segunda-feira, 11 de julho de 2011

O guarda-sol


Ele caminhava por entre os fios de luz que caíam por dentro da tarde. O crepitar das folhas secas, despidas de seiva, morriam um pouco mais sob os seus pés que as pisavam, indolentes.
Helena tinha adormecido e ele saíra para comprar cigarros. No café da praça, sentadas debaixo de chapéus às riscas, pessoas conversavam e bebiam cerveja.
Ele entrou e sentou-se na última mesa, ao fundo, como se fugisse daquele emaranhado humano de vozes empalidecidas.
Leu o jornal à pressa, como se a sua existência naquela tarde fossem as letras negras a chorar por dentro daquele jornal. Fumou um cigarro e pensou na vida, pensou em Helena, a dormir, naquele fim de tarde sereno, com os seus longos cabelos negros a vestirem a almofada e a sua pele macia e branca a confundir-se com o cetim dos lençóis. Helena era uma mulher bonita, jovem, que saciava a sua vida com um simples respirar. Não exigia muito para ser feliz. Ele, pelo contrário, manobrava a sua existência com dotes de filósofo. Perguntava-se, insistentemente, se aquela vida que tinha escolhido para si era o bastante para se superar a si mesmo.
O dia suspendera-se numa memória incomum. Na rua, as pessoas continuavam a tagarelar, enquanto o sol tentava rasgar com a sua fúria os guarda-sóis envelhecidos pelo tempo. Os empregados, de avental preto e camisa branca a contrastar, respiravam aquele dia quente, deixando escorrer as gotas de suor pelas faces cansadas.
Ele assistia a todo aquele existir. A cada vida que lhe sorria ele inquietava-se, questionando-se como é que as pessoas podem ser felizes. A questão essencial na sua vida, em suma, era essa: a felicidade. Se a cada dia ele ia morrendo, por fora e por dentro, como podia desejar ser feliz, ser feliz, apenas... Sentia-se só.
Às vezes caminhava por entre ruas perdidas, mortas, e sentia vontade de pegar na sua sombra e fugir. Mas, para onde quer que ele fosse, haveria sempre um sítio do qual ele nunca poderia escapar: de si... A menos que...
Não, pensava, não posso deixar Helena, ela precisa de mim. Que homem serei eu ao abandonar-me? 
A morte, pensava.
Levantou-se, pagou o café que entretanto bebera, saíu. O dia pesava-lhe, como se fosse um sobretudo de Inverno que tivesse vestido. O zumbido das moscas que enegreciam o ar pesava-lhe, também.
Foi até ao cais, olhar o ponto onde rio e mar se interceptam, e viu ali, também, o cais da sua solidão. O ar estava morno e o dia começava a desfazer-se em pequenos fragmentos de luz. Das casas, janelas, como se fossem olhos, feriam-no com a sua presença obsidiante. E todas aquelas vidas, tristes, mergulhavam por dentro de si como num mar de solidão.
Fumou mais um cigarro enquanto percorria com o olhar toda aquela existência fanática. Olhou o mar, com um olhar breve, vestido de negro e de solidão. Aquele dia quente anunciava uma noite branda.
Ali perto, sentado num banco desgastado pelo tempo e pelas lágrimas do mar, um velho distribuía milho a uma infinidade de pombas, todas iguais, quer na forma, quer no tamanho. Sorria. Ao dia, às pombas, ao cais, à vida. O velho era feliz, naquela existência cruzada entre as pombas e um banco morto onde, todas as tardes, se sentava a ver o rio, a ver o mar.
Ele decide regressar a casa onde Helena o aguarda. No café, os guarda-sóis, já fechados sobre si, começam a adormecer-se para amanhã, de novo, resguardarem novas vidas que se sentarão debaixo de si para fugir à ira do sol.
Os candeeiros acendem-se naquele entardecer já pálido, à volta dos quais insectos dançam uma marcha fúnebre, embriagados, porém, pela vida que se lhes veste. Ele caminha, vagaroso, pela rua empedrada, cuja vida se resume, naquele momento, aos animais que preguiçam no fim de um dia cansado.

11 de Julho de 2011

4 comentários:

  1. Lindo, Manita, simplesmente maravilhoso!... Amei!!!...

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  2. É impressionante como a partir de um guarda-sol escreves um texto tão bonito e cheio de sentimentos e estados de alma: a solidão e a (in) felicidade.
    Fantástico.

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