terça-feira, 4 de setembro de 2012

Verão

E num instante, numa metamorfose cálida, o verão chegara ao fim. As tascas fecharam, os chapéus de sol recolheram ao lugar comum da despensa, as barracas de gelados descansam agora para um novo acordar. 
Na praia ficam as marcas incógnitas de pés descalços que o mar há de apagar. Enterrados na areia ficam tesouros. Memórias. Talvez algumas lágrimas. Talvez a saudade.
Já não se sente o cheiro a grelhados mistos de terra e mar. Os risos de crianças são abafados por outras tempestades. As festas de rua, com rufares de tambores e vozes mortiças, também cessaram. 
As leituras de esplanada são substituídas por cafés tomados à pressa. Os calções passam a colarinhos brancos e fatos cinzentos. Os olhares descansam-se não na planície da tepidez, mas nos sucessivos minutos urgentes. As ruas passam a ser habitadas por cães vadios. No chão há copos vazios da ressaca e beatas apagadas. 
Há toda uma esterilidade, como se o mundo tivesse ficado virgem. O vento começa a mudar o seu rumo e sopra, violento, contra as rochas. As gaivotas já não vão beijar a praia só ao fim do dia, fazem-no a qualquer hora, em voos semicirculares sobre o mar. De vez em quando lá têm a sorte de trazer um peixe e saboreiam-no, descansadas, frente à praia-mar. 
O ébano da noite aparece mais cedo, como se o dia tivesse pressa em partir. As casas fecham as persianas. As árvores adormecem e nelas os pássaros enroscam as suas penas. 
O verão chegara ao fim. E o mais difícil é o silêncio ao fim do dia.


Sem comentários:

Enviar um comentário