segunda-feira, 9 de julho de 2012

A B(b)arca do Mondego

Ao lugar chamavam-lhe Barca, talvez porque por ali se passeasse um bote no feminino. Do rio diz a História que é o maior. Também o diz a minha alma. E o meu coração. Por volta dos meus dezassete anos deixei aquele lugar e nele ficou a minha primeira vida. Outras haveria de ter, tantas vezes haveria de nascer que já me esqueci dos anos. Entretanto, muitos passaram, mas ainda ontem dali saí. 
O rio já não é o mesmo. Mudaram os olhos que o vêem, mudou o corpo que nele imerge, mudou, até, a memória que é já outra, amadurecida por essas tantas vidas em que me nasci. 
Mais abaixo, num outro lugar, exibe-se a aldeia, com o seu casario desalinhado, um campanário e a mercearia do "ti" João, que ainda hoje nos acena com um sorriso breve, sentado num banco de madeira do lado de fora da loja, à borda da estrada. Por momentos esqueço-me de todas as vidas que me pariram e reencontro-me, nos meus seis-dez anos, ao balcão, a comprar-lhe pastilhas e rebuçados. Olhar tímido, a medo, lá pedia em voz sussurrante, quase inaudível, enquanto contava os centavos para ver no que aquilo dava. Depois lá seguia rumo a casa, por um caminho pedestre, num percurso que hoje já não faço a não ser naquele imaginário infantil que um dia me ficou. Já não me conheço, digo-me, com o olhar triste, já não me conheço. Quem és tu, menina? Quem és? 
A casa está diferente, caiada a branco, com janelas verdes. Também ela mudou. Outras gentes por ali vivem e eu posso, ainda, ouvir a respiração da casa quando, em sombras apagadas, tudo dorme. E o galo, lá fora, a despertar, a anunciar o quase-dia. E os cães, outros vagabundos que não nós, a uivar por um afecto. Do resto é só o silêncio. E a calma. 
Hoje o lugar tem nome de rua, talvez um topónimo feito à pressa. Para mim nunca deixará de ser a Barca, Barca do Mondego. 
E do Mondego, triste também me vem a saudade. Das margens ainda vejo os salgueiros que faziam sombra nos entardeceres em que o sol ainda não se tinha posto. Ainda ouço o coaxar das rãs em gorjeios roucos. Ainda sinto os peixes a arpoarem-me os pés num bicado doce. E é tão longe esta memória! 
Por ali ainda me demoro, nas noites quentes de Verão, em que velhos conversavam à janela e nós, petizes, com as faces coradas do calor do dia, brincávamos até ser tarde na noite. Havia luzes nos pirilampos. E as luas eram maiores que as de hoje, mais inchadas, mais frescas, mais luas. 
Mas aquilo que melhor recordo, embora tema que as palavras me traiam numa descrição que só pode ser dita sem palavras, só pode ser dito lá, onde aconteceu, e em mim, nesse tal imaginário que fui, onde as figuras de estilo não têm lugar porque o Belo é inexpressível, eram as tardes do sol-pôr, num céu vermelho-laranja incandescente de paixão pela terra, o murmúrio cadenciado do rio, naquele borbulhar de águas então límpidas e os pássaros a adormecerem-se, ternamente, enroscados nas árvores de beira-rio. E eu ali, a existir. A desenhar memórias para o dia em que as palavras me viessem beijar as mãos. Tudo tão calmo e já passado. Tudo tão triste nesta lembrança que me corre entre os dedos. Que fica pendurada nos beirais dos telhados para, no Inverno, chorar todo o negro dos céus. 
As ovelhas ainda pastam o verde da paisagem. Estão tosquiadas e levantam a cabeça, a olhar-nos, quando corremos para esse rio da nossa infância, aos gritinhos de crianças para quem a vida não é outra coisa senão brincadeira de meninos. E é tão longe esta memória...
Nesta outra vida em que agora me sento vejo apenas palhaços a rir. Não sei, ao certo, porque choram, contudo. Por ora, a barca passeia-se apenas na minha memória, num mar de águas salgadas que são, tão-somente, as minhas lágrimas. Sinto-me/sento-me palhaço. 

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