sábado, 29 de setembro de 2012

Histórias pintadas


Este é um conto simples. Temo, até, não ser boa com as palavras.
O elétrico passou às seis em ponto, nem mais, nem menos. Àquela hora, na paragem, amontoava-se uma série de trabalhadores, operários fabris que tinham acabado de largar o turno do sono. Fazia frio. O sol, preguiçoso, ainda dormia enroscado numa nuvem pequenina e espreguiçava, de quando em vez, um ou outro braço. Era inverno e, como se sabe, o sol de inverno apenas fustiga a pele, indelevelmente, quase sem a tocar.
Manel, rapaz para os seus vinte e sete anos, sentou-se no lugar do costume, dois bancos atrás do condutor, junto ao vidro. Gostava daquele assento, permitia-lhe sonhar outras vidas. Por exemplo, ali, debaixo daquele castanheiro, desenha uma jovem, em contornos poéticos, compenetrada na leitura e alheia ao ronronar do elétrico. De vez em quando esboça um sorriso, como se conversasse com o livro. Pinta-lhe os cabelos em tons de romã e, por entre o brilho do olhar, umas sardas sorridentes. Esculpe-lhe, também, um sorriso bonito. E suspende-a ali, num óleo sobre tela colorido. Mais além, numa casinha térrea de madeira, inspira o cheiro a lenha que se esvai em fumo branco pela chaminé. Lá dentro, sentados lado a lado, um casal de velhos, roído pelos anos, toma o pequeno almoço antes de sair para a horta. E inventa-lhes uma cumplicidade que só ele sabe e conhece, uma cumplicidade cinematográfica, cujo desenlace é o amor num corpo a dois. Adiante, por entre a seara orvalhada e reluzente, traça, com lápis de carvão, duas ou três mulheres, no vigor da juventude, a entoar cânticos negros, enquanto as mãos em sangue colhem o trigo. Já perto da fábrica onde trabalha, numa boutique finesse, parece ver, por entre a penumbra do nevoeiro, algumas senhoras chiques a comprar tecidos da moda que se desdobram em gargalhadas.
A mulher de Manel era costureira, não de profissão, mas por necessidade. Guardava o sorriso dentro da caixa de costura pois os dias findavam sempre em tristeza.
Mas voltemos a Manel, operário a contragosto, encostado à ombreira do silêncio da fornalha. Voltemos ao encontro do seu olhar. Adiante, numa fonte quase seca, alguém espera paciente pelo encher da bilha. É uma rapariga franzina, de corpo esguio e olhar sonhador. Levanta-se todos os dias cedo para, antes de ir para a escola, pôr o gado a pastar, fazer o café para os irmãos mais novos e ir à fonte. Olha o elétrico, sobranceira ao vão da melancolia, sonhando com a vida por dentro dele. Um dia, pensa, um dia hei de andar de elétrico, com um chapéu nos cabelos e a carteira ao ombro, como nos filmes franceses. Sorri a Manel, como se para lá daquela linha não houvesse mais nada. Este acena-lhe, também, um sorriso. Há, contudo, desgosto nos olhares. 
O dia findou. É mais fácil assim, quando a imaginação poética ajuda a passar as horas, como se apressasse os ponteiros do relógio para mais tarde. O elétrico só chegava daí a uma hora, portanto, às dezoito. Manel esfrega as mãos e sopra-lhes um bafo quente. Vai até à beira-rio para queimar aquela hora. O sol já se pôs, é inverno e ele deita-se mais cedo. Ficou, assim, o frio, mais agudo do que o da manhã. Ao longe, bem distante das margens do rio, navega um barco, talvez pesqueiro, não dá para divisar, pois só se avistam as luzes. Por outro lado, é noite. 
De regresso a casa, numa montra da cidade, Manel detém o olhar num quadro particular. Era uma pintura simples, que não obedecia a grandes interpretações, mas que, para ele, tinha a beleza camuflada de uma musa. A tela exibia uma bailarina, em pose artística, num movimento de pontas em relevé gracioso. Mas o mais espantoso era o fato que ela usava, um vestido feito de algas, e as conchas a servir de cabelos. E os olhos não eram olhos, eram dois rouxinóis dourados. E o olhar de Manel ficou lá, a descansar por dentro das algas. 
A vida de Manel é feita de contrários. Ri quando quer chorar, parte quando quer ficar, sente quando quer iludir. Para trás, bem para trás, ficam os dias de outrora a rir. 
Amanhã o elétrico vai voltar a passar, às seis em ponto. Novas histórias vão nascer no olhar de Manel, diferentes das de todos os dias, pintadas com as cores de um arco-íris em tons pastel. A mulher vai dizer-lhe adeus na aduela da janela, por entre vasos de lírios mortos. Os filhos ainda dormirão o cedo da manhã, envoltos em cobertores de afetos e lençóis a cheirar a madressilva. Imperdoável, contudo, não terem motivos para sorrir, ainda que não o saibam. Quanto a hoje, hoje não foi senão uma metáfora do amanhã. 

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