quinta-feira, 14 de junho de 2012

In Memoriam

A "ti" Chica bebia as tardes com prazer. Tinha treze gatos mas, por sorte, este não era número de azar. Eram todos pretos o que, afortunadamente, dava jeito porque assim não se via o sujo.
Tinha também um cão, o Tobias, de quem gostava especialmente, não que o preferisse aos gatos, cada espécie tem as suas particularidades, mas este era o seu companheiro, fora as vezes que a trocava pela cadela do vizinho mas, tirando isso, era fiel. Coitado do bicho, também lá tem as suas necessidades.
- Boa tarde, "ti" Chica.
- Adeus, filha.
Era assim que ela metia dentro de um cumprimento todas as despedidas. Fazia-o, é certo, porque um dia não teria tempo. Assim, partiria com a certeza de um adeus.
Ao fim da tarde, por dentro da ruína dos dias, sentava-se no alpendre, com o Tobias ao colo, e tirava a máscara da solidão. Nos olhos a mágoa do silêncio. Na boca o traço rasgado de um sorriso por dar. 
Um dia partiu, deixando os treze gatos à sorte e o Tobias que, com o olhar raso de saudade e a cauda baixa de tristeza latiu um adeus que, traduzido, significaria até breve, minha velha.
E por ali ficou, a penar a vida, a farejar lágrimas de tristeza na máscara caída no alpendre, enquanto se deitava aos pés da cadeira da "ti" Chica, enchia o peito de ar para o sacudir num suspiro breve, fechava os olhos e adormecia-se.
Os gatos olham-no de longe, numa irmandade de pêlo unicolor, miando com pesar aquela noite quente. O cão mexe-se, abre os olhos, salta para a cadeira da dona que ainda contém o seu cheiro e por ali fica, com o olhar mudo rasante de lágrimas que só um cão sabe chorar.

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