quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Quero

quero, de novo, as noites por inteiro, a tela onde guardo as memórias que não são minhas e os passos que ficaram por dar. 
quero o gargalhar de fim de dia sem ponteiros, nem relógios, sem esgares de dor, nem subtis afonias.
e, no entanto, tu.
quero a vida que me fugiu por becos de saudade. 
quero o sol de verão a enrugar-me a pele, o vento outonal que me fustiga os cabelos, o frio que se me enrola em cachecóis de pura lã, os espirros matinais dos pólenes primaveris. 
quero. e, contudo, tu.
quero. mas já não sei ser sem ti. quero o que ficou lá atrás, mas também o futuro contigo. e esta dicotomia que me dilacera, como se não houvesse ontem-amanhã, mas apenas o hoje, turbilha-me nas veias, aquece-me a memória e incendeia o meu peito em tons de mel e fuligem. quero, porém, tu.
sabes? quero(te). quero(nos). quero(me). e todos estes pronomes são apenas um: tu.
há um quê de doente na ponta dos meus dedos: não sei se a obsessão de te querer, se a esquizofrenia de te não ter para sempre. sim, há um quê de doente na ponta dos meus dedos. e toco-te, para ver se és real ou se não passas de uma alucinação. a alucinação de te querer, querendo(me)(nos).
quero tanto e tão pouco. ali, o teu abraço; além, o teu sorriso; aquém, o teu olhar.
quero(me). e, não obstante, tu.

Imagem: www.luciamrusso2.com



1 comentário:

  1. Olá Ada, fico lisonjeada que uma das minhas pinturas tenha sido escolhida para ilustrar seu texto. Porém gostaria que vc colocasse um link para o meu site, www.luciamrusso2.com , onde mostro muitas outras pinturas. Agradeço.
    Lúcia Russo

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