quinta-feira, 2 de maio de 2013

A cidade

Uma luz suave cai sobre a cidade quase adormecida. Há uma semi-noite que se anuncia. Há vidas por dentro das janelas iluminadas. Há telhados que terminam em águas-furtadas. Vê-se o pico de uma igreja e a porta semi-aberta através da qual pessoas se cruzam, acenando-se. Um pouco ao longe, num prédio que sobressai dos restantes, avista-se uma divisão ampla, com os cortinados em desalinho e um candeeiro de teto a pender para o meio da sala. Em toda uma parede há estantes com livros, de todas as cores e tamanhos, um jardim de letras onde se semeiam as palavras. 
Num canto, à lareira, um vulto lê. Há uma manta que lhe cobre os ombros. E eu não sei a sua idade. Talvez vinte, um pensador ávido de conhecimento. Talvez quarenta, mente madura a precisar de palavras. Talvez, até, oitenta, pesando a vida com o pensamento dos outros. O livro fala-lhe. Ele responde-lhe em silêncio.
Entretanto, o dia rompe. O sol já vai um tanto alto quando acordo. Há zumbidos de pássaros nos alvéolos das flores e cantos de abelhas nos ramos das árvores. Ou será ao contrário? Neste momento não sei se foi sonho ou real. Se foi vida ou ficção. Não sei o que acontece em mim quando durmo, senão que sei que sonho. É isto a vida.
E há sempre vida por dentro das casas. Pelo menos enquanto não nos morrerem as memórias. 

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