domingo, 13 de novembro de 2011

Simone (2)

Naquele dia escolheu gostar-se. 
O dia amanhecera claro. Havia uma brisa quente. A lua deu lugar ao sol que, preguiçoso, começava a aquecer o dia. Parou para tomar um café. Os homens fitaram-na, num estado de contemplação, como se de uma pedra bruta tivesse nascido aquela escultura-Mulher.
Sentiu-se invadir por uma onda de saudade que rebentou cheia no seu peito. Lembrou-se dos dias sem manhãs, dos entardeceres sem monotonia, das noites de estio em que adormecia com as faces rosadas do cansaço das brincadeiras. E sentiu-se amanhecer, pálida, como aquela manhã.
Passou em frente ao mar. Alguns corpos dourados espraiavam-se na areia quente. Risos de crianças enchiam o ar e uma sintonia controlada emergia da espuma do mar. E aspirou aquele dia como a flor quando acorda numa manhã de Primavera. Sentou-se num banco a contemplar o mar, deixando que os raios de sol lhe queimassem a pele. Sorriu. Incontroladamente, assim, com uma mão cheia de nada, permitiu-se rir.
Levantou-se. As obrigações do dia. O trabalho. O desmoronar daquela manhã que começara em poesia. Despediu-se, pois, daquele lugar e seguiu, serena, em passos de criança, piso o quadrado branco, não piso o quadrado preto, e assim foi caminhando por aquela rua de xadrez.
Quando chegou ao escritório, todos a olharam. Deixou-se penetrar pelos olhares incandescentes da vulgaridade, dos lugares comuns, da rotina, do igual, do dia-a-dia sem ousadias.
Perguntaram-lhe, onde é a festa? Ela olhou-os, com a mesma calma que aquele dia prometia, e respondeu, a festa é em mim.

13 de Novembro de 2011

4 comentários:

  1. Também é importante "gostarmo-nos". Devemos cuidar de nós para nós, não só para os outros.Todas podemos ser Simone. Um bom texto para reflectir sobre a vida.

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