sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Ensaio sobre o amor

Mãe, quando morremos somos aquelas estrelas pequeninas, pergunta a menina. 
Sim, somos todas aquelas estrelas que nos piscam o olho a rir.
Mãe, qual delas é o mano, volta a perguntar. A mãe olhou todas aquelas estrelas que doíam e, no silêncio que se esconde por trás de todas as dores do mundo, não soube responder à menina. Nos seus olhos habitavam rios de água, albufeiras de dor que, indizíveis, tristes até, procuravam o menino.
A mãe procurava o olhar do menino, os cabelos do menino, o riso do menino, o encanto mágico das noites frias e o abraço quente do menino. A mãe procurava e tudo o que via eram milhares de luzes nos seus olhos, todas iguais e a rir. Não há sofrimento maior que o amor, pensa.
A menina, que via o amor do outro lado, que via o amor por dentro do amor, diz, mãe, o mano disse que, quando morresse, para eu olhar para o céu para ver o amor.  Sabes o que é o amor, mãe? O amor é aquelas estrelas mais pequeninas, é os meninos e meninas que, à noite, se sentam comigo à janela a contar histórias de poetas. E riem, riem muito, e dizem que o amor é as estrelas a rir. Estás a ver, mãe, as estrelas estão a rir. 
A mãe, que apenas conhecia o sofrimento do amor, abraça a menina e cala a voz num suspiro breve.
A menina, que via o amor do outro lado, diz, mãe, não chores. Sabes, o amor não tem que doer. 

24 de Fevereiro de 2011

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Um conto de amor

O mestre Joaquim ensinava o amor. Todas as manhãs, no madrugar da praia branca, depois de o céu ter suportado todo o negro da noite, o mestre Joaquim ensinava, pacientemente, o amor. 
Todos os dias, pelo sol-pôr, o mestre Joaquim saía em direcção à praia para se vestir de mar. Regressava de madrugada para se descansar, quando todos na casa se levantavam para os seus afazeres ordinários. Era assim a vida de mestre Joaquim, feita de desencontros, feita de olhares que não se viam.
E o tempo ia passando, cravando com rugas fundas o rosto do mestre Joaquim. O seu filho, esse ia crescendo, mas mestre Joaquim desconhecia o seu tamanho.
Num dia particular, que de particular tinha a vontade de ser outro, o regresso do mestre Joaquim é feito de um amanhecer sem luz, onde não encontra nada senão o luto da sua casa. As janelas ostentam o negro das portadas de madeira velha. A porta da rua encontra-se aberta para receber as vidas dos outros. No interior da casa, o silêncio, apenas o silêncio e o olhar mudo do mestre Joaquim. 
O dia surgia num ambiente de luz clara. Mestre Joaquim solta um suspiro carregado de dor e volta para o mar onde, todos os dias, deposita a sua vida feita de peixe, de mar e de sal. 
Ao ver aquele dia pintado de luz clara sente como que a vida a passear-se no seu olhar. 
As gaivotas esperam ansiosamente o repouso do dia. As redes descansam no areal da praia branca para logo logo voltarem a mergulhar no mar pelas mãos pesadas, cansadas, do mestre Joaquim.
Os candeeiros de luz morrem para mais um dia que nasce. 
Os anos foram passando e os dias do mestre Joaquim eram passados frente ao mar. Ao fim da tarde, antes do sol tocar o mar e nele mergulhar a sua luz, o mestre Joaquim contava histórias aos meninos. Ensinava-lhes o amor. Ensinava-os a reparar nas prosas dos poetas que cantavam o amor. Ensinava-os a dividir o tempo. 
Um dia, um rapazinho tímido, magro, com os olhos grandes da cor do mar, perguntou-lhe, porque nos ensinas, todos os dias, o amor? O mestre Joaquim olhou o líquido da água nos olhos do menino, avistou o céu, alto, onde se descansava o seu filho de tamanho desconhecido, e respondeu, porque eu nunca soube mostrar o amor.
Hoje o tempo é outro. Hoje o mestre Joaquim vê as flores a rir na Primavera. Vê as gaivotas a esperar pelo fim da tarde. Vê a vida. Vê, sobretudo, o amor. É por isso que todas as manhãs, no madrugar da praia branca, depois do céu ter suportado todo o negro da noite, o mestre Joaquim ensina, pacientemente, o amor. Ele próprio é o seu principal aprendiz.




16 de Fevereiro de 2011