quarta-feira, 23 de março de 2011

opmet O

O tempo era outro. O dia tinha acordado de maneira diferente. Tinha acordado ao contrário. Ela deitou-se, lavou os dentes, jantou. Depois saiu. A paragem não tinha gente, o autocarro chegou, ela sentou-se no lugar comum e entrou. Percorreu a distância habitual. O escritório também estava vazio. Ela começou a escrever à máquina, no timbre ritmado de todos os dias, pôs os óculos e sentou-se. Depois saiu. Lá fora espera o autocarro. Dois minutos. Três minutos.
Chega finalmente a casa. Entra, toma banho e levanta-se. É dia.
A manhã está cinzenta, embora se anuncie um dia quente. Ela olha para o relógio da cozinha que marca sete horas. Também o seu relógio de pulso e o do quarto e o da sala. Todo o tempo parado nas sete horas. Sem perceber o intuito do tempo, atrasa os ponteiros de todos os relógios até ser noite. Então, despe a roupa devagar, lava os dentes, escorrega na cama e deixa-se adormecer. Amanhã o tempo irá acertar-se de novo com a vida.

23 de Março de 2011

quarta-feira, 2 de março de 2011

Ela

Ela põe, todos os dias, a mesa. Meia mesa, no vazio de toda a mesa. O prato, a faca do lado esquerdo, o garfo do lado direito. Ela é canhota. O copo. A garrafa de vinho pendente da semana.
Tem por companhia a ausência dos outros. Tem por hábito rir da sua própria solidão.
Nos lábios, o vermelho sangue deixa no copo a marca do batom, ora morto.
Na sala, a luz ténue de um candeeiro incide sobre aquela mesa vazia do todo.
Enquanto come, finge conversar com um escritor qualquer, daqueles que se lêem por não haver mais nada para fazer, quando o tédio supera o próprio tédio. A personagem, única no livro, faz uma incursão sobre a sua própria vida, constatando que esta tem, até ao momento, tanto de breve, como de inútil. Pousa o livro. Está sem paciência para o existencialismo.
Levanta-se e, como que num ensaio de lucidez, repara que o dia, que já ia longo, deu lugar a uma noite branda, tecida com uma luz muito branca, muito clara. 
Acende a cigarrilha que, como ela, estava esquecida, e sopra o fumo que sobe, lento, enquanto observa o dia que se fez noite, a noite que se fez solidão. No meio do tempo, uma valsa de estrelas dança num céu feito daqueles retalhos de escuridão. Um mocho agoniza, ao longe, um suspiro triste, como se daquela noite não restasse mais nada senão o lugar comum que é a morte. Tudo, naquela noite, se resume a um infinito de dor. O olhar dela. A sombra dela. A cigarrilha acesa entre os dedos dela. 
O asfalto, também ele negro da tinta da noite, começa a levantar um fumo branco, um fumo fino que arrefece a noite. 
E o tempo, que deixa de ser tempo para ser outra vez solidão, ri de si. Ela deixa elevar o fumo da cigarrilha que se perde no tecto da sala, como se penetrasse a tinta já escurecida pela noite. Olha a mesa onde, parada, se encontra a garrafa vazia. O copo tombado. O prato meio despido. Os talheres já trocados pelo toque do vinho. O livro esquecido e o escritor, por dentro dele, mudo. 
Ela vai voltar a pôr a mesa. Amanhã. No outro dia. E no outro. Meia mesa naquele vazio de toda a mesa. Outro escritor lhe fará companhia, talvez daqueles que matam o tempo a rir. Os outros estarão novamente ausentes. Os outros. E ela rirá de si, como faz todas as noites, quando, por entre a troca dos talheres, se esquece que é canhota e bebe o vinho, a rir, à espera que o escritor adormeça dentro do livro e ela possa acender, na solidão da sua companhia, a cigarrilha. 


2 de Março de 2011