domingo, 29 de maio de 2011

Na hora de pôr a mesa

Na hora de pôr a mesa éramos sempre dois: eu e tu. Até que, desgastado pelo tempo, te foste esquecendo de te sentar comigo. O teu prato, talher, copo, em todos os meus gestos repetidamente iguais, eram teus e daquele lugar vazio. Quando me sentava, aquilo que via era o teu rosto difuso na sombra do prato. O silêncio, interrompido apenas pelas notícias que não ouvíamos pois deixávamo-nos levar pelo atemporal dos nossos lugares, à medida que o tempo ia retalhando e esboroando as nossas almas, corroídas já pelo cansaço de sermos. De sermos nós. De sermos eu e tu na hora de pôr a mesa.
Uma e outra vez fomo-nos esquecendo de rir. Abríamos a porta ao nosso silêncio, entrávamos, sentávamo-nos com ele à mesa. Assim, na hora de pôr a mesa, passámos a ser quatro: eu, tu, o meu silêncio, o teu silêncio.
Aquele lugar ainda existe. O teu olhar, embora morto no prato vazio, esconde a saudade em que, na hora de pôr a mesa, éramos efectivamente dois. E dói ver-te assim, morto, num prato vazio.
As noites foram crescendo, como que perpetuadas num tempo que girava eternamente sobre si, como se o pêndulo do próprio tempo se tivesse suspendido numa isocronia agora morta.
Num canto, os teus brinquedos, cobertos com um manto de pó cinzento, à espera de serem sepultados num funeral à chuva. Ainda lá está o teu cavalinho que, de quando em vez, oscila, como que puxado pela tua vontade de a ele voltar.
Na hora de pôr a mesa éramos dois: eu e a tua solidão em mim. Fui-me habituando à tua ausência até que, um dia, na hora de pôr a mesa, era apenas eu. Tu quiseste sentar-te mas o teu lugar já estava morto e eu, só nesse dia, o percebi.

29 de Maio de 2011

terça-feira, 24 de maio de 2011

Auto-retrato da solidão

Ela sentou-se no banco negro do jardim e deixou-se enlaçar pelo prelúdio da noite. Aos seus pés, o nada daquele dia embrulhado num manto de solidão. No rosto o traçado do tempo. No peito a saudade daquilo que não foi. O musgo quente acaricia-lhe os pés enquanto regados com lágrimas de solidão.
A noite estava vestida de silêncio e as luzes incandesciam o céu com o seu olhar. A rua como que avançava para si, nua, atravessando-lhe o corpo para morrer longe.
O vento assobiava, num murmúrio triste, por entre as folhas das árvores. Os pássaros, quietos, adormeceram-se há muito.
Um leve esvoaçar de folhas secas fez estremecer toda a quietude da noite. Fê-la, também, sobressaltar.
A noite foi entrando na noite, de mansinho, cobrindo cada momento com o seu manto negro. Ela, naquela ausência de si, cobre os ombros com um xaile branco que a sua avó lhe dera, era ela ainda criança. No seu olhar, a sombra da noite. Na sua pele, o escuro tingido do luar. Nos seus lábios, o gosto amargo da solidão.
Aquela noite, pedaço rasgado de todas as noites findas, era o presságio da solitude.  Era a calma de um lugar, contudo, a turbulência do perene desconforto. Era o amor a ir embora.
A chuva começa a cair, ao de leve, fazendo pequeninas covas na terra feita pó. Alguns pássaros acordam. Ela olha aquela noite com a leveza do amor.
Gosto quando tudo se cala, pensa. Gosto quando a ausência de mim se transforma na dor inquietante de me querer, pensa. Gosto, sobretudo, quando o vento faz calar o silêncio, pensa. Porque o silêncio, como o amor, também dói.

24 de Maio de 2011