terça-feira, 24 de maio de 2011

Auto-retrato da solidão

Ela sentou-se no banco negro do jardim e deixou-se enlaçar pelo prelúdio da noite. Aos seus pés, o nada daquele dia embrulhado num manto de solidão. No rosto o traçado do tempo. No peito a saudade daquilo que não foi. O musgo quente acaricia-lhe os pés enquanto regados com lágrimas de solidão.
A noite estava vestida de silêncio e as luzes incandesciam o céu com o seu olhar. A rua como que avançava para si, nua, atravessando-lhe o corpo para morrer longe.
O vento assobiava, num murmúrio triste, por entre as folhas das árvores. Os pássaros, quietos, adormeceram-se há muito.
Um leve esvoaçar de folhas secas fez estremecer toda a quietude da noite. Fê-la, também, sobressaltar.
A noite foi entrando na noite, de mansinho, cobrindo cada momento com o seu manto negro. Ela, naquela ausência de si, cobre os ombros com um xaile branco que a sua avó lhe dera, era ela ainda criança. No seu olhar, a sombra da noite. Na sua pele, o escuro tingido do luar. Nos seus lábios, o gosto amargo da solidão.
Aquela noite, pedaço rasgado de todas as noites findas, era o presságio da solitude.  Era a calma de um lugar, contudo, a turbulência do perene desconforto. Era o amor a ir embora.
A chuva começa a cair, ao de leve, fazendo pequeninas covas na terra feita pó. Alguns pássaros acordam. Ela olha aquela noite com a leveza do amor.
Gosto quando tudo se cala, pensa. Gosto quando a ausência de mim se transforma na dor inquietante de me querer, pensa. Gosto, sobretudo, quando o vento faz calar o silêncio, pensa. Porque o silêncio, como o amor, também dói.

24 de Maio de 2011

2 comentários:

  1. Amiga a tua escrita é tão profunda que enquanto leio os teus textos imagino aquilo que descreves com clareza, fruto da qualidade que tens em ti e que transmites a "quem te lê".
    A tua última frase não podia ser mais verdadeira do que é, às vezes dói tanto amar como não ter quem amar ou quem nos ame nem ter quem nos dê uma palavra.

    Muitos beijinhos

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    1. Grata pelas tuas palavras, amiga. Mais do que ter um dom para a escrita, é existir um dom em quem nos gosta de ler. Adoro-te. Bejinhos.

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