domingo, 30 de setembro de 2012

Quebra-Costas

Subo as escadas do Quebra-Costas em direção à universidade. É manhã, mas o céu apresenta-se pouco claro devido à cama de nuvens negras nele feita. Há um ruído próprio das cidades, vozes dos transeuntes misturadas com o matraquear dos tacões na calçada.
À minha frente segue uma senhora muito velha, sem idade, toda curvada, com um saco em cada mão. De tempos a tempos pára para recuperar o fôlego. Depois, novo avanço. Passo por ela sem a olhar mas, um pouco acima, dou por mim às arrecuas. Precisa de ajuda, pergunto-lhe em tom débil, com a fraqueza nas palavras, não fosse a senhora, por se sentir injuriada, mandar-me com os sacos.
Ó minha filha, deus te abençoe, diz-me, numa voz cristalina, semelhante à de uma cantora lírica. Eu moro já ali. Mesmo assim, dê-me os sacos que eu levo-lhos. Percebo depois que o já ali devia ter sido dito entre aspas. Calcorreámos um bom pedaço de tempo, uns vinte minutos, para ser exata. Com isto, faltei à primeira aula. 
Muito obrigada, minha filha. Entra que eu faço-te um café. Relutantemente fui dizendo que não, que tinha de ir para as aulas, mas aquele olhar verde musgo fazia lembrar a minha avó. Entrei. A porta era de madeira, estreita. Tínhamos de descer três degraus até encontrar a casa, toda ampla, o que significa que todas as divisões partilhavam um espaço único. Não havia luz natural, a não ser quando a porta estava aberta. O espaço não era grande, pelo contrário, cabia por inteiro na minha sala de jantar, pensei.
Vive aqui há muito, perguntei, num impetuoso arrepio de alma. Oh minha filha, desde que o tempo é tempo. E aquele vocativo era o arpejar da saudade da minha avó.
E isso é desde quando, perguntei com alguma malícia no olhar. Há noventa e três, se a memória não me falha. Bem, retorqui a rir, a senhora deve ter tido uma vida cheia! Tive pois, filha, cheia de artroses, então na alma...
Conte-me histórias, pedi. Conheceu muitos estudantes? Como é viver outra Coimbra? É o mesmo, filha, mas mais nova. Do que eu gostava mesmo era dos estudantes à futrica. Nunca soube o que isso era, não sou entendida em letras, mas quando ouvia, olha, ali vai um estudante à futrica, os meus olhos riam como duas laranjas. Devia ser do nome, futrica. Que raio de nome para chamar aos estudantes. Nesta altura ri a bom rir. Depois, recomposta, não fosse a senhora pensar que zombava dela, expliquei-lhe o conceito de futrica. No fundo, tinha vontade de lhe ensinar muitas coisas.
E nunca teve pena de não ter estudado, perguntei através de um sorriso de menina. Oh filha, os tempos eram outros, não podia.
Comecei a enfeitiçar-me por aquela forma de tratamento, era como se houvesse ternura no olhar e por dentro das palavras.
A D. Alberta movimentava-se já com algum custo. Mas brilhava-lhe o olhar e sorria-lhe o rosto. Observando-a bem, pareciam existir traços de juventude. Um eyeliner desenhado em tons sepia, um gosto rubro nos lábios e uma sombra incandescente nas pálpebras. Assim era D. Alberta nos seus noventa e três-vinte anos. E era bonita. A pele lisa e fresca como uma cereja, duas pernas bailarinas, o cabelo louro-trigo a cair-lhe pelos ombros e no olhar a  candura daquela manhã de outono. 
Mas era bela sobretudo naquele coração quebrado pela rua. E pela vida. 
Mas vai todos os dias lá abaixo? Como consegue, inquiri, na curiosidade de um momento. Não, filha, dia sim, dia não. Ao sábado e domingo descanso. Tenho de obrigar estas pernas antes que me abandonem por completo. Não tem ninguém? Filhos, netos... Respondeu-me com o silêncio e com uma lágrima fúnebre. Percebi, então, o quanto custa ser só. Peguei-lhe na mão enrugada e ali fiquei, a olhar o encontro de duas gerações em duas mãos cheias de nada. Não bebi mais do seu sorriso. Penso, mesmo, ter-lhe matado a solidão com um encontro funesto. E creio ter-lhe aberto uma ferida que estava prestes a fechar-se sob um fundo falso de memória. Não me perdoo, D. Alberta, ter-lhe feito esquecer o sorriso, tê-lo feito desaparecer do seu rosto e do seu peito. Não me perdoo não pensar as palavras antes de as dizer. As palavras não passam de encontros em vãos de escada que à noite são varridas para a sarjeta. Não nos perdoo não nos termos encontrado mais cedo.
Por ali fiquei, manhã, tarde, noite. Tantas histórias até às tantas. De rir, de chorar, de pensar. Histórias, apenas, que passam nos lapsos da memória. Era já tarde por dentro do tempo quando me despedi.
A D. Alberta há de continuar a subir a rua com os sacos das compras. Há de parar, uma e outra vez, para respirar. É já ali, há de dizer, sem eufemismos, como se as suas pernas soubessem de cor o refrão de todas as horas. Há de continuar a haver futricas no Mondego, enquanto Coimbra for Coimbra e não apenas canção. Mas o que a D. Alberta não sabe é que aquela manhã de outono ainda me arranha a memória, me faz cócegas ao ouvido como se lhe escutasse ainda o murmúrio das palavras. E, sobretudo, ainda me quebra a alma. 
As escadas ainda lá estão. Quebra-Costas. Agora entendo porque a rua se chama assim. 

Para A.

A. tinha um ritual. Todas as manhãs, depois de acordar, ia beber a bica ao quiosque do senhor, também A., que ficava no jardim defronte à casa. A. tinha olhos verdes que lhe sabiam a sal, cabelos da cor da seara depois de dourada pelo sol e, no rosto, o cansaço de ser gente. De ser gente apenas pela metade. 
O senhor A. já sabia de cor as rotinas das manhãs de A.. Um café e um copo com água servidos com um sorriso. 
Às vezes A. escreve um poema à pressa, daqueles avulso, que depois compõe na melancolia dos dias tristes. Outras vezes chora a veleidade do mundo. Quase sempre ri num corpo que chora, ainda que ao mundo se mostre ao contrário. Tem pena dos outros. E de si própria, mas o ego é secundário. Aflige-se mais com as dores do mundo, aquelas que também choram por dentro de si. 
Até amanhã, senhor A., vou indo, despede-se. Volta para a solidão do seu regaço. Entra na casa cheia de nada. Eu, pensa. Eu e o maldito mundo. E embrenha-se nas palavras, num luto enjeitado de poema. 
No interior da casa, quando o silêncio se sobrepõe ao ruído do dia, põe a mesa num canto da sala. Novo ritual. E janta, assim, a braços com a solidão. E esta  é a palavra que mais lhe dói, por sabê-la ali, tão companheira, tão obsessivamente presente, como um eco que se alastra pela casa. Ainda não inventaram uma fonética diferente.
À noite, por dentro do silêncio das paredes, ouve um outro sussurrar. Talvez sejam as lágrimas que chora em si. Talvez seja o rir-se do quotidiano. E ali, deitada no sofá, uma multidão de dores.
Amanhã compõe-se um novo ritual. Será mais um dia entre muitos que já existiram. A. sorrirá de novo através de lágrimas de camaleão. Ninguém notará. 
Haja o que houver, todos os dias A. há de ir àquele lugar sentar-se a beber a bica, quando as horas, por dentro dos dias, morrem devagar. 
E eu sei quem A. é para mim.


sábado, 29 de setembro de 2012

Histórias pintadas


Este é um conto simples. Temo, até, não ser boa com as palavras.
O elétrico passou às seis em ponto, nem mais, nem menos. Àquela hora, na paragem, amontoava-se uma série de trabalhadores, operários fabris que tinham acabado de largar o turno do sono. Fazia frio. O sol, preguiçoso, ainda dormia enroscado numa nuvem pequenina e espreguiçava, de quando em vez, um ou outro braço. Era inverno e, como se sabe, o sol de inverno apenas fustiga a pele, indelevelmente, quase sem a tocar.
Manel, rapaz para os seus vinte e sete anos, sentou-se no lugar do costume, dois bancos atrás do condutor, junto ao vidro. Gostava daquele assento, permitia-lhe sonhar outras vidas. Por exemplo, ali, debaixo daquele castanheiro, desenha uma jovem, em contornos poéticos, compenetrada na leitura e alheia ao ronronar do elétrico. De vez em quando esboça um sorriso, como se conversasse com o livro. Pinta-lhe os cabelos em tons de romã e, por entre o brilho do olhar, umas sardas sorridentes. Esculpe-lhe, também, um sorriso bonito. E suspende-a ali, num óleo sobre tela colorido. Mais além, numa casinha térrea de madeira, inspira o cheiro a lenha que se esvai em fumo branco pela chaminé. Lá dentro, sentados lado a lado, um casal de velhos, roído pelos anos, toma o pequeno almoço antes de sair para a horta. E inventa-lhes uma cumplicidade que só ele sabe e conhece, uma cumplicidade cinematográfica, cujo desenlace é o amor num corpo a dois. Adiante, por entre a seara orvalhada e reluzente, traça, com lápis de carvão, duas ou três mulheres, no vigor da juventude, a entoar cânticos negros, enquanto as mãos em sangue colhem o trigo. Já perto da fábrica onde trabalha, numa boutique finesse, parece ver, por entre a penumbra do nevoeiro, algumas senhoras chiques a comprar tecidos da moda que se desdobram em gargalhadas.
A mulher de Manel era costureira, não de profissão, mas por necessidade. Guardava o sorriso dentro da caixa de costura pois os dias findavam sempre em tristeza.
Mas voltemos a Manel, operário a contragosto, encostado à ombreira do silêncio da fornalha. Voltemos ao encontro do seu olhar. Adiante, numa fonte quase seca, alguém espera paciente pelo encher da bilha. É uma rapariga franzina, de corpo esguio e olhar sonhador. Levanta-se todos os dias cedo para, antes de ir para a escola, pôr o gado a pastar, fazer o café para os irmãos mais novos e ir à fonte. Olha o elétrico, sobranceira ao vão da melancolia, sonhando com a vida por dentro dele. Um dia, pensa, um dia hei de andar de elétrico, com um chapéu nos cabelos e a carteira ao ombro, como nos filmes franceses. Sorri a Manel, como se para lá daquela linha não houvesse mais nada. Este acena-lhe, também, um sorriso. Há, contudo, desgosto nos olhares. 
O dia findou. É mais fácil assim, quando a imaginação poética ajuda a passar as horas, como se apressasse os ponteiros do relógio para mais tarde. O elétrico só chegava daí a uma hora, portanto, às dezoito. Manel esfrega as mãos e sopra-lhes um bafo quente. Vai até à beira-rio para queimar aquela hora. O sol já se pôs, é inverno e ele deita-se mais cedo. Ficou, assim, o frio, mais agudo do que o da manhã. Ao longe, bem distante das margens do rio, navega um barco, talvez pesqueiro, não dá para divisar, pois só se avistam as luzes. Por outro lado, é noite. 
De regresso a casa, numa montra da cidade, Manel detém o olhar num quadro particular. Era uma pintura simples, que não obedecia a grandes interpretações, mas que, para ele, tinha a beleza camuflada de uma musa. A tela exibia uma bailarina, em pose artística, num movimento de pontas em relevé gracioso. Mas o mais espantoso era o fato que ela usava, um vestido feito de algas, e as conchas a servir de cabelos. E os olhos não eram olhos, eram dois rouxinóis dourados. E o olhar de Manel ficou lá, a descansar por dentro das algas. 
A vida de Manel é feita de contrários. Ri quando quer chorar, parte quando quer ficar, sente quando quer iludir. Para trás, bem para trás, ficam os dias de outrora a rir. 
Amanhã o elétrico vai voltar a passar, às seis em ponto. Novas histórias vão nascer no olhar de Manel, diferentes das de todos os dias, pintadas com as cores de um arco-íris em tons pastel. A mulher vai dizer-lhe adeus na aduela da janela, por entre vasos de lírios mortos. Os filhos ainda dormirão o cedo da manhã, envoltos em cobertores de afetos e lençóis a cheirar a madressilva. Imperdoável, contudo, não terem motivos para sorrir, ainda que não o saibam. Quanto a hoje, hoje não foi senão uma metáfora do amanhã. 

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Cão com lágrimas


Oxalá tivesse uma história diferente para contar, daquelas que acontecem mesmo, mas só aí, nas histórias e por dentro delas.
Era um domingo de manhã, já o sol ia alto e as nuvens tinham adormecido num céu longínquo. Parei o carro junto a um café de beira de estrada, num sítio do interior do país. A paisagem circundante era de um verde que feria a vista. Um verde virgem, puro e imponente, diferente do verde fusco dos arredores das cidades. Havia um silêncio inquietante, apenas cortado pela natureza bruta: um esvoaçar de pássaros, a brisa quente de fim de verão a assobiar por entre as folhas das árvores, o sopro de um qualquer sardão que se escondia por entre as ervas, um ou outro zumbido de insetos que até eu, entendida em zoologia, desconhecia. Talvez na aldeia existissem vidas diferentes, ignotas vidas para quem dali não é.
Aspirei aquele dia. Inspirei-o mesmo, como se aquele ar quase intáctil me fosse renovar por dentro. Fechei os olhos e deixei-me ali ficar, encostada ao carro, quase num adormecimento dolente e breve. Era a calma daquele lugar a entranhar-se-me na pele e a transformar-me por inteiro. A sua memória ficou em mim, como uma película fotográfica que se imprime e coloca numa parede. De facto, fotografei diversas imagens que até hoje em mim continuam coladas ao negativo da memória.
Abri, pois, o olhar àquele sítio. Quis penetrar na sua história, nas suas gentes, quis conhecer um outro lado da vida, aquele que dói com um sorriso, soube-o daí a instantes.
O estabelecimento era um vulgar café de aldeia, porém, não tão vulgar como o que os meus olhos viram de seguida. E hoje, penso, já não sou a mesma. O café, dizia, era velho. Tinha uma porta estreita, na qual estavam penduradas umas fitas de plástico, daquelas que tendem a dissuadir os insetos de entrar. Havia também uma janela de madeira, já gasta, muito gasta, cujos vidros refletiam uma luz fina e limpa. Entrei, não a medo, mas com a curiosidade que me é característica. O espaço estava vazio. Olhei ao meu redor e não vi outra coisa senão ruína. A ruína de uma vida. Ou de muitas. Dei um passo, outro, e a cada um o chão gemia, como se a madeira, também velha, se queixasse com dores. Havia uma ou outra tábua solta. No entanto, o chão estava varrido. Bom, pensei, não é tão mau como parece.
Eu era a típica rapariga da cidade, habituada a frequentar espaços bonitos, imaculados, casas de chá, wine houses, restaurantes com música ambiente e conversas em tom baixo, teatro, cinema, e tudo o que demais acontece nas metrópoles. Deparar-me com aquele espaço era, no mínimo, um atentado ao meu pudor.
Duma salinha contígua ao café saiu um homem, velho, tão velho como todos os dias que já morreram. Nova deceção. Como poderei inteirar-me da história destas gentes com este senhor que deve perceber tanto da vida como eu de astrofísica? Redondo engano. Soube-o também mais tarde. Soube-o pelo rosto cansado daquele homem que sabia mais da vida do que eu alguma vez poderia saber. Porque aquilo que se aprende não é só o que vem nos livros de ciências, dizia-me.
O balcão estava gasto. Pedi um café que o senhor prontamente foi tirar. Apesar do peso da idade que as suas mãos carregavam, ainda era visível uma certa agilidade. Espreitei para dentro do balcão, qual menina que anda a descobrir o mundo, e vi mais um resto de solidão. Deitado, já velho e cansado como o velho, estava um cão.
Bebi o café. Bah! Intragável. Nunca tinha bebido um café tão insalubre. Por momentos pensei, não estou em Portugal, mas depois lá me fui apercebendo que sim, pela dicção fúnebre das palavras com que o senhor Bernardo, era esse o seu nome, ia quebrando o silêncio daquele fim de manhã domingueiro.
Devia ter ido à missa, dizia-me, mas há muito que rompi com deus. Assim olhe, venho para aqui entreter-me, à espera que alguém me chame ou que alguma rapariga jeitosa me pisque o olho. Sorria. Sorria com o olhar todo. Nesta altura apercebi-me do encanto que é ser velho. Até nos lisonjeios são dóceis, pensei.
A menina tem fome, perguntou-me. É quase meio-dia, vou para cima que a mulher deve ter o almoço pronto. Não quer comer connosco? Fiquei um pouco relutante. Afinal, ainda que simpático e educado, eu não conhecia o velho. Mas, ele mal consegue andar, não oferece perigo e, de facto, confesso que a fome já aperta. Venha, faça-nos companhia. Anda Bartolomeu. A esta frase levantou-se o cão, a coxear e com o pelo doente. Era cego de um olho e coçava-se frequentemente. Olhou-me, aproximou-se, cheirou-me as mãos e lá seguiu escada acima com o peso da idade e da doença. Passámos pela salinha que ficava lado a lado com o café. Nova ruína. Do teto velho, alto, a fazer lembrar uma casa senhorial, mas em tons de pobre, pendia uma trave que, por sua vez, era sustentada por uma coluna também em madeira. Havia pedaços de tinta que se descolavam da parede. As escadinhas que davam acesso ao andar superior foram uma nova aventura. Novo ranger, como se a cada degrau lhe doesse um dente. Cheguei a pensar que as escadas iam ruir sob o nosso peso, tão frágil era a sua vida. Quando, finalmente, galguei o último degrau respirei de alívio. O interior da habitação não era diferente do que já tinha visto. Pobre, decadente, ruinoso, mas asseado. Valeram-me estes ares de limpeza para não ter desistido daquela gente, pensei com egoísmo, centrada em mim, como se o mundo fosse só um lugar belo. Não era. Havia outros mundos dentro do mundo. Mundos que choram através de um sorriso.
A mulher do senhor Bernardo era velha também. Mas, à semelhança do marido, bailavam-lhe nos olhos dois sorrisos. Comemos. Conversámos. O cão dormia.
Fazia-se já tarde quando me despedi. Por ali ficou a minha memória, agarrada às paredes negras do café, a jusante das tábuas gastas e velhas, deitada numa cama de ferro com lençóis a cheirar a feno.
Mas nem tudo ali era velho, decrépito, podre. Não o olhar a rir daquele homem carcomido pelos anos já mortos. O cão veio também despedir-se. No olho que via pude observar-lhe uma lágrima. E ali ficou a ver-me partir enquanto eu, pelo espelho retrovisor chorava, também, aquele abandono.
Passados uns anos voltei lá. Tive saudades do olhar torto do senhor Bernardo. Até lhe comprei uma prenda, um telemóvel, para ele poder dividir comigo a solidão. Fiz-me à estrada. Só parei quando lá cheguei, ainda que tenha perdido outros cafés, outros sorrisos. Parei o carro e saí à pressa. Desta vez não quis sorver a natureza. Fica para depois, pensei. Fazia frio, senti-o pelo arrepiar da alma. Só posteriormente percebi porquê.
A porta estava fechada e as fitas não estavam lá. Talvez dançassem por dentro. Bati. Uma. Duas. Três vezes. Silêncio. E o frio. Foi então que comecei, de novo, a fotografar aquele espaço. A fechadura tinha uma teia na qual a aranha descansava. Os vidros da única janela estavam embaciados de sujidade e a cortina, por dentro, corrida. A morte, pensei, só pode ser a morte. Chamei o cão. Nada. Olhei para a casa outrora habitada e estava, também, morta. Havia uma peça de roupa preta meio caída numa corda. Sinal do luto. Abri o portão e subi a escada. Rodei a maçaneta da porta e esta abriu. Entrei para o aspecto desolador da casa. Estava vazia. Havia apenas, num dos parapeitos da janela, uma jarra com o resto de uma flor. Morta. Mas sorria. Deixei-me cair e chorei. Chorei todas as lágrimas que consegui. Depois, vencida pelo cansaço, tirei do bolso o telemóvel, escrevi o meu número na caixa e desci. Na janela suja do café desenhei um sorriso que, mais tarde, com a chuva, se desfaria em choro, em lágrimas caídas pela quelha do telhado. 
Aquele dia cinzento chegara ao fim. Na casa não ficou apenas a memória, mas também a rosa sangue que chorei por entre os espinhos. Entrei para o carro, fechei os olhos e não ouvi mais nada. Sabia de cor todas as palavras que me asfixiavam a voz, que não me deixavam sequer pensar. Via cada ruga do rosto do senhor Bernardo em contornos violáceos. Sentia a lágrima do Bartolomeu a bater-me na cara.
Ainda hoje espero o telefonema do senhor Bernardo, apesar de saber que o telefone não vai tocar.
Em mim fica a memória do dia em que, por entre escombros e ruínas, nasci. Fica a saudade do rosto a rir do senhor Bernardo e da lágrima do cão cego.  Fica, também, a certeza de que há sempre um outro ver para o que vi. 

domingo, 23 de setembro de 2012

O livro

O livro era bonito. Tinha uma capa macia, suave à passagem do toque. Era cara. Também aveludada. Debruada a linha de ouro. Pousei o livro no colo, abandonei a marca da leitura a meu lado. Toquei-lhe. A marca ficou lá, indelével, como traço fino no papel. Acariciei, uma vez mais, o frontispício, passei os dedos pelo título e a minha pele eriçou-se com as palavras.
Sentei o livro no regaço e afaguei-lhe os cabelos. Contra o meu peito de páginas desfeitas o apertei em solidão. Encostei-o ao ouvido e escutei-lhe o murmúrio do cantar.
Deitei-me, enfim, no veludo da sua encadernação e contei-lhe histórias de ir dormir. Descansei-me no embalo das palavras e no perfume fresco das folhas ainda virgens.
Adormeço.
E o livro por abrir.

sábado, 22 de setembro de 2012

Palhaço que dói





Sinto-me palhaço estranhamente em mim.
Dói-me o nariz e as botas são-me grandes.
Doem-me os pés.
Dói-me, sobretudo, o sorriso que não dou.
Do casaco tiro um corvo que num ápice é pomba branca.
Doem-me as botas.
Dói-me o laço no pescoço.
Dói-me o riso dos meninos.
Dói-me a vida a sussurrar por dentro das calças.
Dóis-me. Tu em mim.




quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Les jours tristes


6:55. O despertador toca. Nesse mesmo momento um casal de velhos acorda. Um gato adormece no vão de uma escada. Uma mulher levanta-se para fazer o pequeno almoço. Uma criança choraminga. O café abre as portas. O primeiro cliente entra. Um homem espera a chegada do metro. Um professor toma banho. Um médico troca de turno. Um padeiro faz mais uma fornada. 
O pão quente é servido ao primeiro cliente do café que acabou de trocar de turno no hospital, esquecendo-se de avisar a mulher que entretanto já se levantara para lhe preparar o pequeno almoço, enquanto ouve o choro do filho no quarto contíguo à cozinha que deixou escapar o gato para o vão da escada onde adormece. Nesse mesmo instante acontece tanta coisa. Amélie acorda.
7:05. Acontecem mais coisas, muitas, ao mesmo tempo e em diferentes lugares. Se calhar as mesmas coisas, exatamente as mesmas, os mesmos gestos, as mesmas palavras, mas em sítios opostos, a horas trocadas, mas naquele exato momento.  Amélie toma banho ao mesmo tempo que inúmeras pessoas fazem essa e outras coisas. É estranho que isto aconteça, pensa. No entanto, nada tem de estranho. É a vida. 
7:35. Amélie atravessa a cidade. Trabalha do outro lado, nos subúrbios. A manhã está calma e serena. Amélie capta-lhe a essência, uma pele morta sob um bocado de céu. O rio, ao fundo, passa despercebido ao olhar dos velhos transeuntes. É um rio velho, também, já não assobia, apenas existe num leito sem margens. Amélie olha a fluidez da água onde se refletem as árvores já sem folhas de um outono que começou. Debaixo da ponte pasma um barco, meio na penumbra da manhã, ainda por dentro de um nevoeiro baixo.
8:00. Amélie encontra, caída aos pés de um banco de jardim, uma caixa velha, fechada. Tenta abri-la mas não consegue. Agacha-se, pega uma pedra e começa a martelar a velha fechadura que em poucos instantes se parte. A medo, embora com alguma curiosidade, as mãos de Amélie tateiam aquele achado. Lentamente sobe a tampa. A caixa não contém senão memórias de alguém que foi criança. Um berlinde, um mini tabuleiro de xadrez com algumas peças, uma fotografia gasta de um homem elegante, um bilhete de cinema com o título "Les Jours Tristes", uma carta. De joelhos, a seu lado, está o homem da fotografia, mas criança, que lhe toca no ombro e diz-lhe, em tom dolente, quando somos pequenos o tempo não passa e, sem darmos por ela, como se no mesmo instante, não somos senão uma memória dentro de uma caixa enferrujada.



sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Conversa a duas vozes

Já passaram tantos anos e parece que ainda sinto o colo de minha mãe, dizia, enquanto lágrimas pequeninas lhe caíam no regaço. 
Mariana tinha uns olhos cor de mel, que se enchiam de saudade muitas vezes.
- Já te contei a história da minha mãe?, perguntava com insistência. E os olhos vertiam duas lágrimas tristes.
Às vezes sentava-se ao piano, as mãos pequeninas sobre as teclas, duas longas tranças louras a cair-lhe sobre o peito, e o olhar vagueava para lá de qualquer canção. O pai observava-a, não sem lhe dar um ralhete, estuda, Mariana, para a semana tens recital. E ela lá olhava todos aqueles dentes negros e brancos enquanto as suas mãos, em pose apropriada, começavam a deslizar nas teclas como dançarinas em improviso.
O pai, de cachimbo na boca e jornal sobre os joelhos, fingia não estar atento, mas os seus olhos rasgavam um sorriso de menino embevecido.
A mãe, da cozinha, num espreitar fugidio, deitava o olho à filha num piscar cúmplice de incentivo. E sentindo aquela força-mãe, as mãos de Mariana ganhavam um novo acorde e a canção soava melhor. Mas só ela sabia.
Entretanto os anos passaram, como acontece, inevitavelmente, com todos os relógios do mundo. Mariana cresceu, nem podia ser de outra maneira. Foi menina, foi mulher, foi velha. E é nesta dor que ela ainda se demora, quando espera, todas as manhãs, que a mãe a acorde para ir para a escola, que o pai lhe ralhe por não ter a lição de piano estudada. E não percebe porque é que os pais não a vêm chamar.
Chora. Chora um silêncio profundo, uma mágoa de palavras sem entendimento. Chora, sobretudo, o fim de uma vida que não chega. Mas também ri. Ri com a força da infância. Com o lume a desfazer-se em cinza do calor da adolescência. Ri, sobretudo, dela própria. 
Mariana olha-se ao espelho. Os olhos continuam cor de mel. Têm ainda o brilho das histórias, o riso das estrelas, a lividez da lua cheia. Falta-lhes, contudo, o sorriso das memórias e o timbre certo da canção. Se ao menos estivesses aqui, mãe!
Os cabelos brancos e baços caem-lhe em desalinho pela fronte. Os lábios caem-lhe também, sulcados pelas rugas do presente. As mãos tremem-lhe, não ao piano, mas à idade a que chegaram. No rosto há um traço de solidão e um rasgo de abandono. É a vida, pensa.
- É a puta da vida, Mariana. Agora veste-te que tens de ir para a escola, diz-lhe a mãe.
Mariana obedece. Veste o vestido. Calça as meias e os sapatos. Pega na mochila e desce. O piano está aberto. Mariana olha-o, aproxima-se, fecha-lhe a tampa e sai. O recital terminou. Há aplausos. E Mariana sorri, pisca o olho à mãe e adormece, com ternura, no seu colo de menina.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Verão

E num instante, numa metamorfose cálida, o verão chegara ao fim. As tascas fecharam, os chapéus de sol recolheram ao lugar comum da despensa, as barracas de gelados descansam agora para um novo acordar. 
Na praia ficam as marcas incógnitas de pés descalços que o mar há de apagar. Enterrados na areia ficam tesouros. Memórias. Talvez algumas lágrimas. Talvez a saudade.
Já não se sente o cheiro a grelhados mistos de terra e mar. Os risos de crianças são abafados por outras tempestades. As festas de rua, com rufares de tambores e vozes mortiças, também cessaram. 
As leituras de esplanada são substituídas por cafés tomados à pressa. Os calções passam a colarinhos brancos e fatos cinzentos. Os olhares descansam-se não na planície da tepidez, mas nos sucessivos minutos urgentes. As ruas passam a ser habitadas por cães vadios. No chão há copos vazios da ressaca e beatas apagadas. 
Há toda uma esterilidade, como se o mundo tivesse ficado virgem. O vento começa a mudar o seu rumo e sopra, violento, contra as rochas. As gaivotas já não vão beijar a praia só ao fim do dia, fazem-no a qualquer hora, em voos semicirculares sobre o mar. De vez em quando lá têm a sorte de trazer um peixe e saboreiam-no, descansadas, frente à praia-mar. 
O ébano da noite aparece mais cedo, como se o dia tivesse pressa em partir. As casas fecham as persianas. As árvores adormecem e nelas os pássaros enroscam as suas penas. 
O verão chegara ao fim. E o mais difícil é o silêncio ao fim do dia.