domingo, 7 de abril de 2013

A casa

As janelas estavam fechadas, como se a casa se tivesse aquietado num sono profundo, ou tivesse mesmo adormecido, para sempre. Os retratos, cheios de pó e emoldurados a teias, pareciam pinturas de outra era, imponentes, de olhar sério e bigodes penteados a rigor. As senhoras, de vestidos que, ao movimentar-se, faziam um frou-frou suave, sorriam forçadamente para a tela, ou para o pintor.
Do lado de dentro das paredes só o silêncio, pesado, fúnebre, incandescido por uma natureza morta. Não havia nada, a não ser o nada a existir. 
Decorria o ano de 1900. Portugal era outro, mais novo, no traço e no género. Alguns coches passeavam-se pela cidade, uns a anunciar o futuro, outros ainda a trote de cavalo. Eu, que vivia noutra época, num futuro não muito longínquo, bebia aquela vida com a subtileza de uma borboleta que esvoaça ao redor da flor com movimentos de bailarina. E eu a querer ser dali. A querer existir a trote de cavalo. 
Os meus olhos pousaram na casa. Térrea, de paredes grossas, com vasos à janela. Uma luz baça, como que mortificada, penetrava as janelas fechadas fazendo anunciar a solidão da casa. Os objectos pereciam, perenes, cobertos de um pó esbranquiçado, nos móveis também eles por existir. Tudo tão vazio e, contudo, tão cheio. 
Quis entrar na casa, sentar-me na chaise longue e fazer parte daquele início de século tão diferente do meu. Como é viver no niilismo do futuro? No nada do amanhã, embora eu o saiba porque nele vivo? 
Há sempre algo de saudoso no passado. A mim, doíam-me os olhos de não o poder ter visto. Mas, o que mais dói na saudade, é ela existir. 

7 de Abril de 2013

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