domingo, 30 de setembro de 2012

Para A.

A. tinha um ritual. Todas as manhãs, depois de acordar, ia beber a bica ao quiosque do senhor, também A., que ficava no jardim defronte à casa. A. tinha olhos verdes que lhe sabiam a sal, cabelos da cor da seara depois de dourada pelo sol e, no rosto, o cansaço de ser gente. De ser gente apenas pela metade. 
O senhor A. já sabia de cor as rotinas das manhãs de A.. Um café e um copo com água servidos com um sorriso. 
Às vezes A. escreve um poema à pressa, daqueles avulso, que depois compõe na melancolia dos dias tristes. Outras vezes chora a veleidade do mundo. Quase sempre ri num corpo que chora, ainda que ao mundo se mostre ao contrário. Tem pena dos outros. E de si própria, mas o ego é secundário. Aflige-se mais com as dores do mundo, aquelas que também choram por dentro de si. 
Até amanhã, senhor A., vou indo, despede-se. Volta para a solidão do seu regaço. Entra na casa cheia de nada. Eu, pensa. Eu e o maldito mundo. E embrenha-se nas palavras, num luto enjeitado de poema. 
No interior da casa, quando o silêncio se sobrepõe ao ruído do dia, põe a mesa num canto da sala. Novo ritual. E janta, assim, a braços com a solidão. E esta  é a palavra que mais lhe dói, por sabê-la ali, tão companheira, tão obsessivamente presente, como um eco que se alastra pela casa. Ainda não inventaram uma fonética diferente.
À noite, por dentro do silêncio das paredes, ouve um outro sussurrar. Talvez sejam as lágrimas que chora em si. Talvez seja o rir-se do quotidiano. E ali, deitada no sofá, uma multidão de dores.
Amanhã compõe-se um novo ritual. Será mais um dia entre muitos que já existiram. A. sorrirá de novo através de lágrimas de camaleão. Ninguém notará. 
Haja o que houver, todos os dias A. há de ir àquele lugar sentar-se a beber a bica, quando as horas, por dentro dos dias, morrem devagar. 
E eu sei quem A. é para mim.


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