quarta-feira, 23 de março de 2011

opmet O

O tempo era outro. O dia tinha acordado de maneira diferente. Tinha acordado ao contrário. Ela deitou-se, lavou os dentes, jantou. Depois saiu. A paragem não tinha gente, o autocarro chegou, ela sentou-se no lugar comum e entrou. Percorreu a distância habitual. O escritório também estava vazio. Ela começou a escrever à máquina, no timbre ritmado de todos os dias, pôs os óculos e sentou-se. Depois saiu. Lá fora espera o autocarro. Dois minutos. Três minutos.
Chega finalmente a casa. Entra, toma banho e levanta-se. É dia.
A manhã está cinzenta, embora se anuncie um dia quente. Ela olha para o relógio da cozinha que marca sete horas. Também o seu relógio de pulso e o do quarto e o da sala. Todo o tempo parado nas sete horas. Sem perceber o intuito do tempo, atrasa os ponteiros de todos os relógios até ser noite. Então, despe a roupa devagar, lava os dentes, escorrega na cama e deixa-se adormecer. Amanhã o tempo irá acertar-se de novo com a vida.

23 de Março de 2011

4 comentários:

  1. A mim, por vezes, também me parece que certos dias começam de uma forma diferente do habitual e assim se prolongam...
    Como diz a canção, é uma sensação do género "o mundo gira ao contrário e os rios nascem no mar"...

    Beijos grandes, Manita!...

    ResponderEliminar
  2. A nossa vida às vezes também gira ao contrário, como os dias dela.
    Cabe-nos acertar os ponteiros do relógio e pôr tudo a andar no ritmo certo. Adorei.

    Beijinhos

    ResponderEliminar