quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Matrioska

Revejo-me num outro que dói ao ser-se gente. Olho-me ao espelho do avesso e vejo rugas a crescer-me nos olhos. Há dentro de mim matrioskas a nascer. Saem-me pelos dedos e escondem-se nas asas de borboletas que, tricotando danças ondulantes, desaparecem no verde ondeante das colinas. 
Faz frio. É outono-inverno seco. O lume apagado da saudade lembra um outro tempo. Jane encosta-se à janela e empresta os olhos à rua. O céu está carregado de negro. Um vento forte, ruidoso e rodopiante começa a fustigar a costa. As ondas agigantam-se num murmurejar estonteante, varrendo as frias rochas e lançando os pobres crustáceos mar adentro, tal a força do seu batente. No jardim os lírios dormem. A fúria intempestiva das águas paira no mar. Não se fará tarde sem que antes aqui chegue. Mas, por enquanto, os lírios dormem. 
Jane deixa-se embalar pela tarde quase escura. Recosta-se na cadeira de baloiço e olha a praia em reboliço. Lá longe o negro é mais denso. Uma pequena luz difusa desenha traços de temporal. 
Lá longe, nas colinas, as borboletas já não são apenas borboletas. São eu, eu, eu outra vez, são bonecas que me saem do corpo e se sentam, redondas e pesadas, lado a lado, adensando-se até se desaparecerem. E eu aninho-me no colo delas matrioskando-me na sua solidão.
O vento rompe agora o silêncio do jardim e bate, com força, de encontro à janela. Os lírios despertam e sacodem-se violentamente num emaranhado de dor. Começa a relampaguear e a luz cobre de prata o verde-escuro do relvado. Uma palmeira treme, gesticula, atirando-se pelas escadas abaixo num suicídio impetuoso. A janela começa a chorar gotas de chuva que precipitadamente começam a cair, como se o céu se abrisse num dilúvio furioso. 
A casa desfez-se, contudo, em silêncio. Parecia ter migrado de lugar. 
As asas partiram-se e delas nasceram braços. Meninas vão saindo umas das outras, como se se despissem de si mesmas. Despem-se porque crescem. Já não cabem no seu próprio corpo. Olham para trás, sorriem, e desaparecem na penumbra da noite, misturando-se com o verde-água da colina. Depois desfazem-se em espuma, em mar e ondeiam pela praia deserta, beberricando o doce-fel do entardecer.
Não havia maneira de a chuva parar. O vento continuava a gritar, arrancando algumas plantas por onde passava. O jardim, alagado, não sabia o que fazer a tanta água. Os lírios quase asfixiavam nas torrentes. Entretanto, de tudo se fez negro. Dentro da casa, na praia, na vila. Jane tateia às escuras e chega ao candeeiro a petróleo que, nesta altura, está sempre a postos. A chama a clarear ilumina-lhe o rosto cansado. A luz cresce, devagarinho, esbatendo-se nas paredes da sala num tremeluzir fraco. 
Já era muito tarde por dentro da noite quando o temporal cessou. Ouvia-se, lá fora, o escorrer da água, num murmúrio cadente. Havia algumas luzes a brilhar ao longe. A praia parecia ter-se adormecido sob um luar pálido. As ondas descansavam-se em maré vaza e Jane podia, enfim, dormir. Os lírios dormiam, tímidos e encharcados. Alguns ainda estremeciam. 
Volto para dentro de mim. Sou de novo matrioska.

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