sábado, 18 de maio de 2013

Eu(s)

Há sempre um quê de saudade por entre as mantas da solidão. É nesse tempo e nesse espaço que nos pertencemos, como se a vida fosse só lá-dentro. De nós. Onde os ruídos são escassos e as palavras a mão que embala o berço. 
Não há senão gritos mudos na solidão, essa porta aberta por onde entram nenhuns, onde os algures são espaços vazios. Onde a vida flui como lava incandescente. Onde os outros não são senão pedaços. Só lá. Em nós. 
E cai a tarde, neste espesso de nada, na quietude do lugar que é em mim, na lassidão do tormento que se foi porque não é. As ondas revoltam-se lá longe, no mar. Mas não aqui, em mim. Não hoje. Hoje só o silêncio. E é no silêncio que me desfaço como espuma de nada. É no silêncio que escuto vozes do lá-longe, como eus difusos num espaço sideral. Sim. Porque eu sou muitos eus, cada um marcado pela presença de um tu, de um vós. E é nestes eus que me enrolo para me guardar, como se fosse para sempre casulo e nunca borboleta. 
Agora só o ritmo do tempo marcado a passo de relógio. E a bruma da saudade que teima em ficar, a ocupar esse espaço-vazio-de-nada. Como se fosse uma moldura vazia. 
E quando supomos que tudo é, nada é. E do resto. Mas do resto só o silêncio. E eu? O que sou? Um resto dos outros. 

domingo, 12 de maio de 2013

Filho-Mãe

Vamos iniciar esta viagem juntos. Eu desconheço o que é ser mãe. Tu ignoras o que é ser filho. Para já só o amor, aquele que não sabemos o que é. Nunca sabemos. Até sê-lo. 
Para já só o medo. O medo deste trilho que vamos começar juntos. Tu de um lado. Eu do outro. A par. A passo. Vamos cair algumas vezes, mas levantar-nos-emos com os olhos postos no futuro que nunca chega. 
Para já só o erro. Também iremos errar muitas vezes. Eu em ti. Tu em mim. Perdoar-nos-emos, porque vamos estar sempre a aprender, como se a vida-filho-mãe fosse um manual de instruções sempre a acontecer. 
Para já só a ânsia. De querer que acertes em todas as escolhas que farás, ainda que, a falhares, me doa mais a mim do que a ti. Mas tu nunca o saberás. Porque a força-mãe que em mim habita me impelirá a nunca te deixar cair. Mas vais cair. Sei que vais cair. Porque um dia não vou estar lá.
Para já só a certeza. De que nunca te faltarão flores. Não as de jardim, que no inverno morrem. Ou adormecem, apenas. Mas as flores que à noite te vou contar em forma de histórias para crianças, onde tudo acontece e nada é. Onde os sonhos se desenrolam como novelos de lã coloridos. 
Para já só o sol. Não o astro-rei que incendeia o céu, mas aquele que tu aqueces em mim quando esbracejas à procura de lugar. Quando te aconchegas no teu canto-mãe para dormir a sesta. Ou quando esperneias porque já não cabes em ti.
Para já só a luz. Aquela que eu vejo quando se apagam todas as estrelas e a noite cai em forma de breu. Mas ela está lá, a brilhar num qualquer canto do meu olho e a acenar-me um final feliz. 
Para já. Para já só o amor. Irei partir antes de ti. Terei de partir. Forçosamente. Mas levarei comigo todos os teus momentos de ser. Os grandes e os pequenos. Os gestos e os risos. Os doces e os amargos. As quedas e as lágrimas. Os abraços e a falta deles. Levo comigo o amor. Aquele que só acontece sendo. Não vou querer que chores. Vou querer que te lembres do primeiro abraço que te dei e que te guardes nele. Como se fosses a sua semente. Porque é isso o amor. É a doação infinita de um ser a outro. E é isto que serei para ti. Sempre. Sempre. O amor. (Para o Tomás.)

quinta-feira, 2 de maio de 2013

A cidade

Uma luz suave cai sobre a cidade quase adormecida. Há uma semi-noite que se anuncia. Há vidas por dentro das janelas iluminadas. Há telhados que terminam em águas-furtadas. Vê-se o pico de uma igreja e a porta semi-aberta através da qual pessoas se cruzam, acenando-se. Um pouco ao longe, num prédio que sobressai dos restantes, avista-se uma divisão ampla, com os cortinados em desalinho e um candeeiro de teto a pender para o meio da sala. Em toda uma parede há estantes com livros, de todas as cores e tamanhos, um jardim de letras onde se semeiam as palavras. 
Num canto, à lareira, um vulto lê. Há uma manta que lhe cobre os ombros. E eu não sei a sua idade. Talvez vinte, um pensador ávido de conhecimento. Talvez quarenta, mente madura a precisar de palavras. Talvez, até, oitenta, pesando a vida com o pensamento dos outros. O livro fala-lhe. Ele responde-lhe em silêncio.
Entretanto, o dia rompe. O sol já vai um tanto alto quando acordo. Há zumbidos de pássaros nos alvéolos das flores e cantos de abelhas nos ramos das árvores. Ou será ao contrário? Neste momento não sei se foi sonho ou real. Se foi vida ou ficção. Não sei o que acontece em mim quando durmo, senão que sei que sonho. É isto a vida.
E há sempre vida por dentro das casas. Pelo menos enquanto não nos morrerem as memórias.