domingo, 6 de novembro de 2011

Num dia de Outono

A cidade está deserta. São sete horas e as ruas sozinhas. As montras exibem manequins sem vida, envergando roupas descoloridas. Olhares fixos no vazio. Cai uma chuva miudinha que vai lavando os passeios do pó deixado pelo Verão ora morto.
Numa e noutra casa as luzes vão-se acendendo e as mulheres preparam o jantar, daí, no ar, um cheiro a sopa, a refogados, a fritos quentes.
Uma senhora, velha de se arrastar, vem à varanda estender umas peças de roupa. De vez em quando tosse e suspira mais um fim de dia. Espera a morte como outrora esperou a vida. Há dois Invernos que se esconde do mundo, este vai para o terceiro. Estende, pois, as peças de roupa e cobre-as com um plástico velho na esperança de que estas escapem à ira da chuva. Quatro peças de roupa, não mais, umas cuecas grandes, um par de meias grossas e uma camisola preta, embora já bastante coçada pelo tempo. Talvez seja viúva. Volta para dentro, fecha a porta da pequena varanda e, instantes depois, apaga as luzes. A casa mergulha na penumbra da velhice e na solidão dos anos.
Por entre as luzes da cidade alguns insectos rodopiam, partilhando uma dança incomum. Ela observa todo aquele movimento de vida, harmonioso, e sente um frio estranho, de estranho ser, a invadir-lhe todo o corpo. Aperta o casaco. Continua o seu passeio naquele fim de tarde já sem luz, em que o vento começa a levantar algum lixo que se encontra espalhado pelo chão, papéis velhos, sacos rasgados, folhas secas.
Deixou-se levar, deixou-se ir na fruição do tempo e do espaço a fim de esquecer aquele dia de solidão. Foi então que reparou que aquele lugar lhe pertencia há já muito tempo. Recordou-se das mesmas ruas, dos mesmos lugares, das mesmas montras, dos mesmos manequins. As ruas, as casas, as árvores, tudo continuava igual. Só ela mudara, ainda que, sem o saber, já o soubesse. O mesmo, pensou, o mesmo marasmo, as mesmas pessoas, as mesmas luzes, a mesma chuva que fustigava aquele dia triste. E doía ver-se assim, prostrada no meio da rua, a ouvir, ao longe, o último suspiro da velha que arrancava da corda a roupa que tinha estendido horas antes, como se a corda fosse o suicídio daquela roupa velha, gasta, morta. Volta a ouvir a porta a bater.
O desgaste do dia começa a atormentá-la. As luzes ferem-lhe a cegueira do espírito. O frio trespassa toda a roupa e despe-lhe a solidão. Então, cansada, decide voltar atrás, ao tempo em que a sua única decepção era receber uma prenda repetida no seu aniversário. E lamenta-se por ter continuado a viver.

05 de Novembro de 2011

4 comentários:

  1. Amiga, primeiro um beijo pela tua Micha. Estamos no mesmo barco.
    Relativamente ao texto, quem não se sente às vezes como a velha solitária que pendura a roupa?
    Lindo amiga, como todos os textos.
    Beijinhos

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    1. Obrigada, amiga. De facto, muitas vezes somos "velhas solitárias"! Um beijo.

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