sexta-feira, 29 de junho de 2012

A carta

Espero a sua carta ao entardecer, mas o carteiro não veio. Talvez esteja doente. Ou talvez ela não tenha escrito e daí a sua ausência. A dele. O carteiro. 
Dizia-me que ia escrever todos os dias, dizia-me. Mas as letras não chegaram. Talvez o carteiro tenha mudado de rua. Talvez o silêncio tenha asfixiado as palavras. E talvez as palavras tenham morrido. Ah, e eu não fui ao funeral! Talvez. Talvez tanta coisa.
E as horas inertes também à espera da sombra de um sol ido, enquanto os montes, ao longe, se adormecem num recanto de mundo qualquer. 
Espero a sua carta ao entardecer. E as letras que não vêm, sufocadas que estão no seu pranto de menina. Tardo nesta tarde de fim de dia e sinto a vida a esmorecer. Sinto os dedos frios de segurar a sua memória. Sinto as pernas tremer de correr parado. Mas não a alcanço. Ela está lá, longe, no infinito da sua dor e eu aqui tão longe. Tão longe. A segurar a sua memória. A pentear os seus cabelos nas linhas invisíveis do poente. A desenhar-lhe no corpo filigranas de poesia. 
Espero a sua carta ao entardecer. E olho a trave que sustenta a casa, húmida das lágrimas da sua ausência. Sou cão moribundo e quedo-me, mudo, ante esta vida-solidão que em mim ficou. Não posso querer mais do que querê-la, contudo, mais não faço senão arranhar-lhe a memória. E vestir-me, lúgubre, de saudade. E há todo um mistério neste meu desassossego, como se a sua distância fosse um ponto infinito morto há muito, como as estrelas. Mas a sua luz, ah, a luz, essa existe, ainda. Em tudo quanto vejo. Em tudo quanto toco. 
Espero a sua carta ao entardecer. Há chuviscos nas janelas. Uma sombra fresca deita-se sobre a erva, abraça as flores rasteiras beijando-lhes os pés. E eu sou nada. Sou o silêncio torpe da saudade. Não sou o seu amante. Não sou o seu dono. Sou, apenas, uma memória atrás da porta.

2 comentários:

  1. A ânsia do que está por vir... A dor do que não chega... Mais um texto magnífico! Parabéns, minha Mana! ***

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