segunda-feira, 9 de julho de 2012

Se o mundo fosse cão

Acordou com o espreguiçar torto de ser cão. Abanou todo o corpo, começando nas orelhas e descendo até à cauda, num estremecimento, como se sobre ele tivesse pousado uma ténue ondulação. Espreguiçou-se de novo. O sol ardia num imenso céu azul. A rua estava deserta. Ele procurou uma sombra fresca e deitou-se. Um ladrar longínquo fê-lo levantar-se apressadamente, patas dianteiras na trave de madeira que o separava do mundo. Respondeu, numa comunicação que só os cães entendem, mas que, traduzido, poderia querer dizer, sim amigo, estou aqui. O outro respondeu, ainda bem, fico contente. Calaram-se. Os cães só falam o essencial. Ainda esperou um latido, um uivo, um ladrar mais manso, mas o outro, mudo, como só os cães sabem ser, ficou-se por ali. Ele ainda insistiu, até logo, mas o outro nada. Deixou cair o corpo e voltou para a sombra que entretanto mudara de sítio, embora ao cão isso não causasse incómodo. 
Por ali ficou, numa semi-dormência, porque os cães, com o calor, ficam sem forças. O gato, que era daqueles chatos, que gostava de espicaçar, porque depois saltava para os telhados e árvores, pavoneava-se em passo lento, mas o cão levantou a cabeça, olhou-o e voltou para o seu descanso.
Por volta do meio dia, já o sol queimava a bom queimar, o cão, com uma respiração sôfrega, porque isto de ser cão tem muito que se lhe diga, recebe um banho que sai de jato da boca de uma mangueira que ali se encontrava. Novo abanão de corpo, agora para sacudir a água que lhe forçava o andar, pelo peso, entenda-se. Bem mais fresco, revigorado, pergunta, contente, amigo, estás aí? Estou tão bem. Já comi, bebi, tomei banho, agora vou dormir a sesta. Até logo.
O outro voltou a não responder. Deitou-se e dormiu por muitas horas.
Todas as manhãs, assim que o dia, preguiçosamente, se levanta, num ritual fraterno de amor contido, o cão dá os bons dias ao amigo. Aquele, porém, não responde. Para o cão, o tempo parou no dia em que o amigo, em vez de se despedir para sempre, porque os cães também morrem, disse, ainda bem, fico contente. E, sem mais, fechou os olhos levando neles o seu amigo. Por isso, todos os dias, o cão cumprimenta o amigo, num gesto rotineiro de amor, como se ainda o ouvisse, ao longe, não na memória, mas nos ouvidos, com as orelhas levantadas, a língua de fora, as patas dianteiras na trave. E ouve-o, de facto. Ouve-o no tamanho do seu coração, que não tem tamanho para albergar todos os latidos que o amigo, várias vezes, lhe enviava como sinal de enternecimento por o saber ali. Só eles entendem o que conversavam. Nós limitamo-nos a traduzir o indizível, a colocar na boca dos cães palavras que porventura eles nunca disseram. Mas uma coisa é certa: às vezes penso, se o mundo fosse cão...

A B(b)arca do Mondego

Ao lugar chamavam-lhe Barca, talvez porque por ali se passeasse um bote no feminino. Do rio diz a História que é o maior. Também o diz a minha alma. E o meu coração. Por volta dos meus dezassete anos deixei aquele lugar e nele ficou a minha primeira vida. Outras haveria de ter, tantas vezes haveria de nascer que já me esqueci dos anos. Entretanto, muitos passaram, mas ainda ontem dali saí. 
O rio já não é o mesmo. Mudaram os olhos que o vêem, mudou o corpo que nele imerge, mudou, até, a memória que é já outra, amadurecida por essas tantas vidas em que me nasci. 
Mais abaixo, num outro lugar, exibe-se a aldeia, com o seu casario desalinhado, um campanário e a mercearia do "ti" João, que ainda hoje nos acena com um sorriso breve, sentado num banco de madeira do lado de fora da loja, à borda da estrada. Por momentos esqueço-me de todas as vidas que me pariram e reencontro-me, nos meus seis-dez anos, ao balcão, a comprar-lhe pastilhas e rebuçados. Olhar tímido, a medo, lá pedia em voz sussurrante, quase inaudível, enquanto contava os centavos para ver no que aquilo dava. Depois lá seguia rumo a casa, por um caminho pedestre, num percurso que hoje já não faço a não ser naquele imaginário infantil que um dia me ficou. Já não me conheço, digo-me, com o olhar triste, já não me conheço. Quem és tu, menina? Quem és? 
A casa está diferente, caiada a branco, com janelas verdes. Também ela mudou. Outras gentes por ali vivem e eu posso, ainda, ouvir a respiração da casa quando, em sombras apagadas, tudo dorme. E o galo, lá fora, a despertar, a anunciar o quase-dia. E os cães, outros vagabundos que não nós, a uivar por um afecto. Do resto é só o silêncio. E a calma. 
Hoje o lugar tem nome de rua, talvez um topónimo feito à pressa. Para mim nunca deixará de ser a Barca, Barca do Mondego. 
E do Mondego, triste também me vem a saudade. Das margens ainda vejo os salgueiros que faziam sombra nos entardeceres em que o sol ainda não se tinha posto. Ainda ouço o coaxar das rãs em gorjeios roucos. Ainda sinto os peixes a arpoarem-me os pés num bicado doce. E é tão longe esta memória! 
Por ali ainda me demoro, nas noites quentes de Verão, em que velhos conversavam à janela e nós, petizes, com as faces coradas do calor do dia, brincávamos até ser tarde na noite. Havia luzes nos pirilampos. E as luas eram maiores que as de hoje, mais inchadas, mais frescas, mais luas. 
Mas aquilo que melhor recordo, embora tema que as palavras me traiam numa descrição que só pode ser dita sem palavras, só pode ser dito lá, onde aconteceu, e em mim, nesse tal imaginário que fui, onde as figuras de estilo não têm lugar porque o Belo é inexpressível, eram as tardes do sol-pôr, num céu vermelho-laranja incandescente de paixão pela terra, o murmúrio cadenciado do rio, naquele borbulhar de águas então límpidas e os pássaros a adormecerem-se, ternamente, enroscados nas árvores de beira-rio. E eu ali, a existir. A desenhar memórias para o dia em que as palavras me viessem beijar as mãos. Tudo tão calmo e já passado. Tudo tão triste nesta lembrança que me corre entre os dedos. Que fica pendurada nos beirais dos telhados para, no Inverno, chorar todo o negro dos céus. 
As ovelhas ainda pastam o verde da paisagem. Estão tosquiadas e levantam a cabeça, a olhar-nos, quando corremos para esse rio da nossa infância, aos gritinhos de crianças para quem a vida não é outra coisa senão brincadeira de meninos. E é tão longe esta memória...
Nesta outra vida em que agora me sento vejo apenas palhaços a rir. Não sei, ao certo, porque choram, contudo. Por ora, a barca passeia-se apenas na minha memória, num mar de águas salgadas que são, tão-somente, as minhas lágrimas. Sinto-me/sento-me palhaço. 

sábado, 7 de julho de 2012

A partida

Era um frio terno, um frio de início de verão, que adormece à janela. O sol pintava o horizonte como que deixando cair fios de ouro sobre a cidade. A tarde ia crescendo para, daí a pouco, morrer na noite. 
Ela, cansada de mais um ciclo findo, olhava a janela baça, enquanto uma aranha se passeava numa teia por fazer. O mundo era bonito, principalmente para as aranhas. 
Arrumar a sala, reunir os livros, os papéis, lápis e canetas, era demasiado fácil. O difícil era arrumar a saudade, essa lenta memória que marca o tempo sem querer. 
Saiu. Bateu a porta atrás de si, rodou a chave e ouviu o silêncio por detrás da porta. Apenas o silêncio. E a aranha a tecer a casa, que era, também, um outro silêncio. 
A rua, já quase deserta, oscilava entre o desassossego pendente das poucas gentes que ainda ali permaneciam e a calma anunciada de uma noite morna. Aqui e além, alguns velhos teciam conversas de fim de dia, fumando cigarros que se deixavam apagar entre os dedos dormentes. No ar havia um forte cheiro a comida e ela apercebeu-se que tinha fome. Entrou no estabelecimento que ficava ali defronte. Pediu um café e uma nata, pelo menos dava para lhe afagar o estômago num abraço breve. O proprietário, um homem de meia idade, que dava pelo nome de Zeferino, sorriu-lhe, dizendo-lhe, então doutora, já está. Para o ano há mais. Talvez, respondeu com os olhos fixos na chávena do café que ela segurava com ambas as mãos e mexia de um para o outro lado a fim de lavar a espuma, talvez senhor Zeferino. Vou ter saudades até do seu café, veja bem, que é mau como tudo. Ria. O senhor Zeferino riu também, raio dos técnicos que nunca mais me vêm ver a máquina, dizia. Desde Setembro que dizia o mesmo. Ela continuava a rir, embora do lado de dentro, onde tudo acontece, um oceano de lágrimas invadisse toda aquela dor sentida a medo.
Pagou a bica e a nata. Saiu. Adeus senhor Zeferino, veja lá essa máquina. Hei-de ver, doutora, hei-de ver. E partiu, deixando para trás a sombra da saudade.
Vocês têm tanto para dar que, quando se dá por ela, o ano já acabou, dizia, com o olhar meio a rir e a outra metade, maior, a chorar. Era a despedida. Era a solidão naquele verão quente anunciado. E, olhando o mar, olhando o sol que nele mergulha incendiando as águas, ela mergulha, também, na memória. Ainda ouve os adolescentes a rir.