sábado, 18 de maio de 2013

Eu(s)

Há sempre um quê de saudade por entre as mantas da solidão. É nesse tempo e nesse espaço que nos pertencemos, como se a vida fosse só lá-dentro. De nós. Onde os ruídos são escassos e as palavras a mão que embala o berço. 
Não há senão gritos mudos na solidão, essa porta aberta por onde entram nenhuns, onde os algures são espaços vazios. Onde a vida flui como lava incandescente. Onde os outros não são senão pedaços. Só lá. Em nós. 
E cai a tarde, neste espesso de nada, na quietude do lugar que é em mim, na lassidão do tormento que se foi porque não é. As ondas revoltam-se lá longe, no mar. Mas não aqui, em mim. Não hoje. Hoje só o silêncio. E é no silêncio que me desfaço como espuma de nada. É no silêncio que escuto vozes do lá-longe, como eus difusos num espaço sideral. Sim. Porque eu sou muitos eus, cada um marcado pela presença de um tu, de um vós. E é nestes eus que me enrolo para me guardar, como se fosse para sempre casulo e nunca borboleta. 
Agora só o ritmo do tempo marcado a passo de relógio. E a bruma da saudade que teima em ficar, a ocupar esse espaço-vazio-de-nada. Como se fosse uma moldura vazia. 
E quando supomos que tudo é, nada é. E do resto. Mas do resto só o silêncio. E eu? O que sou? Um resto dos outros. 

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