quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Les jours tristes


6:55. O despertador toca. Nesse mesmo momento um casal de velhos acorda. Um gato adormece no vão de uma escada. Uma mulher levanta-se para fazer o pequeno almoço. Uma criança choraminga. O café abre as portas. O primeiro cliente entra. Um homem espera a chegada do metro. Um professor toma banho. Um médico troca de turno. Um padeiro faz mais uma fornada. 
O pão quente é servido ao primeiro cliente do café que acabou de trocar de turno no hospital, esquecendo-se de avisar a mulher que entretanto já se levantara para lhe preparar o pequeno almoço, enquanto ouve o choro do filho no quarto contíguo à cozinha que deixou escapar o gato para o vão da escada onde adormece. Nesse mesmo instante acontece tanta coisa. Amélie acorda.
7:05. Acontecem mais coisas, muitas, ao mesmo tempo e em diferentes lugares. Se calhar as mesmas coisas, exatamente as mesmas, os mesmos gestos, as mesmas palavras, mas em sítios opostos, a horas trocadas, mas naquele exato momento.  Amélie toma banho ao mesmo tempo que inúmeras pessoas fazem essa e outras coisas. É estranho que isto aconteça, pensa. No entanto, nada tem de estranho. É a vida. 
7:35. Amélie atravessa a cidade. Trabalha do outro lado, nos subúrbios. A manhã está calma e serena. Amélie capta-lhe a essência, uma pele morta sob um bocado de céu. O rio, ao fundo, passa despercebido ao olhar dos velhos transeuntes. É um rio velho, também, já não assobia, apenas existe num leito sem margens. Amélie olha a fluidez da água onde se refletem as árvores já sem folhas de um outono que começou. Debaixo da ponte pasma um barco, meio na penumbra da manhã, ainda por dentro de um nevoeiro baixo.
8:00. Amélie encontra, caída aos pés de um banco de jardim, uma caixa velha, fechada. Tenta abri-la mas não consegue. Agacha-se, pega uma pedra e começa a martelar a velha fechadura que em poucos instantes se parte. A medo, embora com alguma curiosidade, as mãos de Amélie tateiam aquele achado. Lentamente sobe a tampa. A caixa não contém senão memórias de alguém que foi criança. Um berlinde, um mini tabuleiro de xadrez com algumas peças, uma fotografia gasta de um homem elegante, um bilhete de cinema com o título "Les Jours Tristes", uma carta. De joelhos, a seu lado, está o homem da fotografia, mas criança, que lhe toca no ombro e diz-lhe, em tom dolente, quando somos pequenos o tempo não passa e, sem darmos por ela, como se no mesmo instante, não somos senão uma memória dentro de uma caixa enferrujada.



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