domingo, 12 de maio de 2013

Filho-Mãe

Vamos iniciar esta viagem juntos. Eu desconheço o que é ser mãe. Tu ignoras o que é ser filho. Para já só o amor, aquele que não sabemos o que é. Nunca sabemos. Até sê-lo. 
Para já só o medo. O medo deste trilho que vamos começar juntos. Tu de um lado. Eu do outro. A par. A passo. Vamos cair algumas vezes, mas levantar-nos-emos com os olhos postos no futuro que nunca chega. 
Para já só o erro. Também iremos errar muitas vezes. Eu em ti. Tu em mim. Perdoar-nos-emos, porque vamos estar sempre a aprender, como se a vida-filho-mãe fosse um manual de instruções sempre a acontecer. 
Para já só a ânsia. De querer que acertes em todas as escolhas que farás, ainda que, a falhares, me doa mais a mim do que a ti. Mas tu nunca o saberás. Porque a força-mãe que em mim habita me impelirá a nunca te deixar cair. Mas vais cair. Sei que vais cair. Porque um dia não vou estar lá.
Para já só a certeza. De que nunca te faltarão flores. Não as de jardim, que no inverno morrem. Ou adormecem, apenas. Mas as flores que à noite te vou contar em forma de histórias para crianças, onde tudo acontece e nada é. Onde os sonhos se desenrolam como novelos de lã coloridos. 
Para já só o sol. Não o astro-rei que incendeia o céu, mas aquele que tu aqueces em mim quando esbracejas à procura de lugar. Quando te aconchegas no teu canto-mãe para dormir a sesta. Ou quando esperneias porque já não cabes em ti.
Para já só a luz. Aquela que eu vejo quando se apagam todas as estrelas e a noite cai em forma de breu. Mas ela está lá, a brilhar num qualquer canto do meu olho e a acenar-me um final feliz. 
Para já. Para já só o amor. Irei partir antes de ti. Terei de partir. Forçosamente. Mas levarei comigo todos os teus momentos de ser. Os grandes e os pequenos. Os gestos e os risos. Os doces e os amargos. As quedas e as lágrimas. Os abraços e a falta deles. Levo comigo o amor. Aquele que só acontece sendo. Não vou querer que chores. Vou querer que te lembres do primeiro abraço que te dei e que te guardes nele. Como se fosses a sua semente. Porque é isso o amor. É a doação infinita de um ser a outro. E é isto que serei para ti. Sempre. Sempre. O amor. (Para o Tomás.)

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