terça-feira, 13 de novembro de 2012

Rosto da Infância

Desce as escadas com a sonolência a bater-lhe nos olhos. Ainda a noite dorme quando se levanta, como se o tempo parasse nas horas escuras. Penteia o cabelo, dá uma última demão à maquilhagem, ajeita o vestido. Bebe à pressa um café feito expresso e sai.
Por entre as folhas das árvores há um fino traço de luz pingando em suaves gotas de inverno. Aperta o casaco sob o frio aguado. Sorri ao padeiro que distribui a massa ainda quente, estaladiça e a cheirar a forno. Sobe-lhe à memória as trocas-voltas da infância e o riso mudo das arrelias matinais, quando, por entre os dedos, formava uma bola com o miolo do pão e a berlindava na mesa. Depois fingia comportar-se, quando a avó, por cima do ombro a espreitava e lhe dizia, bebe o leite, Bárbara, olha que chegas atrasada à escola.  E o tempo, naquela altura, não doía, era feito de uma espuma-canção que sabia a algodão doce nos domingos de feira. Come o pão, Bárbara, ralhava de novo a avó com o olhar cheio de nada. Era cega. Mas não na alma, onde tudo tem lugar.
Bárbara cresceu. De menina se fez gente. De gente se fez aos pedaços. Naquela manhã a chuva suspendeu-se, deixando os passeios escorregadios, as valetas atulhadas de lixo. As luzes começam a acender-se nas casas que madrugam, todos os dias, para os dias de trabalho. As crianças são levantadas à força, interrompendo o leito onírico em que se deitaram, fechando os olhos aos sonhos e abrindo-os ao frio que faz lá fora. 
Entretanto começara a cacimbar. Havia um grito mudo e negro que queria chorar a dor daquele inverno. Bárbara aguarda o comboio que a vai deixar no Intendente. Havia música-canção na chuva miudinha. Havia passos de dança nas águas que lavavam os passeios. 
Bárbara quer o futuro emprestado. Quer saber-lhe as profecias. Quer adivinhar-lhe os cheiros e sabores. Quer-lhe a vida por inteiro. E volta a sonhar, como em criança, quando a avó tinha de lhe bater no ombro e trazê-la de volta ao presente.
Olhe, sente um toque suave no braço, é o comboio. Não vai entrar?
Às vezes era bom que a infância não crescesse, que fosse suspensa num sítio onde nada dói. 

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