terça-feira, 4 de dezembro de 2012

La Réponse à la Lettre


A.




Escrevo-te de sob o quente das mantas neste dia frio de outono. O sol brilha, mas o ar corta a pele em agulhas de gelo que nos adormecem as faces. Adivinha-se o inverno nos ramos nus das faias de fora da janela, no cristalino azul do céu, na gata que se enrosca junto do bule de chá que exala o paraíso pelo bico. Há um prenúncio de neve nas minhas mãos sempre frígidas, nos olhos que me ardem de lágrimas que não choro.
Lembro-te. Dois momentos ressaltam-me na curva da memória, quase sucessivos. Um concerto à chuva, Não respire, pode respirar, em que foste a única que partilhou comigo a urgência de ir, apesar do cansaço, da chuva, da inebriação do álcool. E um Chá Dançante a que não foste, porque foste a única que escolheu ficar a fazer-me companhia numa madrugada de luto.
Não me lembro ao certo de como nos conhecemos, exceto que foi por intermédio do meu melhor amigo da época. Não me lembro das palavras exatas que trocámos, apenas que era um prazer conversar contigo. E em breve deixaste de ser a amiga de um amigo e passaste a ser a minha amiga.
A vida levou-me para longe. Ou talvez não fosse a vida, mas as minhas escolhas, o que dá no mesmo. Fui fazer o luto para outro país, quis afastar-me do que em Coimbra me entristecia, me tolhia os movimentos. Devia ter feito um esforço maior para manter perto o que dessa cidade me fazia feliz.
Andei longe por muito tempo. E ao momento de luto em que me seguraste a mão e me consolaste com o teu silêncio, somaram-se outros; aos momentos de alegria que tínhamos partilhado sucederam-se outros, sem que estivesses presente, mas de alguma forma, sem que estivesses ausente…
Não me esqueci de ti. O luto e a alegria vividos deixaram a sua marca no meu rosto, tal como acontece com todos. Mas é bom haver na vida pessoas como tu, que reconhecem o que está por detrás dessas marcas exteriores, que acedem ao que é essencial.
Não terás que esperar muito por um reencontro presencial. Diz quando e aí estarei. Para ouvir uma música. Para ler um poema. Para rir contigo, porque o riso não tem idade. Para me lembrar, eventualmente, das coisas que possamos ter esquecido.
Da tua amiga,
MJ

sábado, 1 de dezembro de 2012

La Lettre

Para a M.J.
Rua da Saudade, sem número
9999-999 Amizade

Há folhas amontoadas nas valetas. Há chuva suspensa nas féculas nuvens. Já não há verde nos caminhos e, nas árvores, apenas um cinzento-musgo seco. O vinho descansa nos tonéis sem saber se há de fermentar. Os pássaros olham o azul-céu e vêem longe a sua viagem.  Há um desejo latente de caruma a palpitar na lareira. Há castanhas a dormir nos ouriços. As melhores coisas acontecem num tempo sem memória. E é por isso que te escrevo.
Não me lembro dos pormenores em que nos conhecemos. No fundo, já não me lembro de muita coisa. Sei que virámos costas e demos passos rumo ao futuro, aquele onde hoje estamos, tu e eu. O que ficou nesse interregno de tempo desconhecido? Que caminhos trilhaste? Que escolhas fizeste? 
Às vezes sento-me à janela e vejo os dias a rir. E recuo, recuo, até aos nossos dias. Vieste uns tempos para casa de um amigo, que era aquilo que tínhamos em comum até te conhecer: um amigo. (Agora que penso nisso, também tenho de lhe escrever.) Confesso que fiquei com ciúmes. Que raio, pensei, os amigos não deviam ter outros amigos. Não há tempo para todos. Um amigo exige cuidados especiais, logo, se há mais do que um, outros acabam por não germinar, acabam por morrer. Mas tu vieste. 
Não sei como nem porquê, ficámos amigas. Já não me lembro de muitas coisas, sabes? Havia riso no teu olhar. Havia sabedoria nas palavras. Havia poesia nos teus gestos. No fundo, havia muita coisa que me leva a interrogar, hoje, porque te deixei fugir num tempo e num espaço que não foram meus. 
Durante muitos anos fui-me lembrando inúmeras vezes de ti. Os pensamentos surgiam do nada. Ou do tudo. Do tudo que fomos num momento. E não era preciso ouvir uma música, ler um poema, estar à chuva a ver um concerto do Sérgio Godinho. Lembrava-me porque me queria lembrar. Porque me foste importante. Porque me tocaste no ombro e a marca ficou lá. Porque há muitas coisas que não se explicam por palavras. 
Esses dias findaram e tu voltaste para as tuas origens. Foi com saudade que te acenei da estação e disse-me, em surdina, até breve, amiga. Espero que voltes. Depois liguei o carro e fui embora. É uma tipa fixolas, pensei, não com estas palavras, porque naquele tempo tínhamos respeito pela língua e, acima de tudo, pelas pessoas, especialmente se gostávamos delas. Mas hoje, como tudo isto se está a perder, dou-me ao luxo (ou lixo) de assim escrever, não sem te sossegar. Aquilo que penso está muito longe daquilo que digo. Porque há palavras que só eu entendo e é nelas que te quero guardar.
Entretanto, o tempo encarregou-se de te trazer de novo. Houve uma panóplia de sensações que lutaram entre si para ver qual delas tinha mais força. Estava lá outra vez, no nosso tempo, a escutar-te, a escutar-nos, nas frias noites de Coimbra, depois de calcorreadas umas quantas ruas sem pressa e sem o peso do cansaço. Éramos tanto. Tínhamos sonhos, ideologias. Queríamos ser. 
Olho-me ao espelho. Os cabelos já branqueiam. Algumas rugas rodeiam os meus olhos por onde já passaram tantos rios. O corpo já me fraqueja. E já me esqueci de tantas coisas. Maldita memória que teve de reter tanto de inútil que não me deixa espaço para o essencial. Continuo a olhar pela janela. Vejo-te nos teus ainda vinte anos, mas mais madura, talvez mais serena, característica que ganhamos com a idade à medida que vamos perdendo a força da juventude. Espero por ti. Tenho o vinho a respirar e as rosquilhas de azeite no saco fechado. Não vou brindar sem ti. Vou-me sentar à janela e, enquanto não chegas, vou lapidando a memória. Talvez me lembre da razão que me fez gostar de ti. Mas, se isso não acontecer, não leves a mal. Sabes, é que, no fundo, já não me lembro de muita coisa.
Da tua amiga,

A.