terça-feira, 4 de dezembro de 2012

La Réponse à la Lettre


A.




Escrevo-te de sob o quente das mantas neste dia frio de outono. O sol brilha, mas o ar corta a pele em agulhas de gelo que nos adormecem as faces. Adivinha-se o inverno nos ramos nus das faias de fora da janela, no cristalino azul do céu, na gata que se enrosca junto do bule de chá que exala o paraíso pelo bico. Há um prenúncio de neve nas minhas mãos sempre frígidas, nos olhos que me ardem de lágrimas que não choro.
Lembro-te. Dois momentos ressaltam-me na curva da memória, quase sucessivos. Um concerto à chuva, Não respire, pode respirar, em que foste a única que partilhou comigo a urgência de ir, apesar do cansaço, da chuva, da inebriação do álcool. E um Chá Dançante a que não foste, porque foste a única que escolheu ficar a fazer-me companhia numa madrugada de luto.
Não me lembro ao certo de como nos conhecemos, exceto que foi por intermédio do meu melhor amigo da época. Não me lembro das palavras exatas que trocámos, apenas que era um prazer conversar contigo. E em breve deixaste de ser a amiga de um amigo e passaste a ser a minha amiga.
A vida levou-me para longe. Ou talvez não fosse a vida, mas as minhas escolhas, o que dá no mesmo. Fui fazer o luto para outro país, quis afastar-me do que em Coimbra me entristecia, me tolhia os movimentos. Devia ter feito um esforço maior para manter perto o que dessa cidade me fazia feliz.
Andei longe por muito tempo. E ao momento de luto em que me seguraste a mão e me consolaste com o teu silêncio, somaram-se outros; aos momentos de alegria que tínhamos partilhado sucederam-se outros, sem que estivesses presente, mas de alguma forma, sem que estivesses ausente…
Não me esqueci de ti. O luto e a alegria vividos deixaram a sua marca no meu rosto, tal como acontece com todos. Mas é bom haver na vida pessoas como tu, que reconhecem o que está por detrás dessas marcas exteriores, que acedem ao que é essencial.
Não terás que esperar muito por um reencontro presencial. Diz quando e aí estarei. Para ouvir uma música. Para ler um poema. Para rir contigo, porque o riso não tem idade. Para me lembrar, eventualmente, das coisas que possamos ter esquecido.
Da tua amiga,
MJ

sábado, 1 de dezembro de 2012

La Lettre

Para a M.J.
Rua da Saudade, sem número
9999-999 Amizade

Há folhas amontoadas nas valetas. Há chuva suspensa nas féculas nuvens. Já não há verde nos caminhos e, nas árvores, apenas um cinzento-musgo seco. O vinho descansa nos tonéis sem saber se há de fermentar. Os pássaros olham o azul-céu e vêem longe a sua viagem.  Há um desejo latente de caruma a palpitar na lareira. Há castanhas a dormir nos ouriços. As melhores coisas acontecem num tempo sem memória. E é por isso que te escrevo.
Não me lembro dos pormenores em que nos conhecemos. No fundo, já não me lembro de muita coisa. Sei que virámos costas e demos passos rumo ao futuro, aquele onde hoje estamos, tu e eu. O que ficou nesse interregno de tempo desconhecido? Que caminhos trilhaste? Que escolhas fizeste? 
Às vezes sento-me à janela e vejo os dias a rir. E recuo, recuo, até aos nossos dias. Vieste uns tempos para casa de um amigo, que era aquilo que tínhamos em comum até te conhecer: um amigo. (Agora que penso nisso, também tenho de lhe escrever.) Confesso que fiquei com ciúmes. Que raio, pensei, os amigos não deviam ter outros amigos. Não há tempo para todos. Um amigo exige cuidados especiais, logo, se há mais do que um, outros acabam por não germinar, acabam por morrer. Mas tu vieste. 
Não sei como nem porquê, ficámos amigas. Já não me lembro de muitas coisas, sabes? Havia riso no teu olhar. Havia sabedoria nas palavras. Havia poesia nos teus gestos. No fundo, havia muita coisa que me leva a interrogar, hoje, porque te deixei fugir num tempo e num espaço que não foram meus. 
Durante muitos anos fui-me lembrando inúmeras vezes de ti. Os pensamentos surgiam do nada. Ou do tudo. Do tudo que fomos num momento. E não era preciso ouvir uma música, ler um poema, estar à chuva a ver um concerto do Sérgio Godinho. Lembrava-me porque me queria lembrar. Porque me foste importante. Porque me tocaste no ombro e a marca ficou lá. Porque há muitas coisas que não se explicam por palavras. 
Esses dias findaram e tu voltaste para as tuas origens. Foi com saudade que te acenei da estação e disse-me, em surdina, até breve, amiga. Espero que voltes. Depois liguei o carro e fui embora. É uma tipa fixolas, pensei, não com estas palavras, porque naquele tempo tínhamos respeito pela língua e, acima de tudo, pelas pessoas, especialmente se gostávamos delas. Mas hoje, como tudo isto se está a perder, dou-me ao luxo (ou lixo) de assim escrever, não sem te sossegar. Aquilo que penso está muito longe daquilo que digo. Porque há palavras que só eu entendo e é nelas que te quero guardar.
Entretanto, o tempo encarregou-se de te trazer de novo. Houve uma panóplia de sensações que lutaram entre si para ver qual delas tinha mais força. Estava lá outra vez, no nosso tempo, a escutar-te, a escutar-nos, nas frias noites de Coimbra, depois de calcorreadas umas quantas ruas sem pressa e sem o peso do cansaço. Éramos tanto. Tínhamos sonhos, ideologias. Queríamos ser. 
Olho-me ao espelho. Os cabelos já branqueiam. Algumas rugas rodeiam os meus olhos por onde já passaram tantos rios. O corpo já me fraqueja. E já me esqueci de tantas coisas. Maldita memória que teve de reter tanto de inútil que não me deixa espaço para o essencial. Continuo a olhar pela janela. Vejo-te nos teus ainda vinte anos, mas mais madura, talvez mais serena, característica que ganhamos com a idade à medida que vamos perdendo a força da juventude. Espero por ti. Tenho o vinho a respirar e as rosquilhas de azeite no saco fechado. Não vou brindar sem ti. Vou-me sentar à janela e, enquanto não chegas, vou lapidando a memória. Talvez me lembre da razão que me fez gostar de ti. Mas, se isso não acontecer, não leves a mal. Sabes, é que, no fundo, já não me lembro de muita coisa.
Da tua amiga,

A.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Dói-me a dor que não me dói

Naquele dia acordara com uma estranha dor no peito, como se lhe dançassem alfinetes no coração. Abriu a persiana e viu lá fora o dia a rir. Era sábado. Um beija-flor veio à janela, bateu as asas e voou. A dor diminuiu. Um estranho doce-amargo subiu-lhe à boca. Sentou-se na beira da cama e adormeceu.
Diga-me, ainda sente dor? Lentamente abriu os olhos e viu uma figura baça, pequena, difusa, como se viesse longe no caminho. Abanou a cabeça em jeito de negação.
Havia um cinzento pálido na rua. O sol já se descansava atrás da noite. De súbito a dor, de novo a dor, como um martelar de relógio, tic-tac, sem saber qual mais doía, se o tic, se o tac. Sentou-se na cama e levou a mão ao peito. O coração desacelerava o seu ritmo, parecia minguar-se como o dia. Alguém?, chamou. Apareceu o homem, já não de branco, mas de cinzento como a rua.
Tem de me descrever a dor, vamos lá tentar. Como é? Àquela pergunta seguiu-se um silêncio, não só de palavras mas também de olhares. Observou a rua, agora mais escura, de um negro oposto à cal. Não sei, responde, dói-me sempre mais do que a dor. 
Nisto, o médico começou a atirar frases ao ar, fazendo comparações, analogias, utilizando metáforas para descobrir o tamanho da dor. A profundidade. O sentir. Enquanto ele falava, a dor deslocava-se, já não doía no corpo mas na voz. Na voz dele. Aguda... forte... como lâminas... como agulhas... Havia tantas dores, afinal. Mas ela só sentia uma. Sentia a que lhe saía pelos lábios dele, em cada precisão de esmiuçadas definições. Era sempre aquela que lhe doía e, contudo, nenhuma. 
Voltou a olhar a rua feita noite. O quarto estava quente, contrastando com o frio-azul da janela. O médico continuava a balbuciar metáforas de dor para adivinhar-lhe o sentimento. Nisto, a dor ia e vinha, como o comboio que chega e parte, à mesma hora, da estação. 
Então, não é nenhuma destas que sente? Ela olhou-o, demoradamente, sem saber, de facto, o que lhe doía mais, se o peito, se a mão que a ele leva, se o movimento do braço que a levanta, se o pensar que a dor lhe dói. E sorri-lhe, pela primeira vez. 
Ele continua a insistir, a desenhar dores que nem ela sabia que existiam, num movimento perpétuo de palavras que, às vezes, só ele entende, como se o mundo fosse feito de pequenas cirurgias. Entretanto fala-lhe da importância dos sintomas, temos de descobrir a origem da dor e o quanto ela dói para aplicarmos as medidas corretas. É como se, à semelhança de um pintor, só aquela cor, aquele exato tom, nem mais, nem menos, fosse possível para terminar o quadro. 
Nisto, inspirou fundo, como se tomasse o último fôlego, e dá-lhe todas as respostas do mundo. É uma dor como se nunca tivesse visto o nascer do sol; como se nunca tivesse andado descalça na relva; como se não houvesse mundo; como se os palhaços não soubessem rir; como se me tivessem roubado a última carta que escrevi; como se só houvesse escuro como esta noite; como se não existissem sorrisos em lágrimas de meninos; como se o ontem fosse apenas uma memória. É isso. É uma dor que me vai apagando e me vai reduzindo a nada, como as estrelas, que só existem porque as vemos; como se eu fosse escrita a giz num quadro negro e, ao fim do dia, me varressem como pó para debaixo da mesa. É esta a dor que me dói. De me sentir gente e, contudo, não ser nada. 

Matrioska

Revejo-me num outro que dói ao ser-se gente. Olho-me ao espelho do avesso e vejo rugas a crescer-me nos olhos. Há dentro de mim matrioskas a nascer. Saem-me pelos dedos e escondem-se nas asas de borboletas que, tricotando danças ondulantes, desaparecem no verde ondeante das colinas. 
Faz frio. É outono-inverno seco. O lume apagado da saudade lembra um outro tempo. Jane encosta-se à janela e empresta os olhos à rua. O céu está carregado de negro. Um vento forte, ruidoso e rodopiante começa a fustigar a costa. As ondas agigantam-se num murmurejar estonteante, varrendo as frias rochas e lançando os pobres crustáceos mar adentro, tal a força do seu batente. No jardim os lírios dormem. A fúria intempestiva das águas paira no mar. Não se fará tarde sem que antes aqui chegue. Mas, por enquanto, os lírios dormem. 
Jane deixa-se embalar pela tarde quase escura. Recosta-se na cadeira de baloiço e olha a praia em reboliço. Lá longe o negro é mais denso. Uma pequena luz difusa desenha traços de temporal. 
Lá longe, nas colinas, as borboletas já não são apenas borboletas. São eu, eu, eu outra vez, são bonecas que me saem do corpo e se sentam, redondas e pesadas, lado a lado, adensando-se até se desaparecerem. E eu aninho-me no colo delas matrioskando-me na sua solidão.
O vento rompe agora o silêncio do jardim e bate, com força, de encontro à janela. Os lírios despertam e sacodem-se violentamente num emaranhado de dor. Começa a relampaguear e a luz cobre de prata o verde-escuro do relvado. Uma palmeira treme, gesticula, atirando-se pelas escadas abaixo num suicídio impetuoso. A janela começa a chorar gotas de chuva que precipitadamente começam a cair, como se o céu se abrisse num dilúvio furioso. 
A casa desfez-se, contudo, em silêncio. Parecia ter migrado de lugar. 
As asas partiram-se e delas nasceram braços. Meninas vão saindo umas das outras, como se se despissem de si mesmas. Despem-se porque crescem. Já não cabem no seu próprio corpo. Olham para trás, sorriem, e desaparecem na penumbra da noite, misturando-se com o verde-água da colina. Depois desfazem-se em espuma, em mar e ondeiam pela praia deserta, beberricando o doce-fel do entardecer.
Não havia maneira de a chuva parar. O vento continuava a gritar, arrancando algumas plantas por onde passava. O jardim, alagado, não sabia o que fazer a tanta água. Os lírios quase asfixiavam nas torrentes. Entretanto, de tudo se fez negro. Dentro da casa, na praia, na vila. Jane tateia às escuras e chega ao candeeiro a petróleo que, nesta altura, está sempre a postos. A chama a clarear ilumina-lhe o rosto cansado. A luz cresce, devagarinho, esbatendo-se nas paredes da sala num tremeluzir fraco. 
Já era muito tarde por dentro da noite quando o temporal cessou. Ouvia-se, lá fora, o escorrer da água, num murmúrio cadente. Havia algumas luzes a brilhar ao longe. A praia parecia ter-se adormecido sob um luar pálido. As ondas descansavam-se em maré vaza e Jane podia, enfim, dormir. Os lírios dormiam, tímidos e encharcados. Alguns ainda estremeciam. 
Volto para dentro de mim. Sou de novo matrioska.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Rosto da Infância

Desce as escadas com a sonolência a bater-lhe nos olhos. Ainda a noite dorme quando se levanta, como se o tempo parasse nas horas escuras. Penteia o cabelo, dá uma última demão à maquilhagem, ajeita o vestido. Bebe à pressa um café feito expresso e sai.
Por entre as folhas das árvores há um fino traço de luz pingando em suaves gotas de inverno. Aperta o casaco sob o frio aguado. Sorri ao padeiro que distribui a massa ainda quente, estaladiça e a cheirar a forno. Sobe-lhe à memória as trocas-voltas da infância e o riso mudo das arrelias matinais, quando, por entre os dedos, formava uma bola com o miolo do pão e a berlindava na mesa. Depois fingia comportar-se, quando a avó, por cima do ombro a espreitava e lhe dizia, bebe o leite, Bárbara, olha que chegas atrasada à escola.  E o tempo, naquela altura, não doía, era feito de uma espuma-canção que sabia a algodão doce nos domingos de feira. Come o pão, Bárbara, ralhava de novo a avó com o olhar cheio de nada. Era cega. Mas não na alma, onde tudo tem lugar.
Bárbara cresceu. De menina se fez gente. De gente se fez aos pedaços. Naquela manhã a chuva suspendeu-se, deixando os passeios escorregadios, as valetas atulhadas de lixo. As luzes começam a acender-se nas casas que madrugam, todos os dias, para os dias de trabalho. As crianças são levantadas à força, interrompendo o leito onírico em que se deitaram, fechando os olhos aos sonhos e abrindo-os ao frio que faz lá fora. 
Entretanto começara a cacimbar. Havia um grito mudo e negro que queria chorar a dor daquele inverno. Bárbara aguarda o comboio que a vai deixar no Intendente. Havia música-canção na chuva miudinha. Havia passos de dança nas águas que lavavam os passeios. 
Bárbara quer o futuro emprestado. Quer saber-lhe as profecias. Quer adivinhar-lhe os cheiros e sabores. Quer-lhe a vida por inteiro. E volta a sonhar, como em criança, quando a avó tinha de lhe bater no ombro e trazê-la de volta ao presente.
Olhe, sente um toque suave no braço, é o comboio. Não vai entrar?
Às vezes era bom que a infância não crescesse, que fosse suspensa num sítio onde nada dói. 

domingo, 30 de setembro de 2012

Quebra-Costas

Subo as escadas do Quebra-Costas em direção à universidade. É manhã, mas o céu apresenta-se pouco claro devido à cama de nuvens negras nele feita. Há um ruído próprio das cidades, vozes dos transeuntes misturadas com o matraquear dos tacões na calçada.
À minha frente segue uma senhora muito velha, sem idade, toda curvada, com um saco em cada mão. De tempos a tempos pára para recuperar o fôlego. Depois, novo avanço. Passo por ela sem a olhar mas, um pouco acima, dou por mim às arrecuas. Precisa de ajuda, pergunto-lhe em tom débil, com a fraqueza nas palavras, não fosse a senhora, por se sentir injuriada, mandar-me com os sacos.
Ó minha filha, deus te abençoe, diz-me, numa voz cristalina, semelhante à de uma cantora lírica. Eu moro já ali. Mesmo assim, dê-me os sacos que eu levo-lhos. Percebo depois que o já ali devia ter sido dito entre aspas. Calcorreámos um bom pedaço de tempo, uns vinte minutos, para ser exata. Com isto, faltei à primeira aula. 
Muito obrigada, minha filha. Entra que eu faço-te um café. Relutantemente fui dizendo que não, que tinha de ir para as aulas, mas aquele olhar verde musgo fazia lembrar a minha avó. Entrei. A porta era de madeira, estreita. Tínhamos de descer três degraus até encontrar a casa, toda ampla, o que significa que todas as divisões partilhavam um espaço único. Não havia luz natural, a não ser quando a porta estava aberta. O espaço não era grande, pelo contrário, cabia por inteiro na minha sala de jantar, pensei.
Vive aqui há muito, perguntei, num impetuoso arrepio de alma. Oh minha filha, desde que o tempo é tempo. E aquele vocativo era o arpejar da saudade da minha avó.
E isso é desde quando, perguntei com alguma malícia no olhar. Há noventa e três, se a memória não me falha. Bem, retorqui a rir, a senhora deve ter tido uma vida cheia! Tive pois, filha, cheia de artroses, então na alma...
Conte-me histórias, pedi. Conheceu muitos estudantes? Como é viver outra Coimbra? É o mesmo, filha, mas mais nova. Do que eu gostava mesmo era dos estudantes à futrica. Nunca soube o que isso era, não sou entendida em letras, mas quando ouvia, olha, ali vai um estudante à futrica, os meus olhos riam como duas laranjas. Devia ser do nome, futrica. Que raio de nome para chamar aos estudantes. Nesta altura ri a bom rir. Depois, recomposta, não fosse a senhora pensar que zombava dela, expliquei-lhe o conceito de futrica. No fundo, tinha vontade de lhe ensinar muitas coisas.
E nunca teve pena de não ter estudado, perguntei através de um sorriso de menina. Oh filha, os tempos eram outros, não podia.
Comecei a enfeitiçar-me por aquela forma de tratamento, era como se houvesse ternura no olhar e por dentro das palavras.
A D. Alberta movimentava-se já com algum custo. Mas brilhava-lhe o olhar e sorria-lhe o rosto. Observando-a bem, pareciam existir traços de juventude. Um eyeliner desenhado em tons sepia, um gosto rubro nos lábios e uma sombra incandescente nas pálpebras. Assim era D. Alberta nos seus noventa e três-vinte anos. E era bonita. A pele lisa e fresca como uma cereja, duas pernas bailarinas, o cabelo louro-trigo a cair-lhe pelos ombros e no olhar a  candura daquela manhã de outono. 
Mas era bela sobretudo naquele coração quebrado pela rua. E pela vida. 
Mas vai todos os dias lá abaixo? Como consegue, inquiri, na curiosidade de um momento. Não, filha, dia sim, dia não. Ao sábado e domingo descanso. Tenho de obrigar estas pernas antes que me abandonem por completo. Não tem ninguém? Filhos, netos... Respondeu-me com o silêncio e com uma lágrima fúnebre. Percebi, então, o quanto custa ser só. Peguei-lhe na mão enrugada e ali fiquei, a olhar o encontro de duas gerações em duas mãos cheias de nada. Não bebi mais do seu sorriso. Penso, mesmo, ter-lhe matado a solidão com um encontro funesto. E creio ter-lhe aberto uma ferida que estava prestes a fechar-se sob um fundo falso de memória. Não me perdoo, D. Alberta, ter-lhe feito esquecer o sorriso, tê-lo feito desaparecer do seu rosto e do seu peito. Não me perdoo não pensar as palavras antes de as dizer. As palavras não passam de encontros em vãos de escada que à noite são varridas para a sarjeta. Não nos perdoo não nos termos encontrado mais cedo.
Por ali fiquei, manhã, tarde, noite. Tantas histórias até às tantas. De rir, de chorar, de pensar. Histórias, apenas, que passam nos lapsos da memória. Era já tarde por dentro do tempo quando me despedi.
A D. Alberta há de continuar a subir a rua com os sacos das compras. Há de parar, uma e outra vez, para respirar. É já ali, há de dizer, sem eufemismos, como se as suas pernas soubessem de cor o refrão de todas as horas. Há de continuar a haver futricas no Mondego, enquanto Coimbra for Coimbra e não apenas canção. Mas o que a D. Alberta não sabe é que aquela manhã de outono ainda me arranha a memória, me faz cócegas ao ouvido como se lhe escutasse ainda o murmúrio das palavras. E, sobretudo, ainda me quebra a alma. 
As escadas ainda lá estão. Quebra-Costas. Agora entendo porque a rua se chama assim. 

Para A.

A. tinha um ritual. Todas as manhãs, depois de acordar, ia beber a bica ao quiosque do senhor, também A., que ficava no jardim defronte à casa. A. tinha olhos verdes que lhe sabiam a sal, cabelos da cor da seara depois de dourada pelo sol e, no rosto, o cansaço de ser gente. De ser gente apenas pela metade. 
O senhor A. já sabia de cor as rotinas das manhãs de A.. Um café e um copo com água servidos com um sorriso. 
Às vezes A. escreve um poema à pressa, daqueles avulso, que depois compõe na melancolia dos dias tristes. Outras vezes chora a veleidade do mundo. Quase sempre ri num corpo que chora, ainda que ao mundo se mostre ao contrário. Tem pena dos outros. E de si própria, mas o ego é secundário. Aflige-se mais com as dores do mundo, aquelas que também choram por dentro de si. 
Até amanhã, senhor A., vou indo, despede-se. Volta para a solidão do seu regaço. Entra na casa cheia de nada. Eu, pensa. Eu e o maldito mundo. E embrenha-se nas palavras, num luto enjeitado de poema. 
No interior da casa, quando o silêncio se sobrepõe ao ruído do dia, põe a mesa num canto da sala. Novo ritual. E janta, assim, a braços com a solidão. E esta  é a palavra que mais lhe dói, por sabê-la ali, tão companheira, tão obsessivamente presente, como um eco que se alastra pela casa. Ainda não inventaram uma fonética diferente.
À noite, por dentro do silêncio das paredes, ouve um outro sussurrar. Talvez sejam as lágrimas que chora em si. Talvez seja o rir-se do quotidiano. E ali, deitada no sofá, uma multidão de dores.
Amanhã compõe-se um novo ritual. Será mais um dia entre muitos que já existiram. A. sorrirá de novo através de lágrimas de camaleão. Ninguém notará. 
Haja o que houver, todos os dias A. há de ir àquele lugar sentar-se a beber a bica, quando as horas, por dentro dos dias, morrem devagar. 
E eu sei quem A. é para mim.


sábado, 29 de setembro de 2012

Histórias pintadas


Este é um conto simples. Temo, até, não ser boa com as palavras.
O elétrico passou às seis em ponto, nem mais, nem menos. Àquela hora, na paragem, amontoava-se uma série de trabalhadores, operários fabris que tinham acabado de largar o turno do sono. Fazia frio. O sol, preguiçoso, ainda dormia enroscado numa nuvem pequenina e espreguiçava, de quando em vez, um ou outro braço. Era inverno e, como se sabe, o sol de inverno apenas fustiga a pele, indelevelmente, quase sem a tocar.
Manel, rapaz para os seus vinte e sete anos, sentou-se no lugar do costume, dois bancos atrás do condutor, junto ao vidro. Gostava daquele assento, permitia-lhe sonhar outras vidas. Por exemplo, ali, debaixo daquele castanheiro, desenha uma jovem, em contornos poéticos, compenetrada na leitura e alheia ao ronronar do elétrico. De vez em quando esboça um sorriso, como se conversasse com o livro. Pinta-lhe os cabelos em tons de romã e, por entre o brilho do olhar, umas sardas sorridentes. Esculpe-lhe, também, um sorriso bonito. E suspende-a ali, num óleo sobre tela colorido. Mais além, numa casinha térrea de madeira, inspira o cheiro a lenha que se esvai em fumo branco pela chaminé. Lá dentro, sentados lado a lado, um casal de velhos, roído pelos anos, toma o pequeno almoço antes de sair para a horta. E inventa-lhes uma cumplicidade que só ele sabe e conhece, uma cumplicidade cinematográfica, cujo desenlace é o amor num corpo a dois. Adiante, por entre a seara orvalhada e reluzente, traça, com lápis de carvão, duas ou três mulheres, no vigor da juventude, a entoar cânticos negros, enquanto as mãos em sangue colhem o trigo. Já perto da fábrica onde trabalha, numa boutique finesse, parece ver, por entre a penumbra do nevoeiro, algumas senhoras chiques a comprar tecidos da moda que se desdobram em gargalhadas.
A mulher de Manel era costureira, não de profissão, mas por necessidade. Guardava o sorriso dentro da caixa de costura pois os dias findavam sempre em tristeza.
Mas voltemos a Manel, operário a contragosto, encostado à ombreira do silêncio da fornalha. Voltemos ao encontro do seu olhar. Adiante, numa fonte quase seca, alguém espera paciente pelo encher da bilha. É uma rapariga franzina, de corpo esguio e olhar sonhador. Levanta-se todos os dias cedo para, antes de ir para a escola, pôr o gado a pastar, fazer o café para os irmãos mais novos e ir à fonte. Olha o elétrico, sobranceira ao vão da melancolia, sonhando com a vida por dentro dele. Um dia, pensa, um dia hei de andar de elétrico, com um chapéu nos cabelos e a carteira ao ombro, como nos filmes franceses. Sorri a Manel, como se para lá daquela linha não houvesse mais nada. Este acena-lhe, também, um sorriso. Há, contudo, desgosto nos olhares. 
O dia findou. É mais fácil assim, quando a imaginação poética ajuda a passar as horas, como se apressasse os ponteiros do relógio para mais tarde. O elétrico só chegava daí a uma hora, portanto, às dezoito. Manel esfrega as mãos e sopra-lhes um bafo quente. Vai até à beira-rio para queimar aquela hora. O sol já se pôs, é inverno e ele deita-se mais cedo. Ficou, assim, o frio, mais agudo do que o da manhã. Ao longe, bem distante das margens do rio, navega um barco, talvez pesqueiro, não dá para divisar, pois só se avistam as luzes. Por outro lado, é noite. 
De regresso a casa, numa montra da cidade, Manel detém o olhar num quadro particular. Era uma pintura simples, que não obedecia a grandes interpretações, mas que, para ele, tinha a beleza camuflada de uma musa. A tela exibia uma bailarina, em pose artística, num movimento de pontas em relevé gracioso. Mas o mais espantoso era o fato que ela usava, um vestido feito de algas, e as conchas a servir de cabelos. E os olhos não eram olhos, eram dois rouxinóis dourados. E o olhar de Manel ficou lá, a descansar por dentro das algas. 
A vida de Manel é feita de contrários. Ri quando quer chorar, parte quando quer ficar, sente quando quer iludir. Para trás, bem para trás, ficam os dias de outrora a rir. 
Amanhã o elétrico vai voltar a passar, às seis em ponto. Novas histórias vão nascer no olhar de Manel, diferentes das de todos os dias, pintadas com as cores de um arco-íris em tons pastel. A mulher vai dizer-lhe adeus na aduela da janela, por entre vasos de lírios mortos. Os filhos ainda dormirão o cedo da manhã, envoltos em cobertores de afetos e lençóis a cheirar a madressilva. Imperdoável, contudo, não terem motivos para sorrir, ainda que não o saibam. Quanto a hoje, hoje não foi senão uma metáfora do amanhã. 

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Cão com lágrimas


Oxalá tivesse uma história diferente para contar, daquelas que acontecem mesmo, mas só aí, nas histórias e por dentro delas.
Era um domingo de manhã, já o sol ia alto e as nuvens tinham adormecido num céu longínquo. Parei o carro junto a um café de beira de estrada, num sítio do interior do país. A paisagem circundante era de um verde que feria a vista. Um verde virgem, puro e imponente, diferente do verde fusco dos arredores das cidades. Havia um silêncio inquietante, apenas cortado pela natureza bruta: um esvoaçar de pássaros, a brisa quente de fim de verão a assobiar por entre as folhas das árvores, o sopro de um qualquer sardão que se escondia por entre as ervas, um ou outro zumbido de insetos que até eu, entendida em zoologia, desconhecia. Talvez na aldeia existissem vidas diferentes, ignotas vidas para quem dali não é.
Aspirei aquele dia. Inspirei-o mesmo, como se aquele ar quase intáctil me fosse renovar por dentro. Fechei os olhos e deixei-me ali ficar, encostada ao carro, quase num adormecimento dolente e breve. Era a calma daquele lugar a entranhar-se-me na pele e a transformar-me por inteiro. A sua memória ficou em mim, como uma película fotográfica que se imprime e coloca numa parede. De facto, fotografei diversas imagens que até hoje em mim continuam coladas ao negativo da memória.
Abri, pois, o olhar àquele sítio. Quis penetrar na sua história, nas suas gentes, quis conhecer um outro lado da vida, aquele que dói com um sorriso, soube-o daí a instantes.
O estabelecimento era um vulgar café de aldeia, porém, não tão vulgar como o que os meus olhos viram de seguida. E hoje, penso, já não sou a mesma. O café, dizia, era velho. Tinha uma porta estreita, na qual estavam penduradas umas fitas de plástico, daquelas que tendem a dissuadir os insetos de entrar. Havia também uma janela de madeira, já gasta, muito gasta, cujos vidros refletiam uma luz fina e limpa. Entrei, não a medo, mas com a curiosidade que me é característica. O espaço estava vazio. Olhei ao meu redor e não vi outra coisa senão ruína. A ruína de uma vida. Ou de muitas. Dei um passo, outro, e a cada um o chão gemia, como se a madeira, também velha, se queixasse com dores. Havia uma ou outra tábua solta. No entanto, o chão estava varrido. Bom, pensei, não é tão mau como parece.
Eu era a típica rapariga da cidade, habituada a frequentar espaços bonitos, imaculados, casas de chá, wine houses, restaurantes com música ambiente e conversas em tom baixo, teatro, cinema, e tudo o que demais acontece nas metrópoles. Deparar-me com aquele espaço era, no mínimo, um atentado ao meu pudor.
Duma salinha contígua ao café saiu um homem, velho, tão velho como todos os dias que já morreram. Nova deceção. Como poderei inteirar-me da história destas gentes com este senhor que deve perceber tanto da vida como eu de astrofísica? Redondo engano. Soube-o também mais tarde. Soube-o pelo rosto cansado daquele homem que sabia mais da vida do que eu alguma vez poderia saber. Porque aquilo que se aprende não é só o que vem nos livros de ciências, dizia-me.
O balcão estava gasto. Pedi um café que o senhor prontamente foi tirar. Apesar do peso da idade que as suas mãos carregavam, ainda era visível uma certa agilidade. Espreitei para dentro do balcão, qual menina que anda a descobrir o mundo, e vi mais um resto de solidão. Deitado, já velho e cansado como o velho, estava um cão.
Bebi o café. Bah! Intragável. Nunca tinha bebido um café tão insalubre. Por momentos pensei, não estou em Portugal, mas depois lá me fui apercebendo que sim, pela dicção fúnebre das palavras com que o senhor Bernardo, era esse o seu nome, ia quebrando o silêncio daquele fim de manhã domingueiro.
Devia ter ido à missa, dizia-me, mas há muito que rompi com deus. Assim olhe, venho para aqui entreter-me, à espera que alguém me chame ou que alguma rapariga jeitosa me pisque o olho. Sorria. Sorria com o olhar todo. Nesta altura apercebi-me do encanto que é ser velho. Até nos lisonjeios são dóceis, pensei.
A menina tem fome, perguntou-me. É quase meio-dia, vou para cima que a mulher deve ter o almoço pronto. Não quer comer connosco? Fiquei um pouco relutante. Afinal, ainda que simpático e educado, eu não conhecia o velho. Mas, ele mal consegue andar, não oferece perigo e, de facto, confesso que a fome já aperta. Venha, faça-nos companhia. Anda Bartolomeu. A esta frase levantou-se o cão, a coxear e com o pelo doente. Era cego de um olho e coçava-se frequentemente. Olhou-me, aproximou-se, cheirou-me as mãos e lá seguiu escada acima com o peso da idade e da doença. Passámos pela salinha que ficava lado a lado com o café. Nova ruína. Do teto velho, alto, a fazer lembrar uma casa senhorial, mas em tons de pobre, pendia uma trave que, por sua vez, era sustentada por uma coluna também em madeira. Havia pedaços de tinta que se descolavam da parede. As escadinhas que davam acesso ao andar superior foram uma nova aventura. Novo ranger, como se a cada degrau lhe doesse um dente. Cheguei a pensar que as escadas iam ruir sob o nosso peso, tão frágil era a sua vida. Quando, finalmente, galguei o último degrau respirei de alívio. O interior da habitação não era diferente do que já tinha visto. Pobre, decadente, ruinoso, mas asseado. Valeram-me estes ares de limpeza para não ter desistido daquela gente, pensei com egoísmo, centrada em mim, como se o mundo fosse só um lugar belo. Não era. Havia outros mundos dentro do mundo. Mundos que choram através de um sorriso.
A mulher do senhor Bernardo era velha também. Mas, à semelhança do marido, bailavam-lhe nos olhos dois sorrisos. Comemos. Conversámos. O cão dormia.
Fazia-se já tarde quando me despedi. Por ali ficou a minha memória, agarrada às paredes negras do café, a jusante das tábuas gastas e velhas, deitada numa cama de ferro com lençóis a cheirar a feno.
Mas nem tudo ali era velho, decrépito, podre. Não o olhar a rir daquele homem carcomido pelos anos já mortos. O cão veio também despedir-se. No olho que via pude observar-lhe uma lágrima. E ali ficou a ver-me partir enquanto eu, pelo espelho retrovisor chorava, também, aquele abandono.
Passados uns anos voltei lá. Tive saudades do olhar torto do senhor Bernardo. Até lhe comprei uma prenda, um telemóvel, para ele poder dividir comigo a solidão. Fiz-me à estrada. Só parei quando lá cheguei, ainda que tenha perdido outros cafés, outros sorrisos. Parei o carro e saí à pressa. Desta vez não quis sorver a natureza. Fica para depois, pensei. Fazia frio, senti-o pelo arrepiar da alma. Só posteriormente percebi porquê.
A porta estava fechada e as fitas não estavam lá. Talvez dançassem por dentro. Bati. Uma. Duas. Três vezes. Silêncio. E o frio. Foi então que comecei, de novo, a fotografar aquele espaço. A fechadura tinha uma teia na qual a aranha descansava. Os vidros da única janela estavam embaciados de sujidade e a cortina, por dentro, corrida. A morte, pensei, só pode ser a morte. Chamei o cão. Nada. Olhei para a casa outrora habitada e estava, também, morta. Havia uma peça de roupa preta meio caída numa corda. Sinal do luto. Abri o portão e subi a escada. Rodei a maçaneta da porta e esta abriu. Entrei para o aspecto desolador da casa. Estava vazia. Havia apenas, num dos parapeitos da janela, uma jarra com o resto de uma flor. Morta. Mas sorria. Deixei-me cair e chorei. Chorei todas as lágrimas que consegui. Depois, vencida pelo cansaço, tirei do bolso o telemóvel, escrevi o meu número na caixa e desci. Na janela suja do café desenhei um sorriso que, mais tarde, com a chuva, se desfaria em choro, em lágrimas caídas pela quelha do telhado. 
Aquele dia cinzento chegara ao fim. Na casa não ficou apenas a memória, mas também a rosa sangue que chorei por entre os espinhos. Entrei para o carro, fechei os olhos e não ouvi mais nada. Sabia de cor todas as palavras que me asfixiavam a voz, que não me deixavam sequer pensar. Via cada ruga do rosto do senhor Bernardo em contornos violáceos. Sentia a lágrima do Bartolomeu a bater-me na cara.
Ainda hoje espero o telefonema do senhor Bernardo, apesar de saber que o telefone não vai tocar.
Em mim fica a memória do dia em que, por entre escombros e ruínas, nasci. Fica a saudade do rosto a rir do senhor Bernardo e da lágrima do cão cego.  Fica, também, a certeza de que há sempre um outro ver para o que vi. 

domingo, 23 de setembro de 2012

O livro

O livro era bonito. Tinha uma capa macia, suave à passagem do toque. Era cara. Também aveludada. Debruada a linha de ouro. Pousei o livro no colo, abandonei a marca da leitura a meu lado. Toquei-lhe. A marca ficou lá, indelével, como traço fino no papel. Acariciei, uma vez mais, o frontispício, passei os dedos pelo título e a minha pele eriçou-se com as palavras.
Sentei o livro no regaço e afaguei-lhe os cabelos. Contra o meu peito de páginas desfeitas o apertei em solidão. Encostei-o ao ouvido e escutei-lhe o murmúrio do cantar.
Deitei-me, enfim, no veludo da sua encadernação e contei-lhe histórias de ir dormir. Descansei-me no embalo das palavras e no perfume fresco das folhas ainda virgens.
Adormeço.
E o livro por abrir.

sábado, 22 de setembro de 2012

Palhaço que dói





Sinto-me palhaço estranhamente em mim.
Dói-me o nariz e as botas são-me grandes.
Doem-me os pés.
Dói-me, sobretudo, o sorriso que não dou.
Do casaco tiro um corvo que num ápice é pomba branca.
Doem-me as botas.
Dói-me o laço no pescoço.
Dói-me o riso dos meninos.
Dói-me a vida a sussurrar por dentro das calças.
Dóis-me. Tu em mim.




quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Les jours tristes


6:55. O despertador toca. Nesse mesmo momento um casal de velhos acorda. Um gato adormece no vão de uma escada. Uma mulher levanta-se para fazer o pequeno almoço. Uma criança choraminga. O café abre as portas. O primeiro cliente entra. Um homem espera a chegada do metro. Um professor toma banho. Um médico troca de turno. Um padeiro faz mais uma fornada. 
O pão quente é servido ao primeiro cliente do café que acabou de trocar de turno no hospital, esquecendo-se de avisar a mulher que entretanto já se levantara para lhe preparar o pequeno almoço, enquanto ouve o choro do filho no quarto contíguo à cozinha que deixou escapar o gato para o vão da escada onde adormece. Nesse mesmo instante acontece tanta coisa. Amélie acorda.
7:05. Acontecem mais coisas, muitas, ao mesmo tempo e em diferentes lugares. Se calhar as mesmas coisas, exatamente as mesmas, os mesmos gestos, as mesmas palavras, mas em sítios opostos, a horas trocadas, mas naquele exato momento.  Amélie toma banho ao mesmo tempo que inúmeras pessoas fazem essa e outras coisas. É estranho que isto aconteça, pensa. No entanto, nada tem de estranho. É a vida. 
7:35. Amélie atravessa a cidade. Trabalha do outro lado, nos subúrbios. A manhã está calma e serena. Amélie capta-lhe a essência, uma pele morta sob um bocado de céu. O rio, ao fundo, passa despercebido ao olhar dos velhos transeuntes. É um rio velho, também, já não assobia, apenas existe num leito sem margens. Amélie olha a fluidez da água onde se refletem as árvores já sem folhas de um outono que começou. Debaixo da ponte pasma um barco, meio na penumbra da manhã, ainda por dentro de um nevoeiro baixo.
8:00. Amélie encontra, caída aos pés de um banco de jardim, uma caixa velha, fechada. Tenta abri-la mas não consegue. Agacha-se, pega uma pedra e começa a martelar a velha fechadura que em poucos instantes se parte. A medo, embora com alguma curiosidade, as mãos de Amélie tateiam aquele achado. Lentamente sobe a tampa. A caixa não contém senão memórias de alguém que foi criança. Um berlinde, um mini tabuleiro de xadrez com algumas peças, uma fotografia gasta de um homem elegante, um bilhete de cinema com o título "Les Jours Tristes", uma carta. De joelhos, a seu lado, está o homem da fotografia, mas criança, que lhe toca no ombro e diz-lhe, em tom dolente, quando somos pequenos o tempo não passa e, sem darmos por ela, como se no mesmo instante, não somos senão uma memória dentro de uma caixa enferrujada.



sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Conversa a duas vozes

Já passaram tantos anos e parece que ainda sinto o colo de minha mãe, dizia, enquanto lágrimas pequeninas lhe caíam no regaço. 
Mariana tinha uns olhos cor de mel, que se enchiam de saudade muitas vezes.
- Já te contei a história da minha mãe?, perguntava com insistência. E os olhos vertiam duas lágrimas tristes.
Às vezes sentava-se ao piano, as mãos pequeninas sobre as teclas, duas longas tranças louras a cair-lhe sobre o peito, e o olhar vagueava para lá de qualquer canção. O pai observava-a, não sem lhe dar um ralhete, estuda, Mariana, para a semana tens recital. E ela lá olhava todos aqueles dentes negros e brancos enquanto as suas mãos, em pose apropriada, começavam a deslizar nas teclas como dançarinas em improviso.
O pai, de cachimbo na boca e jornal sobre os joelhos, fingia não estar atento, mas os seus olhos rasgavam um sorriso de menino embevecido.
A mãe, da cozinha, num espreitar fugidio, deitava o olho à filha num piscar cúmplice de incentivo. E sentindo aquela força-mãe, as mãos de Mariana ganhavam um novo acorde e a canção soava melhor. Mas só ela sabia.
Entretanto os anos passaram, como acontece, inevitavelmente, com todos os relógios do mundo. Mariana cresceu, nem podia ser de outra maneira. Foi menina, foi mulher, foi velha. E é nesta dor que ela ainda se demora, quando espera, todas as manhãs, que a mãe a acorde para ir para a escola, que o pai lhe ralhe por não ter a lição de piano estudada. E não percebe porque é que os pais não a vêm chamar.
Chora. Chora um silêncio profundo, uma mágoa de palavras sem entendimento. Chora, sobretudo, o fim de uma vida que não chega. Mas também ri. Ri com a força da infância. Com o lume a desfazer-se em cinza do calor da adolescência. Ri, sobretudo, dela própria. 
Mariana olha-se ao espelho. Os olhos continuam cor de mel. Têm ainda o brilho das histórias, o riso das estrelas, a lividez da lua cheia. Falta-lhes, contudo, o sorriso das memórias e o timbre certo da canção. Se ao menos estivesses aqui, mãe!
Os cabelos brancos e baços caem-lhe em desalinho pela fronte. Os lábios caem-lhe também, sulcados pelas rugas do presente. As mãos tremem-lhe, não ao piano, mas à idade a que chegaram. No rosto há um traço de solidão e um rasgo de abandono. É a vida, pensa.
- É a puta da vida, Mariana. Agora veste-te que tens de ir para a escola, diz-lhe a mãe.
Mariana obedece. Veste o vestido. Calça as meias e os sapatos. Pega na mochila e desce. O piano está aberto. Mariana olha-o, aproxima-se, fecha-lhe a tampa e sai. O recital terminou. Há aplausos. E Mariana sorri, pisca o olho à mãe e adormece, com ternura, no seu colo de menina.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Verão

E num instante, numa metamorfose cálida, o verão chegara ao fim. As tascas fecharam, os chapéus de sol recolheram ao lugar comum da despensa, as barracas de gelados descansam agora para um novo acordar. 
Na praia ficam as marcas incógnitas de pés descalços que o mar há de apagar. Enterrados na areia ficam tesouros. Memórias. Talvez algumas lágrimas. Talvez a saudade.
Já não se sente o cheiro a grelhados mistos de terra e mar. Os risos de crianças são abafados por outras tempestades. As festas de rua, com rufares de tambores e vozes mortiças, também cessaram. 
As leituras de esplanada são substituídas por cafés tomados à pressa. Os calções passam a colarinhos brancos e fatos cinzentos. Os olhares descansam-se não na planície da tepidez, mas nos sucessivos minutos urgentes. As ruas passam a ser habitadas por cães vadios. No chão há copos vazios da ressaca e beatas apagadas. 
Há toda uma esterilidade, como se o mundo tivesse ficado virgem. O vento começa a mudar o seu rumo e sopra, violento, contra as rochas. As gaivotas já não vão beijar a praia só ao fim do dia, fazem-no a qualquer hora, em voos semicirculares sobre o mar. De vez em quando lá têm a sorte de trazer um peixe e saboreiam-no, descansadas, frente à praia-mar. 
O ébano da noite aparece mais cedo, como se o dia tivesse pressa em partir. As casas fecham as persianas. As árvores adormecem e nelas os pássaros enroscam as suas penas. 
O verão chegara ao fim. E o mais difícil é o silêncio ao fim do dia.


quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Da noite ao silêncio

Da noite ao silêncio o rasgo é fino, 
como folha de papel que se desfaz ainda inteira.
E dessas tuas mãos sujas e gastas
nasce o medo de seres gente
e, aos pedaços, te lamentas à janela do piano.
Da noite ao silêncio o tempo é breve,
como pêndulo a rasgar as horas mortas.
Sais descalço para a noite que adormece
e sentes o ar pesado do cansaço
que te veste, aos ombros, a solidão.

E compões, nesse gesto oblíquo primoroso,
a canção que do silêncio rompe o som.
Como se da noite ao silêncio não houvesse nada.
Ou houvesse tudo.
Tu.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Se o mundo fosse cão

Acordou com o espreguiçar torto de ser cão. Abanou todo o corpo, começando nas orelhas e descendo até à cauda, num estremecimento, como se sobre ele tivesse pousado uma ténue ondulação. Espreguiçou-se de novo. O sol ardia num imenso céu azul. A rua estava deserta. Ele procurou uma sombra fresca e deitou-se. Um ladrar longínquo fê-lo levantar-se apressadamente, patas dianteiras na trave de madeira que o separava do mundo. Respondeu, numa comunicação que só os cães entendem, mas que, traduzido, poderia querer dizer, sim amigo, estou aqui. O outro respondeu, ainda bem, fico contente. Calaram-se. Os cães só falam o essencial. Ainda esperou um latido, um uivo, um ladrar mais manso, mas o outro, mudo, como só os cães sabem ser, ficou-se por ali. Ele ainda insistiu, até logo, mas o outro nada. Deixou cair o corpo e voltou para a sombra que entretanto mudara de sítio, embora ao cão isso não causasse incómodo. 
Por ali ficou, numa semi-dormência, porque os cães, com o calor, ficam sem forças. O gato, que era daqueles chatos, que gostava de espicaçar, porque depois saltava para os telhados e árvores, pavoneava-se em passo lento, mas o cão levantou a cabeça, olhou-o e voltou para o seu descanso.
Por volta do meio dia, já o sol queimava a bom queimar, o cão, com uma respiração sôfrega, porque isto de ser cão tem muito que se lhe diga, recebe um banho que sai de jato da boca de uma mangueira que ali se encontrava. Novo abanão de corpo, agora para sacudir a água que lhe forçava o andar, pelo peso, entenda-se. Bem mais fresco, revigorado, pergunta, contente, amigo, estás aí? Estou tão bem. Já comi, bebi, tomei banho, agora vou dormir a sesta. Até logo.
O outro voltou a não responder. Deitou-se e dormiu por muitas horas.
Todas as manhãs, assim que o dia, preguiçosamente, se levanta, num ritual fraterno de amor contido, o cão dá os bons dias ao amigo. Aquele, porém, não responde. Para o cão, o tempo parou no dia em que o amigo, em vez de se despedir para sempre, porque os cães também morrem, disse, ainda bem, fico contente. E, sem mais, fechou os olhos levando neles o seu amigo. Por isso, todos os dias, o cão cumprimenta o amigo, num gesto rotineiro de amor, como se ainda o ouvisse, ao longe, não na memória, mas nos ouvidos, com as orelhas levantadas, a língua de fora, as patas dianteiras na trave. E ouve-o, de facto. Ouve-o no tamanho do seu coração, que não tem tamanho para albergar todos os latidos que o amigo, várias vezes, lhe enviava como sinal de enternecimento por o saber ali. Só eles entendem o que conversavam. Nós limitamo-nos a traduzir o indizível, a colocar na boca dos cães palavras que porventura eles nunca disseram. Mas uma coisa é certa: às vezes penso, se o mundo fosse cão...

A B(b)arca do Mondego

Ao lugar chamavam-lhe Barca, talvez porque por ali se passeasse um bote no feminino. Do rio diz a História que é o maior. Também o diz a minha alma. E o meu coração. Por volta dos meus dezassete anos deixei aquele lugar e nele ficou a minha primeira vida. Outras haveria de ter, tantas vezes haveria de nascer que já me esqueci dos anos. Entretanto, muitos passaram, mas ainda ontem dali saí. 
O rio já não é o mesmo. Mudaram os olhos que o vêem, mudou o corpo que nele imerge, mudou, até, a memória que é já outra, amadurecida por essas tantas vidas em que me nasci. 
Mais abaixo, num outro lugar, exibe-se a aldeia, com o seu casario desalinhado, um campanário e a mercearia do "ti" João, que ainda hoje nos acena com um sorriso breve, sentado num banco de madeira do lado de fora da loja, à borda da estrada. Por momentos esqueço-me de todas as vidas que me pariram e reencontro-me, nos meus seis-dez anos, ao balcão, a comprar-lhe pastilhas e rebuçados. Olhar tímido, a medo, lá pedia em voz sussurrante, quase inaudível, enquanto contava os centavos para ver no que aquilo dava. Depois lá seguia rumo a casa, por um caminho pedestre, num percurso que hoje já não faço a não ser naquele imaginário infantil que um dia me ficou. Já não me conheço, digo-me, com o olhar triste, já não me conheço. Quem és tu, menina? Quem és? 
A casa está diferente, caiada a branco, com janelas verdes. Também ela mudou. Outras gentes por ali vivem e eu posso, ainda, ouvir a respiração da casa quando, em sombras apagadas, tudo dorme. E o galo, lá fora, a despertar, a anunciar o quase-dia. E os cães, outros vagabundos que não nós, a uivar por um afecto. Do resto é só o silêncio. E a calma. 
Hoje o lugar tem nome de rua, talvez um topónimo feito à pressa. Para mim nunca deixará de ser a Barca, Barca do Mondego. 
E do Mondego, triste também me vem a saudade. Das margens ainda vejo os salgueiros que faziam sombra nos entardeceres em que o sol ainda não se tinha posto. Ainda ouço o coaxar das rãs em gorjeios roucos. Ainda sinto os peixes a arpoarem-me os pés num bicado doce. E é tão longe esta memória! 
Por ali ainda me demoro, nas noites quentes de Verão, em que velhos conversavam à janela e nós, petizes, com as faces coradas do calor do dia, brincávamos até ser tarde na noite. Havia luzes nos pirilampos. E as luas eram maiores que as de hoje, mais inchadas, mais frescas, mais luas. 
Mas aquilo que melhor recordo, embora tema que as palavras me traiam numa descrição que só pode ser dita sem palavras, só pode ser dito lá, onde aconteceu, e em mim, nesse tal imaginário que fui, onde as figuras de estilo não têm lugar porque o Belo é inexpressível, eram as tardes do sol-pôr, num céu vermelho-laranja incandescente de paixão pela terra, o murmúrio cadenciado do rio, naquele borbulhar de águas então límpidas e os pássaros a adormecerem-se, ternamente, enroscados nas árvores de beira-rio. E eu ali, a existir. A desenhar memórias para o dia em que as palavras me viessem beijar as mãos. Tudo tão calmo e já passado. Tudo tão triste nesta lembrança que me corre entre os dedos. Que fica pendurada nos beirais dos telhados para, no Inverno, chorar todo o negro dos céus. 
As ovelhas ainda pastam o verde da paisagem. Estão tosquiadas e levantam a cabeça, a olhar-nos, quando corremos para esse rio da nossa infância, aos gritinhos de crianças para quem a vida não é outra coisa senão brincadeira de meninos. E é tão longe esta memória...
Nesta outra vida em que agora me sento vejo apenas palhaços a rir. Não sei, ao certo, porque choram, contudo. Por ora, a barca passeia-se apenas na minha memória, num mar de águas salgadas que são, tão-somente, as minhas lágrimas. Sinto-me/sento-me palhaço. 

sábado, 7 de julho de 2012

A partida

Era um frio terno, um frio de início de verão, que adormece à janela. O sol pintava o horizonte como que deixando cair fios de ouro sobre a cidade. A tarde ia crescendo para, daí a pouco, morrer na noite. 
Ela, cansada de mais um ciclo findo, olhava a janela baça, enquanto uma aranha se passeava numa teia por fazer. O mundo era bonito, principalmente para as aranhas. 
Arrumar a sala, reunir os livros, os papéis, lápis e canetas, era demasiado fácil. O difícil era arrumar a saudade, essa lenta memória que marca o tempo sem querer. 
Saiu. Bateu a porta atrás de si, rodou a chave e ouviu o silêncio por detrás da porta. Apenas o silêncio. E a aranha a tecer a casa, que era, também, um outro silêncio. 
A rua, já quase deserta, oscilava entre o desassossego pendente das poucas gentes que ainda ali permaneciam e a calma anunciada de uma noite morna. Aqui e além, alguns velhos teciam conversas de fim de dia, fumando cigarros que se deixavam apagar entre os dedos dormentes. No ar havia um forte cheiro a comida e ela apercebeu-se que tinha fome. Entrou no estabelecimento que ficava ali defronte. Pediu um café e uma nata, pelo menos dava para lhe afagar o estômago num abraço breve. O proprietário, um homem de meia idade, que dava pelo nome de Zeferino, sorriu-lhe, dizendo-lhe, então doutora, já está. Para o ano há mais. Talvez, respondeu com os olhos fixos na chávena do café que ela segurava com ambas as mãos e mexia de um para o outro lado a fim de lavar a espuma, talvez senhor Zeferino. Vou ter saudades até do seu café, veja bem, que é mau como tudo. Ria. O senhor Zeferino riu também, raio dos técnicos que nunca mais me vêm ver a máquina, dizia. Desde Setembro que dizia o mesmo. Ela continuava a rir, embora do lado de dentro, onde tudo acontece, um oceano de lágrimas invadisse toda aquela dor sentida a medo.
Pagou a bica e a nata. Saiu. Adeus senhor Zeferino, veja lá essa máquina. Hei-de ver, doutora, hei-de ver. E partiu, deixando para trás a sombra da saudade.
Vocês têm tanto para dar que, quando se dá por ela, o ano já acabou, dizia, com o olhar meio a rir e a outra metade, maior, a chorar. Era a despedida. Era a solidão naquele verão quente anunciado. E, olhando o mar, olhando o sol que nele mergulha incendiando as águas, ela mergulha, também, na memória. Ainda ouve os adolescentes a rir.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

A carta

Espero a sua carta ao entardecer, mas o carteiro não veio. Talvez esteja doente. Ou talvez ela não tenha escrito e daí a sua ausência. A dele. O carteiro. 
Dizia-me que ia escrever todos os dias, dizia-me. Mas as letras não chegaram. Talvez o carteiro tenha mudado de rua. Talvez o silêncio tenha asfixiado as palavras. E talvez as palavras tenham morrido. Ah, e eu não fui ao funeral! Talvez. Talvez tanta coisa.
E as horas inertes também à espera da sombra de um sol ido, enquanto os montes, ao longe, se adormecem num recanto de mundo qualquer. 
Espero a sua carta ao entardecer. E as letras que não vêm, sufocadas que estão no seu pranto de menina. Tardo nesta tarde de fim de dia e sinto a vida a esmorecer. Sinto os dedos frios de segurar a sua memória. Sinto as pernas tremer de correr parado. Mas não a alcanço. Ela está lá, longe, no infinito da sua dor e eu aqui tão longe. Tão longe. A segurar a sua memória. A pentear os seus cabelos nas linhas invisíveis do poente. A desenhar-lhe no corpo filigranas de poesia. 
Espero a sua carta ao entardecer. E olho a trave que sustenta a casa, húmida das lágrimas da sua ausência. Sou cão moribundo e quedo-me, mudo, ante esta vida-solidão que em mim ficou. Não posso querer mais do que querê-la, contudo, mais não faço senão arranhar-lhe a memória. E vestir-me, lúgubre, de saudade. E há todo um mistério neste meu desassossego, como se a sua distância fosse um ponto infinito morto há muito, como as estrelas. Mas a sua luz, ah, a luz, essa existe, ainda. Em tudo quanto vejo. Em tudo quanto toco. 
Espero a sua carta ao entardecer. Há chuviscos nas janelas. Uma sombra fresca deita-se sobre a erva, abraça as flores rasteiras beijando-lhes os pés. E eu sou nada. Sou o silêncio torpe da saudade. Não sou o seu amante. Não sou o seu dono. Sou, apenas, uma memória atrás da porta.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

In Memoriam

A "ti" Chica bebia as tardes com prazer. Tinha treze gatos mas, por sorte, este não era número de azar. Eram todos pretos o que, afortunadamente, dava jeito porque assim não se via o sujo.
Tinha também um cão, o Tobias, de quem gostava especialmente, não que o preferisse aos gatos, cada espécie tem as suas particularidades, mas este era o seu companheiro, fora as vezes que a trocava pela cadela do vizinho mas, tirando isso, era fiel. Coitado do bicho, também lá tem as suas necessidades.
- Boa tarde, "ti" Chica.
- Adeus, filha.
Era assim que ela metia dentro de um cumprimento todas as despedidas. Fazia-o, é certo, porque um dia não teria tempo. Assim, partiria com a certeza de um adeus.
Ao fim da tarde, por dentro da ruína dos dias, sentava-se no alpendre, com o Tobias ao colo, e tirava a máscara da solidão. Nos olhos a mágoa do silêncio. Na boca o traço rasgado de um sorriso por dar. 
Um dia partiu, deixando os treze gatos à sorte e o Tobias que, com o olhar raso de saudade e a cauda baixa de tristeza latiu um adeus que, traduzido, significaria até breve, minha velha.
E por ali ficou, a penar a vida, a farejar lágrimas de tristeza na máscara caída no alpendre, enquanto se deitava aos pés da cadeira da "ti" Chica, enchia o peito de ar para o sacudir num suspiro breve, fechava os olhos e adormecia-se.
Os gatos olham-no de longe, numa irmandade de pêlo unicolor, miando com pesar aquela noite quente. O cão mexe-se, abre os olhos, salta para a cadeira da dona que ainda contém o seu cheiro e por ali fica, com o olhar mudo rasante de lágrimas que só um cão sabe chorar.