu principal aprendiz.




16 de Fevereiro de 2011