quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Cão com lágrimas


Oxalá tivesse uma história diferente para contar, daquelas que acontecem mesmo, mas só aí, nas histórias e por dentro delas.
Era um domingo de manhã, já o sol ia alto e as nuvens tinham adormecido num céu longínquo. Parei o carro junto a um café de beira de estrada, num sítio do interior do país. A paisagem circundante era de um verde que feria a vista. Um verde virgem, puro e imponente, diferente do verde fusco dos arredores das cidades. Havia um silêncio inquietante, apenas cortado pela natureza bruta: um esvoaçar de pássaros, a brisa quente de fim de verão a assobiar por entre as folhas das árvores, o sopro de um qualquer sardão que se escondia por entre as ervas, um ou outro zumbido de insetos que até eu, entendida em zoologia, desconhecia. Talvez na aldeia existissem vidas diferentes, ignotas vidas para quem dali não é.
Aspirei aquele dia. Inspirei-o mesmo, como se aquele ar quase intáctil me fosse renovar por dentro. Fechei os olhos e deixei-me ali ficar, encostada ao carro, quase num adormecimento dolente e breve. Era a calma daquele lugar a entranhar-se-me na pele e a transformar-me por inteiro. A sua memória ficou em mim, como uma película fotográfica que se imprime e coloca numa parede. De facto, fotografei diversas imagens que até hoje em mim continuam coladas ao negativo da memória.
Abri, pois, o olhar àquele sítio. Quis penetrar na sua história, nas suas gentes, quis conhecer um outro lado da vida, aquele que dói com um sorriso, soube-o daí a instantes.
O estabelecimento era um vulgar café de aldeia, porém, não tão vulgar como o que os meus olhos viram de seguida. E hoje, penso, já não sou a mesma. O café, dizia, era velho. Tinha uma porta estreita, na qual estavam penduradas umas fitas de plástico, daquelas que tendem a dissuadir os insetos de entrar. Havia também uma janela de madeira, já gasta, muito gasta, cujos vidros refletiam uma luz fina e limpa. Entrei, não a medo, mas com a curiosidade que me é característica. O espaço estava vazio. Olhei ao meu redor e não vi outra coisa senão ruína. A ruína de uma vida. Ou de muitas. Dei um passo, outro, e a cada um o chão gemia, como se a madeira, também velha, se queixasse com dores. Havia uma ou outra tábua solta. No entanto, o chão estava varrido. Bom, pensei, não é tão mau como parece.
Eu era a típica rapariga da cidade, habituada a frequentar espaços bonitos, imaculados, casas de chá, wine houses, restaurantes com música ambiente e conversas em tom baixo, teatro, cinema, e tudo o que demais acontece nas metrópoles. Deparar-me com aquele espaço era, no mínimo, um atentado ao meu pudor.
Duma salinha contígua ao café saiu um homem, velho, tão velho como todos os dias que já morreram. Nova deceção. Como poderei inteirar-me da história destas gentes com este senhor que deve perceber tanto da vida como eu de astrofísica? Redondo engano. Soube-o também mais tarde. Soube-o pelo rosto cansado daquele homem que sabia mais da vida do que eu alguma vez poderia saber. Porque aquilo que se aprende não é só o que vem nos livros de ciências, dizia-me.
O balcão estava gasto. Pedi um café que o senhor prontamente foi tirar. Apesar do peso da idade que as suas mãos carregavam, ainda era visível uma certa agilidade. Espreitei para dentro do balcão, qual menina que anda a descobrir o mundo, e vi mais um resto de solidão. Deitado, já velho e cansado como o velho, estava um cão.
Bebi o café. Bah! Intragável. Nunca tinha bebido um café tão insalubre. Por momentos pensei, não estou em Portugal, mas depois lá me fui apercebendo que sim, pela dicção fúnebre das palavras com que o senhor Bernardo, era esse o seu nome, ia quebrando o silêncio daquele fim de manhã domingueiro.
Devia ter ido à missa, dizia-me, mas há muito que rompi com deus. Assim olhe, venho para aqui entreter-me, à espera que alguém me chame ou que alguma rapariga jeitosa me pisque o olho. Sorria. Sorria com o olhar todo. Nesta altura apercebi-me do encanto que é ser velho. Até nos lisonjeios são dóceis, pensei.
A menina tem fome, perguntou-me. É quase meio-dia, vou para cima que a mulher deve ter o almoço pronto. Não quer comer connosco? Fiquei um pouco relutante. Afinal, ainda que simpático e educado, eu não conhecia o velho. Mas, ele mal consegue andar, não oferece perigo e, de facto, confesso que a fome já aperta. Venha, faça-nos companhia. Anda Bartolomeu. A esta frase levantou-se o cão, a coxear e com o pelo doente. Era cego de um olho e coçava-se frequentemente. Olhou-me, aproximou-se, cheirou-me as mãos e lá seguiu escada acima com o peso da idade e da doença. Passámos pela salinha que ficava lado a lado com o café. Nova ruína. Do teto velho, alto, a fazer lembrar uma casa senhorial, mas em tons de pobre, pendia uma trave que, por sua vez, era sustentada por uma coluna também em madeira. Havia pedaços de tinta que se descolavam da parede. As escadinhas que davam acesso ao andar superior foram uma nova aventura. Novo ranger, como se a cada degrau lhe doesse um dente. Cheguei a pensar que as escadas iam ruir sob o nosso peso, tão frágil era a sua vida. Quando, finalmente, galguei o último degrau respirei de alívio. O interior da habitação não era diferente do que já tinha visto. Pobre, decadente, ruinoso, mas asseado. Valeram-me estes ares de limpeza para não ter desistido daquela gente, pensei com egoísmo, centrada em mim, como se o mundo fosse só um lugar belo. Não era. Havia outros mundos dentro do mundo. Mundos que choram através de um sorriso.
A mulher do senhor Bernardo era velha também. Mas, à semelhança do marido, bailavam-lhe nos olhos dois sorrisos. Comemos. Conversámos. O cão dormia.
Fazia-se já tarde quando me despedi. Por ali ficou a minha memória, agarrada às paredes negras do café, a jusante das tábuas gastas e velhas, deitada numa cama de ferro com lençóis a cheirar a feno.
Mas nem tudo ali era velho, decrépito, podre. Não o olhar a rir daquele homem carcomido pelos anos já mortos. O cão veio também despedir-se. No olho que via pude observar-lhe uma lágrima. E ali ficou a ver-me partir enquanto eu, pelo espelho retrovisor chorava, também, aquele abandono.
Passados uns anos voltei lá. Tive saudades do olhar torto do senhor Bernardo. Até lhe comprei uma prenda, um telemóvel, para ele poder dividir comigo a solidão. Fiz-me à estrada. Só parei quando lá cheguei, ainda que tenha perdido outros cafés, outros sorrisos. Parei o carro e saí à pressa. Desta vez não quis sorver a natureza. Fica para depois, pensei. Fazia frio, senti-o pelo arrepiar da alma. Só posteriormente percebi porquê.
A porta estava fechada e as fitas não estavam lá. Talvez dançassem por dentro. Bati. Uma. Duas. Três vezes. Silêncio. E o frio. Foi então que comecei, de novo, a fotografar aquele espaço. A fechadura tinha uma teia na qual a aranha descansava. Os vidros da única janela estavam embaciados de sujidade e a cortina, por dentro, corrida. A morte, pensei, só pode ser a morte. Chamei o cão. Nada. Olhei para a casa outrora habitada e estava, também, morta. Havia uma peça de roupa preta meio caída numa corda. Sinal do luto. Abri o portão e subi a escada. Rodei a maçaneta da porta e esta abriu. Entrei para o aspecto desolador da casa. Estava vazia. Havia apenas, num dos parapeitos da janela, uma jarra com o resto de uma flor. Morta. Mas sorria. Deixei-me cair e chorei. Chorei todas as lágrimas que consegui. Depois, vencida pelo cansaço, tirei do bolso o telemóvel, escrevi o meu número na caixa e desci. Na janela suja do café desenhei um sorriso que, mais tarde, com a chuva, se desfaria em choro, em lágrimas caídas pela quelha do telhado. 
Aquele dia cinzento chegara ao fim. Na casa não ficou apenas a memória, mas também a rosa sangue que chorei por entre os espinhos. Entrei para o carro, fechei os olhos e não ouvi mais nada. Sabia de cor todas as palavras que me asfixiavam a voz, que não me deixavam sequer pensar. Via cada ruga do rosto do senhor Bernardo em contornos violáceos. Sentia a lágrima do Bartolomeu a bater-me na cara.
Ainda hoje espero o telefonema do senhor Bernardo, apesar de saber que o telefone não vai tocar.
Em mim fica a memória do dia em que, por entre escombros e ruínas, nasci. Fica a saudade do rosto a rir do senhor Bernardo e da lágrima do cão cego.  Fica, também, a certeza de que há sempre um outro ver para o que vi. 

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