sábado, 7 de julho de 2012

A partida

Era um frio terno, um frio de início de verão, que adormece à janela. O sol pintava o horizonte como que deixando cair fios de ouro sobre a cidade. A tarde ia crescendo para, daí a pouco, morrer na noite. 
Ela, cansada de mais um ciclo findo, olhava a janela baça, enquanto uma aranha se passeava numa teia por fazer. O mundo era bonito, principalmente para as aranhas. 
Arrumar a sala, reunir os livros, os papéis, lápis e canetas, era demasiado fácil. O difícil era arrumar a saudade, essa lenta memória que marca o tempo sem querer. 
Saiu. Bateu a porta atrás de si, rodou a chave e ouviu o silêncio por detrás da porta. Apenas o silêncio. E a aranha a tecer a casa, que era, também, um outro silêncio. 
A rua, já quase deserta, oscilava entre o desassossego pendente das poucas gentes que ainda ali permaneciam e a calma anunciada de uma noite morna. Aqui e além, alguns velhos teciam conversas de fim de dia, fumando cigarros que se deixavam apagar entre os dedos dormentes. No ar havia um forte cheiro a comida e ela apercebeu-se que tinha fome. Entrou no estabelecimento que ficava ali defronte. Pediu um café e uma nata, pelo menos dava para lhe afagar o estômago num abraço breve. O proprietário, um homem de meia idade, que dava pelo nome de Zeferino, sorriu-lhe, dizendo-lhe, então doutora, já está. Para o ano há mais. Talvez, respondeu com os olhos fixos na chávena do café que ela segurava com ambas as mãos e mexia de um para o outro lado a fim de lavar a espuma, talvez senhor Zeferino. Vou ter saudades até do seu café, veja bem, que é mau como tudo. Ria. O senhor Zeferino riu também, raio dos técnicos que nunca mais me vêm ver a máquina, dizia. Desde Setembro que dizia o mesmo. Ela continuava a rir, embora do lado de dentro, onde tudo acontece, um oceano de lágrimas invadisse toda aquela dor sentida a medo.
Pagou a bica e a nata. Saiu. Adeus senhor Zeferino, veja lá essa máquina. Hei-de ver, doutora, hei-de ver. E partiu, deixando para trás a sombra da saudade.
Vocês têm tanto para dar que, quando se dá por ela, o ano já acabou, dizia, com o olhar meio a rir e a outra metade, maior, a chorar. Era a despedida. Era a solidão naquele verão quente anunciado. E, olhando o mar, olhando o sol que nele mergulha incendiando as águas, ela mergulha, também, na memória. Ainda ouve os adolescentes a rir.

2 comentários:

  1. lindo, mas com umas palavras de saudade até chorei a sério não estou a gozar.Neste momento estou assim com saudade, beijinhos sara monica

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