sábado, 27 de abril de 2013

O trevo e o pirilampo

Houve um tempo em que na minha memória apenas habitavam campos de trevos pintados de flores amarelas. Houve, também, pirilampos, pequenos voadores que exigem longas e quietas planícies douradas para existir. A esta memória gosto de chamar infância, a idade que não tem idade, nem dias, nem horas, onde o tempo só é tempo nos relógios do futuro. 
Os pirilampos vinham à noite linguarejar-me o sono. Outras vezes eram os cães. Outras, ainda, era o matraquear da velha máquina de escrever de meu pai, que ronronava pela noite dentro, como se para ela também não existisse tempo, apenas a velha infância. Não sei o que ela escrevia. Nunca o soube. 
Há lugares que nunca esquecemos. Como se nos corressem nas veias como a seiva nas flores. Ou como se se tatuassem na nossa pele como amor de mãe. Aqueles lugares onde se descansa a minha memória e os pirilampos ainda piscam. 
Mas há, também, sítios que as ideias não visitam, nenhum pensamento os frequenta. Esses são os sítios-nada, onde o tempo, o lugar e a pessoa não se encontram para haver futuro. Desconfio, até, que nem os pirilampos por lá voam. São os lugares vazios onde as memórias não entram e os campos de trevos não existem. 
Agora habito sítios onde já não há planícies douradas nem pirilampos plantados junto aos trevos amarelos, ou a esgueirar-se em tons de azul até lá ao fundo, às nêsperas maduras.
Hoje já só vou guardando memórias. Mas há lugares onde, na vez delas, já só há silêncios e ocos.

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