domingo, 30 de setembro de 2012

Quebra-Costas

Subo as escadas do Quebra-Costas em direção à universidade. É manhã, mas o céu apresenta-se pouco claro devido à cama de nuvens negras nele feita. Há um ruído próprio das cidades, vozes dos transeuntes misturadas com o matraquear dos tacões na calçada.
À minha frente segue uma senhora muito velha, sem idade, toda curvada, com um saco em cada mão. De tempos a tempos pára para recuperar o fôlego. Depois, novo avanço. Passo por ela sem a olhar mas, um pouco acima, dou por mim às arrecuas. Precisa de ajuda, pergunto-lhe em tom débil, com a fraqueza nas palavras, não fosse a senhora, por se sentir injuriada, mandar-me com os sacos.
Ó minha filha, deus te abençoe, diz-me, numa voz cristalina, semelhante à de uma cantora lírica. Eu moro já ali. Mesmo assim, dê-me os sacos que eu levo-lhos. Percebo depois que o já ali devia ter sido dito entre aspas. Calcorreámos um bom pedaço de tempo, uns vinte minutos, para ser exata. Com isto, faltei à primeira aula. 
Muito obrigada, minha filha. Entra que eu faço-te um café. Relutantemente fui dizendo que não, que tinha de ir para as aulas, mas aquele olhar verde musgo fazia lembrar a minha avó. Entrei. A porta era de madeira, estreita. Tínhamos de descer três degraus até encontrar a casa, toda ampla, o que significa que todas as divisões partilhavam um espaço único. Não havia luz natural, a não ser quando a porta estava aberta. O espaço não era grande, pelo contrário, cabia por inteiro na minha sala de jantar, pensei.
Vive aqui há muito, perguntei, num impetuoso arrepio de alma. Oh minha filha, desde que o tempo é tempo. E aquele vocativo era o arpejar da saudade da minha avó.
E isso é desde quando, perguntei com alguma malícia no olhar. Há noventa e três, se a memória não me falha. Bem, retorqui a rir, a senhora deve ter tido uma vida cheia! Tive pois, filha, cheia de artroses, então na alma...
Conte-me histórias, pedi. Conheceu muitos estudantes? Como é viver outra Coimbra? É o mesmo, filha, mas mais nova. Do que eu gostava mesmo era dos estudantes à futrica. Nunca soube o que isso era, não sou entendida em letras, mas quando ouvia, olha, ali vai um estudante à futrica, os meus olhos riam como duas laranjas. Devia ser do nome, futrica. Que raio de nome para chamar aos estudantes. Nesta altura ri a bom rir. Depois, recomposta, não fosse a senhora pensar que zombava dela, expliquei-lhe o conceito de futrica. No fundo, tinha vontade de lhe ensinar muitas coisas.
E nunca teve pena de não ter estudado, perguntei através de um sorriso de menina. Oh filha, os tempos eram outros, não podia.
Comecei a enfeitiçar-me por aquela forma de tratamento, era como se houvesse ternura no olhar e por dentro das palavras.
A D. Alberta movimentava-se já com algum custo. Mas brilhava-lhe o olhar e sorria-lhe o rosto. Observando-a bem, pareciam existir traços de juventude. Um eyeliner desenhado em tons sepia, um gosto rubro nos lábios e uma sombra incandescente nas pálpebras. Assim era D. Alberta nos seus noventa e três-vinte anos. E era bonita. A pele lisa e fresca como uma cereja, duas pernas bailarinas, o cabelo louro-trigo a cair-lhe pelos ombros e no olhar a  candura daquela manhã de outono. 
Mas era bela sobretudo naquele coração quebrado pela rua. E pela vida. 
Mas vai todos os dias lá abaixo? Como consegue, inquiri, na curiosidade de um momento. Não, filha, dia sim, dia não. Ao sábado e domingo descanso. Tenho de obrigar estas pernas antes que me abandonem por completo. Não tem ninguém? Filhos, netos... Respondeu-me com o silêncio e com uma lágrima fúnebre. Percebi, então, o quanto custa ser só. Peguei-lhe na mão enrugada e ali fiquei, a olhar o encontro de duas gerações em duas mãos cheias de nada. Não bebi mais do seu sorriso. Penso, mesmo, ter-lhe matado a solidão com um encontro funesto. E creio ter-lhe aberto uma ferida que estava prestes a fechar-se sob um fundo falso de memória. Não me perdoo, D. Alberta, ter-lhe feito esquecer o sorriso, tê-lo feito desaparecer do seu rosto e do seu peito. Não me perdoo não pensar as palavras antes de as dizer. As palavras não passam de encontros em vãos de escada que à noite são varridas para a sarjeta. Não nos perdoo não nos termos encontrado mais cedo.
Por ali fiquei, manhã, tarde, noite. Tantas histórias até às tantas. De rir, de chorar, de pensar. Histórias, apenas, que passam nos lapsos da memória. Era já tarde por dentro do tempo quando me despedi.
A D. Alberta há de continuar a subir a rua com os sacos das compras. Há de parar, uma e outra vez, para respirar. É já ali, há de dizer, sem eufemismos, como se as suas pernas soubessem de cor o refrão de todas as horas. Há de continuar a haver futricas no Mondego, enquanto Coimbra for Coimbra e não apenas canção. Mas o que a D. Alberta não sabe é que aquela manhã de outono ainda me arranha a memória, me faz cócegas ao ouvido como se lhe escutasse ainda o murmúrio das palavras. E, sobretudo, ainda me quebra a alma. 
As escadas ainda lá estão. Quebra-Costas. Agora entendo porque a rua se chama assim. 

2 comentários:

  1. Maravilhoso amiga, amei as descrições tão reais que me permitiram imaginar a D. Alberta, velhinha e muito doce. E imaginei uma estudante bondosa chamada Aida, sempre pronta a ajudar. Parabéns, delicioso. Beijinhos.

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    1. Obrigada, amiga. Há textos que escrevo dos quais gosto mais. Este é um deles. :)

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