sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Conversa a duas vozes

Já passaram tantos anos e parece que ainda sinto o colo de minha mãe, dizia, enquanto lágrimas pequeninas lhe caíam no regaço. 
Mariana tinha uns olhos cor de mel, que se enchiam de saudade muitas vezes.
- Já te contei a história da minha mãe?, perguntava com insistência. E os olhos vertiam duas lágrimas tristes.
Às vezes sentava-se ao piano, as mãos pequeninas sobre as teclas, duas longas tranças louras a cair-lhe sobre o peito, e o olhar vagueava para lá de qualquer canção. O pai observava-a, não sem lhe dar um ralhete, estuda, Mariana, para a semana tens recital. E ela lá olhava todos aqueles dentes negros e brancos enquanto as suas mãos, em pose apropriada, começavam a deslizar nas teclas como dançarinas em improviso.
O pai, de cachimbo na boca e jornal sobre os joelhos, fingia não estar atento, mas os seus olhos rasgavam um sorriso de menino embevecido.
A mãe, da cozinha, num espreitar fugidio, deitava o olho à filha num piscar cúmplice de incentivo. E sentindo aquela força-mãe, as mãos de Mariana ganhavam um novo acorde e a canção soava melhor. Mas só ela sabia.
Entretanto os anos passaram, como acontece, inevitavelmente, com todos os relógios do mundo. Mariana cresceu, nem podia ser de outra maneira. Foi menina, foi mulher, foi velha. E é nesta dor que ela ainda se demora, quando espera, todas as manhãs, que a mãe a acorde para ir para a escola, que o pai lhe ralhe por não ter a lição de piano estudada. E não percebe porque é que os pais não a vêm chamar.
Chora. Chora um silêncio profundo, uma mágoa de palavras sem entendimento. Chora, sobretudo, o fim de uma vida que não chega. Mas também ri. Ri com a força da infância. Com o lume a desfazer-se em cinza do calor da adolescência. Ri, sobretudo, dela própria. 
Mariana olha-se ao espelho. Os olhos continuam cor de mel. Têm ainda o brilho das histórias, o riso das estrelas, a lividez da lua cheia. Falta-lhes, contudo, o sorriso das memórias e o timbre certo da canção. Se ao menos estivesses aqui, mãe!
Os cabelos brancos e baços caem-lhe em desalinho pela fronte. Os lábios caem-lhe também, sulcados pelas rugas do presente. As mãos tremem-lhe, não ao piano, mas à idade a que chegaram. No rosto há um traço de solidão e um rasgo de abandono. É a vida, pensa.
- É a puta da vida, Mariana. Agora veste-te que tens de ir para a escola, diz-lhe a mãe.
Mariana obedece. Veste o vestido. Calça as meias e os sapatos. Pega na mochila e desce. O piano está aberto. Mariana olha-o, aproxima-se, fecha-lhe a tampa e sai. O recital terminou. Há aplausos. E Mariana sorri, pisca o olho à mãe e adormece, com ternura, no seu colo de menina.

4 comentários:

  1. Extremamente bem escrito... tão doce e ao mesmo tempo realista que me senti ao lado do piano como se ninguém me visse e eu estivesse lá a observar toda a cena descrita... transportei-me por mais de um minuto... e senti o fumo cachimbo na sala. Foi magnifico ler este pedacinho de texto teu...obrigado, obrigado mesmo. Fantástica descrição...e construção...vou continuar a ler mais! :p

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  2. Manita, acabo por me repetir uma e outra vez... Maravilhoso, este texto! Consegues transportar-nos sempre para outras casas, para outras vidas, para outras vivências!... Mais uma vez, amei!

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