domingo, 20 de novembro de 2011

Micha

No caminhar da solidão, enquanto o chão me foge e as ruas parecem lapsos de memória, procuro-te na tua imensidão de branco vestida. Procuro-te. Procuro. O teu olhar triste a morrer. O teu respirar já sem vida. Procuro o que de ti em mim resta. Não mais que uma lembrança. Suspiro. Na calma do teu olhar vejo-te a rir. E despedes-te com um aceno. Em mim ficou a dor e o desconsolo de ver-te partir nesse mar de águas calmas em que mergulhas. Já não farejas a vida. A tua força abrupta cessou.
Em mim ficou a saudade, não aos pedaços, como fazias com os teus brinquedos, mas inteira, num todo, como um nó cego que nunca mais se desatará. Às vezes ainda te vejo, numa nuvem, num monte de neve, num pedaço de areia fina. Ou então confundo-te com a espuma branca do mar. À noite é nas estrelas que te procuro. Ou na lua. Ou aqui. Procuro-te. Mas tu morreste-me.
Os dias já não são iguais. Agora, quando chego a casa, ouço o teu latido de cadela morta. Procuro-te. Não te encontro, porque tu me morreste, te morreste.
Agora, que te foste, restas-me. Na solidão. Nos dias. Nas noites. Em mim. E digo-te, não sem um pesar profundo, quem dera que estivesses aqui.
(Love you forever, Micha! I will never forget you! Rest in peace!)
Micha: 13 de Junho de 2004 - 10 de Outubro de 2011 

domingo, 13 de novembro de 2011

Simone (2)

Naquele dia escolheu gostar-se. 
O dia amanhecera claro. Havia uma brisa quente. A lua deu lugar ao sol que, preguiçoso, começava a aquecer o dia. Parou para tomar um café. Os homens fitaram-na, num estado de contemplação, como se de uma pedra bruta tivesse nascido aquela escultura-Mulher.
Sentiu-se invadir por uma onda de saudade que rebentou cheia no seu peito. Lembrou-se dos dias sem manhãs, dos entardeceres sem monotonia, das noites de estio em que adormecia com as faces rosadas do cansaço das brincadeiras. E sentiu-se amanhecer, pálida, como aquela manhã.
Passou em frente ao mar. Alguns corpos dourados espraiavam-se na areia quente. Risos de crianças enchiam o ar e uma sintonia controlada emergia da espuma do mar. E aspirou aquele dia como a flor quando acorda numa manhã de Primavera. Sentou-se num banco a contemplar o mar, deixando que os raios de sol lhe queimassem a pele. Sorriu. Incontroladamente, assim, com uma mão cheia de nada, permitiu-se rir.
Levantou-se. As obrigações do dia. O trabalho. O desmoronar daquela manhã que começara em poesia. Despediu-se, pois, daquele lugar e seguiu, serena, em passos de criança, piso o quadrado branco, não piso o quadrado preto, e assim foi caminhando por aquela rua de xadrez.
Quando chegou ao escritório, todos a olharam. Deixou-se penetrar pelos olhares incandescentes da vulgaridade, dos lugares comuns, da rotina, do igual, do dia-a-dia sem ousadias.
Perguntaram-lhe, onde é a festa? Ela olhou-os, com a mesma calma que aquele dia prometia, e respondeu, a festa é em mim.

13 de Novembro de 2011

sábado, 12 de novembro de 2011

Simone

Simone senta-se, todos os dias, frente ao toucador e olha-se demoradamente ao espelho, perguntando-se quem sou eu. Porquê ser eu.
Ali, todos os seus objectos. O espelho. A escova. Os perfumes. Os vernizes. Os batons. A cigarrilha. A vontade de ser Simone.
Hoje apeteceu-me ser Simone. Hoje. Dia cinzento e frio. Simone sai do escritório e atravessa a rua apressadamente. Como ninguém a espera, a não ser a sua solidão, resolve passear-se nas ruas, becos e avenidas da cidade. Numa sala do quarteto, uma música de fundo ressoa das colunas desgastadas pelo tempo. À porta, pessoas esperam o fim da sessão para, então, assistirem à solidão daquela noite, sentadas em bancos de vazio, frente à tela branca que se há-de encher de gente.  Esperam o actor principal, como se este fosse a sua última companhia.
Como seria de esperar, dado o frio do dia demorar-se, ainda, por dentro da noite, as ruas estão quase vazias, despidas de gente.
Simone sentia-se outra. Simone sentia ser tudo menos ela própria. Não ser Simone era também ser Simone. Ser-se Simone era ser tudo aquilo que, não se sendo, é-se. E Simone era-se, assim, timidamente deambulante pelas ruas da cidade.
Num beco triste, que desembocava em sítio nenhum, um velho, de semblante também triste, talvez sendo a sombra daquele beco, contemplava o céu carregado de negro. Olhar jovem, claro, ainda que vestido de luto. Olha Simone. Pede-lhe um cigarro. Simone diz não, não fumo, apenas a minha cigarrilha. O homem parte. Tudo tem o seu avesso. Até a vida.
Simone fica a vê-lo partir, fragmentado em pedaços de nada. A ruína. A ruína de ser-se. A ruína de ser-se gente aos bocados. De ser-se gente apenas pela metade. E Simone sente a dor de ser-se velho no olhar partido daquele homem. E dói-se, também, na ilusão de ser Simone.
Por entre os escombros da noite, Simone sente o frio adensar-se, como que mais nada restasse ao vento senão fustigá-la. As luzes começam a fraquejar, como se o vento lhes levasse a vida. E a noite cansada de ser noite. E ela, na cisão de si, a deixar-se levar pela brisa de ser Simone.
Tudo sendo breve. O homem aos pedaços. O olhar prostrado. A dor que se evapora. A noite. O momento de ser-se. Um resto de cinza, no tampo da mesa, que faz lembrar ainda aquele dia em que a Simone apeteceu ser-se.
12 de Novembro de 2011

domingo, 6 de novembro de 2011

Num dia de Outono

A cidade está deserta. São sete horas e as ruas sozinhas. As montras exibem manequins sem vida, envergando roupas descoloridas. Olhares fixos no vazio. Cai uma chuva miudinha que vai lavando os passeios do pó deixado pelo Verão ora morto.
Numa e noutra casa as luzes vão-se acendendo e as mulheres preparam o jantar, daí, no ar, um cheiro a sopa, a refogados, a fritos quentes.
Uma senhora, velha de se arrastar, vem à varanda estender umas peças de roupa. De vez em quando tosse e suspira mais um fim de dia. Espera a morte como outrora esperou a vida. Há dois Invernos que se esconde do mundo, este vai para o terceiro. Estende, pois, as peças de roupa e cobre-as com um plástico velho na esperança de que estas escapem à ira da chuva. Quatro peças de roupa, não mais, umas cuecas grandes, um par de meias grossas e uma camisola preta, embora já bastante coçada pelo tempo. Talvez seja viúva. Volta para dentro, fecha a porta da pequena varanda e, instantes depois, apaga as luzes. A casa mergulha na penumbra da velhice e na solidão dos anos.
Por entre as luzes da cidade alguns insectos rodopiam, partilhando uma dança incomum. Ela observa todo aquele movimento de vida, harmonioso, e sente um frio estranho, de estranho ser, a invadir-lhe todo o corpo. Aperta o casaco. Continua o seu passeio naquele fim de tarde já sem luz, em que o vento começa a levantar algum lixo que se encontra espalhado pelo chão, papéis velhos, sacos rasgados, folhas secas.
Deixou-se levar, deixou-se ir na fruição do tempo e do espaço a fim de esquecer aquele dia de solidão. Foi então que reparou que aquele lugar lhe pertencia há já muito tempo. Recordou-se das mesmas ruas, dos mesmos lugares, das mesmas montras, dos mesmos manequins. As ruas, as casas, as árvores, tudo continuava igual. Só ela mudara, ainda que, sem o saber, já o soubesse. O mesmo, pensou, o mesmo marasmo, as mesmas pessoas, as mesmas luzes, a mesma chuva que fustigava aquele dia triste. E doía ver-se assim, prostrada no meio da rua, a ouvir, ao longe, o último suspiro da velha que arrancava da corda a roupa que tinha estendido horas antes, como se a corda fosse o suicídio daquela roupa velha, gasta, morta. Volta a ouvir a porta a bater.
O desgaste do dia começa a atormentá-la. As luzes ferem-lhe a cegueira do espírito. O frio trespassa toda a roupa e despe-lhe a solidão. Então, cansada, decide voltar atrás, ao tempo em que a sua única decepção era receber uma prenda repetida no seu aniversário. E lamenta-se por ter continuado a viver.

05 de Novembro de 2011