quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Os relógios

Ela vestia-se todos os dias como se fosse sair. Depois sentava-se à espera que o dia passasse, a olhar para o relógio da sala que insistentemente fazia tic-tac, tic-tac, num ritmo nervoso. Um dia decidiu sair mesmo. A vida.
Homens conversavam e jogavam às cartas em botequins de rua. Algumas famílias passeavam na solidão dos jardins e velhos dormitavam nos bancos de madeira onde, outrora, ainda jovens, se enamoraram.
O chão, atapetado de folhas daquele Outono ainda quente, estalava ao passar das gentes, como se as folhas gemessem de dor. No ar fazia-se ouvir o pregão do assador de castanhas, dois euros a dúzia, freguês, dois euros a dúzia.
O sol descia a colina a pique e mortificava a sua luz na montra dos relógios. O Mestre Zé, com a sua bata de relojoeiro, sustentando no olho direito um óculo desajeitado, limpava o pó a cada peça e voltava a colocá-la no seu lugar, enquanto os transeuntes paravam a olhar o tempo. O tempo. Havia relógios de todas as formas e tamanhos, de pé, de mesa, de parede, e todos, todos, marcavam com precisão a mesma e exacta hora, e os pêndulos, todos alinhados como num concerto, moviam-se num só ritmo, ora para a esquerda, ora para a direita. Quando algum deles saía do ritmo, lá ia o Mestre Zé, com um preciosismo tal, voltar a marcar-lhe o tempo. Havia vida naqueles relógios. Havia uma vida ritmada à ordem do Mestre Zé.
Ela atravessou a rua para ver os relógios. Tic-tac, tic-tac, num ritmo nervoso. Depois seguiu, rua abaixo, em direcção à Ribeira. Por ali passeava-se um ou outro casal de namorados, alguns cães dormitavam ao sol e pombas amigalhavam aquele resto de dia junto às esplanadas dos cafés.
Viu, também, rostos vulgares, rostos do dia-a-dia, limpos de maquilhagem, espelhos do cansaço, que esperavam, paciente e molemente, o autocarro das dezoito horas.
Chegou a casa e abraçou-se à sua solidão. Olhou o relógio da sala que estava parado em hora nenhuma. Estava parado naquele momento só seu ao qual nenhum tempo podia aceder, ao qual nenhum relógio fazia tic-tac, tic-tac. Sentou-se. Quieta. E ruíu, ruíu num estilhaço só, como se a morte fosse feita de barro.

26 de Outubro de 2011 

4 comentários:

  1. Muito lindo, Manita, fantástico mesmo, para variar!!! ;)

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  2. Amiga, já tinha saudades de ler os teus textos.
    Adorei.
    Se me pedissem para escolher o meu favorito eu dizia: todos!
    Beijinhos

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