segunda-feira, 11 de julho de 2011

O casal de velhos

Ela estava sentada como se esperasse o amanhã ainda morto. Ele escrevia poesia, todas as manhãs, antes de o sol se incendiar no horizonte. Ambos sabiam que as suas vidas se escreviam ao sabor de cada manhã inerte. Ela escutava a sua respiração, que a cada dia era mais descompassada, fruto de uma anomalia congénita nos pulmões que se agudizava com a velhice.
Ela fundia-se, todas as manhãs, com a vida numa simbiose perfeita. Ele prendia a si, todas as manhãs, a vida, com a sua poesia, para se lembrar, a cada dia, do que foi, esquecido que já era até das suas memórias.
Às vezes olhavam-se, calados, e aquela imagem fazia lembrar uma tela antiga, daquelas que emergem de uma moldura velha, dourada, gasta pelo tempo e pela vida.
De quando em quando ele sufocava numa tosse seca, dura, provocada por anos a fio a fumar tabaco barato vindo de Cuba. Ela levantava-se, dava-lhe umas palmadinhas nas costas e dizia-lhe, está tudo bem, já vai passar, e dava-lhe um rebuçado de menta.
Ele quase que asfixiava no seu próprio muco, ficava vermelho, quase roxo, cuspia uma bola de sangue e voltava à sua poesia. Para sempre haveria de escutar o som daquela voz, companheira dos seus dias mais férteis, mas também dos mais doentios.
Às vezes ela dormitava frente ao lume, recostada numa cadeira de lona, os cabelos brancos, finos, a penderem-lhe na testa e as suas mãos sobre o regaço já sem vida. Ele ficava a vê-la dormir, como fazia nos tempos de juventude quando, depois de terem feito sexo, ela adormecia com as faces roburizadas, com o cabelo ainda mais brilhante e uma das pernas flectidas por fora do lençol. Era então que ele sentia que ainda a amava, não por fora, naquele corpo velho, doente, mas por dentro, por dentro do olhar dela, já sem luz, mas que ainda reflectia toda a sua imagem de menina-mulher.
Nunca saíam um sem o outro, ainda que a ela não lhe apetecesse sair e ele também quisesse ficar, mas lá se arranjavam, sem pressas, pois a morte era a única que os esperava, e lá iam, de braço dado, passear por entre a multidão atarefada. Às vezes ela cansava-se e tinham que parar. Ele voltava a lembrar-se dos tempos idos em que, juntos, mergulhavam nus num entardecer de águas tépidas. E o seu riso de menina, misturado com a maciez da sua pele, ecoava por aquela floresta densa de emoções que era o seu coração já gasto. Ele esperava, pacientemente, que ela se recompusesse para continuarem o seu trajecto de amantes solitários.
Ela tinha-lhe, em tempos, perdoado uma traição. Estava sentada, no alpendre, com os cabelos soltos que esvoaçavam ao passar da brisa tardia, a coser um botão no bibe do filho mais novo, quando ele lhe confessou, como confessava tudo, que a tinha traído com a empregada da semana. O seu olhar, fixo no botão amarelo de menino, humedeceu-se de fúria, de amor contido naquele filho que gerara, de rebentamento da felicidade que tinha sido a sua vida até àquele instante. Ela nada disse. Aquele botão pregado seria o seu único confidente, tal a força com que a agulha perfurava cada um dos seus orifícios e penetrava o tecido do bibe do menino, como se fora o próprio corpo do marido a ser cruelmente atingido com a dor do seu remorso. A sua vida estava a ponto de quebrar-se como aquela linha que cosia o botão se fosse puxada com apenas um pouco mais de força.
Recompôs-se, porém, levantou-se, fugindo-lhe com o olhar para que ele não percebesse que sofria e foi para o quarto fazer as malas. Iria sair de casa pois, de todos os pecados que ele poderia ter cometido, aquele seria o mais mortal para eles: aniquilaria para sempre aquela vida sustentada na verdade de serem dois.
Todos os dias ele a esperou, ao fim do dia, à saída do escritório onde ela arranjara trabalho. Todos os dias, todos os meses, todos os anos, toda a vida.
Até que um dia, sem ela ainda o saber, voltou a sentir amor por aquele homem, um amor que lhe enchia a pele de um perfume branco, que a fazia respirar um ar que não o das manhãs por abrir.
Ele escrevia-lhe, todas as manhãs, um poema, não de amor, desses que se gastam pelo tempo e morrem pela força das palavras. Escrevia-lhe sobre ela, contava-lhe como a amava em segredo quando a via a dormir, a ler, a pentear-se, a preparar-se para uma festa. Contava-lhe, em cada poema, todos os pormenores que ela se desconhecia, porque não se via como ele a via. Cada folha de papel continha um mistério que era só deles.
E assim se foi apagando aquele instante de loucura em que ele, no corpo da empregada, procurava os sinais do corpo dela, embriagado por uma cegueira doentia de querer voltar a ele.
Reaprendeu a amá-lo, não inteira, mas com a convicção de que podiam voltar a ser cúmplices de um amor aos pedaços.
Às vezes parava a olhar os casais de namorados e os seus olhos voltavam a ganhar luz, mas logo esmoreciam quando ele lhe dizia, anda, já somos velhos para isso. Ela olhava-o, como que a puxá-lo para trás, para a sua juventude há muito perdida. E o seu olhar caía como um pano a encerrar uma peça de teatro.
Lá seguiam, rumo a casa, onde os esperava o cão, deitado à soleira da porta, único sinal de vida fresca naquela casa.
Naquela noite deitaram-se muito juntos. Entrelaçaram os dedos e os seus corpos magros tocaram-se. Sentiram, momentaneamente, as dores de serem velhos, até que se adormeceram sob um luar pálido que lhes entrava pelo quarto para beber aquela noite morna.

11 de Julho de 2011

4 comentários:

  1. Manita, sem palavras...
    Já nem sei mais o que dizer sem me repetir uma e outra vez...
    Adorei este texto, muito mesmo, está magnífico e tocante, a jornada de uma vida...
    Simplesmente lindo!...

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  2. Adorei amiga, eu não perdoaria uma traição, mas quando for velha quero ter alguém ao meu lado que me ame daquela forma.

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    1. Amiga, não devemos dizer "nunca". Mas entendo-te! :)

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