sábado, 12 de novembro de 2011

Simone

Simone senta-se, todos os dias, frente ao toucador e olha-se demoradamente ao espelho, perguntando-se quem sou eu. Porquê ser eu.
Ali, todos os seus objectos. O espelho. A escova. Os perfumes. Os vernizes. Os batons. A cigarrilha. A vontade de ser Simone.
Hoje apeteceu-me ser Simone. Hoje. Dia cinzento e frio. Simone sai do escritório e atravessa a rua apressadamente. Como ninguém a espera, a não ser a sua solidão, resolve passear-se nas ruas, becos e avenidas da cidade. Numa sala do quarteto, uma música de fundo ressoa das colunas desgastadas pelo tempo. À porta, pessoas esperam o fim da sessão para, então, assistirem à solidão daquela noite, sentadas em bancos de vazio, frente à tela branca que se há-de encher de gente.  Esperam o actor principal, como se este fosse a sua última companhia.
Como seria de esperar, dado o frio do dia demorar-se, ainda, por dentro da noite, as ruas estão quase vazias, despidas de gente.
Simone sentia-se outra. Simone sentia ser tudo menos ela própria. Não ser Simone era também ser Simone. Ser-se Simone era ser tudo aquilo que, não se sendo, é-se. E Simone era-se, assim, timidamente deambulante pelas ruas da cidade.
Num beco triste, que desembocava em sítio nenhum, um velho, de semblante também triste, talvez sendo a sombra daquele beco, contemplava o céu carregado de negro. Olhar jovem, claro, ainda que vestido de luto. Olha Simone. Pede-lhe um cigarro. Simone diz não, não fumo, apenas a minha cigarrilha. O homem parte. Tudo tem o seu avesso. Até a vida.
Simone fica a vê-lo partir, fragmentado em pedaços de nada. A ruína. A ruína de ser-se. A ruína de ser-se gente aos bocados. De ser-se gente apenas pela metade. E Simone sente a dor de ser-se velho no olhar partido daquele homem. E dói-se, também, na ilusão de ser Simone.
Por entre os escombros da noite, Simone sente o frio adensar-se, como que mais nada restasse ao vento senão fustigá-la. As luzes começam a fraquejar, como se o vento lhes levasse a vida. E a noite cansada de ser noite. E ela, na cisão de si, a deixar-se levar pela brisa de ser Simone.
Tudo sendo breve. O homem aos pedaços. O olhar prostrado. A dor que se evapora. A noite. O momento de ser-se. Um resto de cinza, no tampo da mesa, que faz lembrar ainda aquele dia em que a Simone apeteceu ser-se.
12 de Novembro de 2011

4 comentários:

  1. A mim por vezes, também me apetece ser... "Simone"...

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  2. Todas nós queremos ser e não ser ao mesmo tempo.
    Muito bonito.

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    1. Quantas vezes, amiga! Se somos, não queremos ser, se não somos, queremos. :)

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